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Eleições e a Necessidade de um Contrapoder
Luiz Carlos Merege*
No
excelente filme "Encontros e Desencontros", a diretora Sofia
Coppola coloca seus personagens no seio da mais avançada tecnologia
de outdoors eletrônicos, localizada em Tóquio, como uma forma
de demonstrar que o extraordinário avanço tecnológico do capitalismo
se contradiz com o isolamento e o amargo tédio das pessoas. Por meio
de um milionário ator de meia idade e da jovem esposa de um
fotógrafo, isolados em um hotel na cidade, a diretora demonstra a
profunda solidão que se apossa das pessoas na vida contemporânea.
De nada adianta o acesso a todos os lazeres e possíveis consumos no
luxuoso ambiente, pois os personagens acabam sempre se encontrando
no bar do hotel, onde podem anestesiar sua deplorável condição
humana com um copo de uísque. Diálogos com familiares por meio de
ligações telefônicas são de uma frieza polar e, na maioria das
vezes, acabam com o personagem falando sozinho, pois a esposa do
outro lado da linha desliga antes que a conversa termine, deixando-o
falar, para si mesmo, que a ama. O excelente ator transforma
dramáticas situações de isolamento em hilariantes episódios,
conseguindo uma agradável sutileza durante todo o desenrolar do
filme, tornando-o apetitoso e leve.
Rever "Teorema" de Pasolini, no dia seguinte mostrou que um
dos clássicos sobre a incomunicabilidade e o isolacionismo no
capitalismo ainda continua atual. Os personagens da família burguesa
de Pasolini viviam como zumbis, até que a presença de um jovem
visitante transforma a vida de todos, desde a doméstica até o líder
empresarial, senhor da mansão, que é o cenário principal do filme. O
hermetismo de Pasolini e a sua linguagem metafórica contradizem-se
com a leveza cinematográfica da diretora Coppola para demonstrar a
perda de humanidade sob o sistema capitalista. Em Pasolini, os
personagens se desesperam e enlouquecem quando tomam consciência da
artificial condição em que vivem. Em Coppola, os personagens parecem
conformar-se com o tédio, neutralizado momentaneamente por abraços,
beijos e carinhos entre dois seres, vítimas de uma incontrolável
situação. "Teorema", ao contrário, termina com o líder
empresarial gritando em um deserto, o que pode simbolizar o
desespero com a situação, que não melhora mesmo com o ato
filantrópico de passar a propriedade de sua indústria para os
trabalhadores. No início do filme, aparece um repórter entrevistando
um trabalhador e questionando se o ato do empresário não seria o
inicio de uma nova revolução que levaria todos a uma confortável
vida burguesa. Aqui, o filme de Coppola dá uma resposta clara,
demonstrando que o padrão de vida burguesa massificado continua a
massacrar e destruir os seres humanos.
A indignação do
brasileiro, mediante a vida miserável que leva, parece transformar-se
rapidamente em tédio, perante as decepções que temos sofrido com a
prática da política partidária, que, supostamente, deveria mudar o
sistema em
que vivemos.
O professor Fábio
Konder Comparato, em artigo publicado na "Folha de S.Paulo", foi
contundente em suas críticas ao governo atual, apontando a necessidade
de se criar um contrapoder popular, por meio da formação de uma
federação de organizações da sociedade civil que fortaleça a nova
forma de ativismo político que elas vêm paulatinamente assumindo em
nosso País e que ganhou fôlego a partir dos fóruns sociais realizados
em Porto Alegre. Esta é, sem dúvida alguma, uma alternativa à
paralisia dos partidos políticos, pois se trata de uma forma
permanente de mobilização da população para transformar sua indignação
em ações transformadoras concretas não somente por meio dos projetos
sociais, mas, principalmente, pela possibilidade de unir as
organizações do terceiro setor em torno de ações que resultem na
transformação de nossa sociedade. Para tanto, é necessário que as
organizações do terceiro setor coloquem como item principal de sua
agenda o objetivo de aumentar sua influência sobre as políticas
públicas, exercendo, como afirma Comparato, o controle democrático do
poder. As organizações possuem o potencial de se tornarem o elo de
ações cidadãs, onde o tédio cede lugar a uma energética solidariedade
humana, dando sentido a nossas vidas.
A visibilidade das organizações do terceiro setor na última década vem
sendo acompanhada do aumento de suas responsabilidades perante a
construção da sociedade que desejamos. Anima-nos constatar que elas
estão se preparando para os enormes desafios que estão enfrentando e
para os que virão – o de sua união em torno de uma agenda comum de
ativismo cidadão parece ser o maior deles.
* Luiz Carlos Merege é professor titular, doutor pela Maxwell School
of Citizenship and Public Affairs da Universidade de Syracuse,
coordenador do Centro de Estudos do Terceiro Setor - CETS da
FGV-EAESP, do curso de Administração para Organizações do Terceiro
Setor e do Projeto Censo do Terceiro Setor do Pará . E-mail:
merege@fgvsp.br
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