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Obtenha Recursos Sem Ter um Doador
René Steuer*
Tive um chefe que costumava dizer "Quem
paga a orquestra escolhe a música". Algo semelhante ocorre na
obtenção de recursos por uma Instituição. A doação, em geral é para
um projeto específico, vem para um determinado fim. Em principio se
a entidade deseja utilizar parte para um outro fim deve solicitar
aprovação do doador. O recurso vem carimbado, rotulado. No mínimo
moralmente não pode ser usado para outro objetivo.
Também se sabe que se uma fonte de
recursos representa elevado percentual (mais de 25%) do total que
captarmos, isto pode criar uma relação de dependência nada salutar. Em
tese confere ao doador um poder sobre nossa entidade que não queremos.
Um sonho do gestor de uma ONG é ter recursos que possa usar para fins
diversos, de acordo com suas necessidades. Este tipo de recurso de uso
flexível são aqueles que nos chegam via mensalidades de indivíduos
(que muitas entidades tem) ou também via Fundos Patrimoniais (que
quase ninguém tem).
Hoje desejo abordar uma preciosa
ferramenta que nos brinda recursos que dão a liberdade almejada: são
os esforços de geração de renda. Exemplos comuns são vendas de
produtos e/ou serviços. São práticas comuns no Brasil, mas só existem
em larga escala principalmente no caso de instituições educacionais ou
de saúde. Estas "vendem" aulas/ conhecimento ou cuidados contra algum
mal ou moléstia. As entidades que não são colégios ou clinicas se
beneficiam pouco de alguma "venda". Não precisa, não deve ser assim.
Siga conosco neste escrito que esperamos desperte idéias a você
gestor.
A venda de produtos ou serviços é
pratica bem antiga e sua natureza bastante diversificada. A seguir
apresentamos uma série de exemplos:
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Os monges do monastério "La Grande
Chartreuse" localizado nos Alpes franceses produzem o famoso licor
Chartreuse há cerca de 300 anos. As vendas ajudam a manter o
monastério;
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Os cartões de Natal da Unicef
produzidos em várias línguas são vendidos em dezenas de países,
trazendo uma renda que é importante para manter a entidade;
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As bandeirantes (escoteiras) nos
Estados Unidos, vendem biscoitos muito conhecidos, há mais de 60
anos;
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O Museu de Phnom Penh no
Camboja tem muitos morcegos. Seus trabalhadores colhem os dejetos
dos morcegos e os vendem como fertilizantes;
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O Mosteiro de São Bento, em São
Paulo, produz e vende seus deliciosos bolos Dom Bernardo, Santa
Escolástica, o pão São Bento, além de mel, geléia e outros produtos;
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O CEPAC, instituição que provê
reforço educacional a jovens carentes no Parque Imperial,
fez acordo com uma recicladora de papel, segundo a qual a entidade
consegue clientes que vendam aparas de papel para a recicladora que,
em troca, dá 5% do valor do que compra para o CEPAC;
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A Instituição Kolping,
organização social católica nascida na Alemanha no século XIX,
construiu em Montevidéu um Hotel-Escola que aluga para Convenções e
Seminários;
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O conhecido Padre Haroldo, grande
especialista em cuidar de dependentes químicos, fez algo semelhante
em Campinas - SP. É a APOT;
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Muitas instituições tem instalado
padarias em suas sedes para educação profissional e também para
gerar renda através da venda de pães e bolos;
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A Casa-Cor da Rua (parte da OAF -
Organização de Apoio Fraterno) em São Paulo, recebe materiais
descartados e treina moradores da rua para transformá-los em belas
peças artesanais que são vendidas e inclusive exportadas para a
Itália;
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Há entidades que organizam grupos de
senhoras que produzem toalhas de mesa e banho, vestidos e outros que
são vendidos. Muitas vezes o fruto da venda é dividido entre as
senhoras e a entidade;
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Alguns estabelecem "hospitais de
bonecas" que recuperam os brinquedos avariados;
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Muito comum é a fabricação de
produtos artesanais os quais são vendidos ao publico em geral. Na
Inglaterra a OXFAM tem uma rede de lojas de artesanatos. Em
Ouro Preto, a Fundação Projeto Sorria, abriu a loja de Sabonetes
Finos de Ouro Preto.
