logoeditverde.GIF (6053 bytes)
Editorial

Mensagem do Coordenador do CETS

página inicial


Eleições e a Necessidade de um Contrapoder

Luiz Carlos Merege*
 

No excelente filme "Encontros e Desencontros", a diretora Sofia Coppola coloca seus personagens no seio da mais avançada tecnologia de outdoors eletrônicos, localizada em Tóquio, como uma forma de demonstrar que o extraordinário avanço tecnológico do capitalismo se contradiz com o isolamento e o amargo tédio das pessoas. Por meio de um milionário ator de meia idade e da jovem esposa de um fotógrafo, isolados em um hotel na cidade, a diretora demonstra a profunda solidão que se apossa das pessoas na vida contemporânea.

De nada adianta o acesso a todos os lazeres e possíveis consumos no luxuoso ambiente, pois os personagens acabam sempre se encontrando no bar do hotel, onde podem anestesiar sua deplorável condição humana com um copo de uísque. Diálogos com familiares por meio de ligações telefônicas são de uma frieza polar e, na maioria das vezes, acabam com o personagem falando sozinho, pois a esposa do outro lado da linha desliga antes que a conversa termine, deixando-o falar, para si mesmo, que a ama. O excelente ator transforma dramáticas situações de isolamento em hilariantes episódios, conseguindo uma agradável sutileza durante todo o desenrolar do filme, tornando-o apetitoso e leve.

Rever "Teorema" de Pasolini, no dia seguinte mostrou que um dos clássicos sobre a incomunicabilidade e o isolacionismo no capitalismo ainda continua atual. Os personagens da família burguesa de Pasolini viviam como zumbis, até que a presença de um jovem visitante transforma a vida de todos, desde a doméstica até o líder empresarial, senhor da mansão, que é o cenário principal do filme. O hermetismo de Pasolini e a sua linguagem metafórica contradizem-se com a leveza cinematográfica da diretora Coppola para demonstrar a perda de humanidade sob o sistema capitalista. Em Pasolini, os personagens se desesperam e enlouquecem quando tomam consciência da artificial condição em que vivem. Em Coppola, os personagens parecem conformar-se com o tédio, neutralizado momentaneamente por abraços, beijos e carinhos entre dois seres, vítimas de uma incontrolável situação. "Teorema", ao contrário, termina com o líder empresarial gritando em um deserto, o que pode simbolizar o desespero com a situação, que não melhora mesmo com o ato filantrópico de passar a propriedade de sua indústria para os trabalhadores. No início do filme, aparece um repórter entrevistando um trabalhador e questionando se o ato do empresário não seria o inicio de uma nova revolução que levaria todos a uma confortável vida burguesa. Aqui, o filme de Coppola dá uma resposta clara, demonstrando que o padrão de vida burguesa massificado continua a massacrar e destruir os seres humanos.

A indignação do brasileiro, mediante a vida miserável que leva, parece transformar-se rapidamente em tédio, perante as decepções que temos sofrido com a prática da política partidária, que, supostamente, deveria mudar o sistema em que vivemos.

O professor Fábio Konder Comparato, em artigo publicado na "Folha de S.Paulo", foi contundente em suas críticas ao governo atual, apontando a necessidade de se criar um contrapoder popular, por meio da formação de uma federação de organizações da sociedade civil que fortaleça a nova forma de ativismo político que elas vêm paulatinamente assumindo em nosso País e que ganhou fôlego a partir dos fóruns sociais realizados em Porto Alegre. Esta é, sem dúvida alguma, uma alternativa à paralisia dos partidos políticos, pois se trata de uma forma permanente de mobilização da população para transformar sua indignação em ações transformadoras concretas não somente por meio dos projetos sociais, mas, principalmente, pela possibilidade de unir as organizações do terceiro setor em torno de ações que resultem na transformação de nossa sociedade. Para tanto, é necessário que as organizações do terceiro setor coloquem como item principal de sua agenda o objetivo de aumentar sua influência sobre as políticas públicas, exercendo, como afirma Comparato, o controle democrático do poder. As organizações possuem o potencial de se tornarem o elo de ações cidadãs, onde o tédio cede lugar a uma energética solidariedade humana, dando sentido a nossas vidas.

A visibilidade das organizações do terceiro setor na última década vem sendo acompanhada do aumento de suas responsabilidades perante a construção da sociedade que desejamos. Anima-nos constatar que elas estão se preparando para os enormes desafios que estão enfrentando e para os que virão – o de sua união em torno de uma agenda comum de ativismo cidadão parece ser o maior deles.


* Luiz Carlos Merege é professor titular, doutor pela Maxwell School of Citizenship and Public Affairs da Universidade de Syracuse, coordenador do Centro de Estudos do Terceiro Setor - CETS da FGV-EAESP, do curso de Administração para Organizações do Terceiro Setor e do Projeto Censo do Terceiro Setor do Pará . E-mail: merege@fgvsp.br

 

indicebaixo.GIF (7256 bytes) Links Publicações Agenda Pesquisas e Banco de Pesquisas Agentes Financiadores Banco de Artigos Equipe Editorial Notícias Assine a IntegrAção Projetos e Banco de Projetos Opinião Fórum Administrando Editorial Conheça o CETS Bibliografia Sugerida