Bem, a lista poderia se alongar muito
mais, porém o que apresentamos já é o suficiente para demonstrar que
uma instituição do Terceiro Setor pode perfeitamente obter recursos
através da comercialização de produtos ou serviços.
O que é necessário para que a
organização tenha êxito na obtenção de recursos em esforços como os
acima?
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Criatividade: Pense que tipo de
serviço ou produto sua entidade poderia comercializar exitosamente.
Considere a geografia, o entorno onde se encontra. Seja corajoso no
pensar e prudente no analisar;
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Produto ou serviço: Explore o que
faria sentido oferecer. Idealmente algo não muito comum na sua área
de atuação. Viaje na imaginação e defina idealmente três
alternativas que mereçam ser aprofundadas. Compare uma contra a
outra nos itens aqui listados e chegue a um vencedor;
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Plano de negócios: Descreva
sucintamente o projeto, suas metas, seu potencial. Que vai oferecer?
A quem? A que preço? Quais os passos de criação, elaboração e
distribuição. Projete custos e benefícios. Considere se sua
organização tem o tempo necessário para desenvolver o planejamento
ou se você precisa buscar talento adicional;
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Conhecimentos/Habilidades: Considere
se você tem o que precisa em casa. Caso não tenha, onde vai buscar.
É importante que alguém se responsabilize pelo projeto. Que seja o
gerente do mesmo, que elabore um cronograma onde constem às diversas
atividades;
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Recursos financeiros: determine
quanto precisa investir e de onde virão os fundos;
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Marketing: Pense em como fazer com
que seu público-alvo tome conhecimento do seu produto e suas
vantagens. Como você irá comunicar o produto? Que tipo de mídia será
abrangente para comunicar amplamente o seu oferecimento? Ao mesmo
tempo, verifique se o um custo para isso é razoável, para não
"sangrar" em demasia o orçamento;
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Vendas: Como pensa vendê-lo? Em que
canais de distribuição? Como será a remuneração dos vendedores?
Serão seus ou de terceiros? Como motivá-los e treiná-los?
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Pesquisa: Procure saber de entidades
que tem um projeto gerador de renda, quais são as suas experiências.
O que fizeram de mal e o que fizeram bem. É sábio aprender com os
acertos e erros dos outros;
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Aspectos legais: Certifique-se de
estar cumprindo com os requisitos estabelecidos pelas autoridades;
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Controle: Estabeleça uma freqüência
de análise para ver se os resultados reais estão em linha com os
estimados. Caso as variações sejam de 10% (para mais ou para menos),
entenda o porquê das mesmas e revise seu estimado futuro para
refletir o motivo das variações;
Fácil? Claro que não. Mas, se você é
um empreendedor, tem coragem, usa de capacidade analítica, o resultado
poderá ser altamente compensatório. Algumas dicas finais:
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Procure um produto ou serviço que
esteja relacionado com a Missão de sua entidade. Desta forma fica
melhor para ser aceito pelos potenciais clientes e, será mais fácil
de "vender";
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Invista tempo no planejamento.
Progrida com firmeza, porém pouco a pouco. Não se apresse. Este é um
projeto onde a qualidade é muito mais importante que a velocidade;
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Pense grande, mas, aceite começar
pequeno. Considere fazer um teste de mercado oferecendo seu
produto/serviço numa geografia pequena ou para pouca gente. Estando
em uma escala menor, a correção de eventuais erros, não machuca
muito e o custo das modificações é mais razoável do que numa escala
maior. Desta forma também quando seu projeto graduar para uma área
maior terá muito mais probabilidade de êxito.
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Confie no
potencial da equipe da entidade, mas se precisar, não tenha dúvida
em pedir auxilio a um especialista e Boa sorte!!
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René Steuer é Bachelor of Arts (Psicologia) pelo Amherst
College de Massachusetts, USA. Trabalhou em Marketing a Administração
na Richardson Vicks e Procter & Gamble no Brasil, México
e Venezuela. Foi um dos fundadores e preside o conselho da ABCR.
Palestrante em Gestão e Captação de Recursos no Brasil, Argentina
e Colômbia. Como consultor no Terceiro Setor trabalhou com a
EASP-FGV, Hospital das Clinicas, Comunidade Solidária, Hospital
do Câncer, Artemísia, Aldeias Infantis, OAF, CEPA C, Colégio
Santo Américo, e outros.
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