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Novos Caminhos da Gestão Social: Um Estudo da Rede Jovem
Márcia Moussallem*
O avanço do campo da gestão social na
sociedade contemporânea perpassa por momentos históricos e singulares
na relação entre o Estado e a sociedade civil. As formas e tendências
de gestão social percorrem caminhos de descentralização, formulação,
implementação e controle das políticas sociais, por meio de uma “nova”
forma de intervenção: gestão em redes. Nas últimas décadas, o conceito
de rede avançou para processos de articulação social, flexibilidade e
conectividade para responder às inúmeras demandas sociais. A
revalorização das redes de solidariedade é apresentada como forma
inovadora de parceria com possibilidades e desafios na construção
conjunta de um projeto comum para a sociedade contemporânea. Será
abordado o caso da Rede Jovem, como uma das dez maiores iniciativas
que mais contribuíram para a promoção da qualidade de vida de jovens
de comunidades das periferias das grandes cidades no Brasil. Esta
experiência se tornou possível com a implantação de metodologias
relevantes, visando: à integração e à participação dos diversos atores
da sociedade; ao debate democrático frente às novas dinâmicas das
ações intersetoriais; e aos novos processos de transformação da
sociedade.
Introdução
A nova forma de gestão da política
social na sociedade contemporânea nos remete à necessidade de
contextualizar o movimento histórico do capitalismo nas relações do
Estado e da sociedade, as quais revelam grandes transformações e
reformas nestas últimas décadas.
Nos países desenvolvidos, o chamado
welfare state foi consolidado pelo Estado-Nação, capaz de garantir os
direitos sociais e as políticas universalistas de eqüidade mais
intensa para atender às necessidades fundamentais do cidadão. Para
Carvalho (1999), este modelo engendrou um modo especifico de gestão
social com características de uma gestão centralizada no Estado-Nação;
a primazia do Estado regulador; a gestão hierarquizada e setorizada da
política social; as políticas sociais universalistas; e a consolidação
da sociedade salarial.
A novidade do pós-guerra
-
o Estado de Bem-Estar Social -
foi ter imposto um modo particular e criar mecanismo de freios às
forças brutas da desigualdade socialmente produzida pelo mercado, por
intermédio do sistema de direitos e políticas sociais (Draibe, 1997).
A desestruturação do Estado de Bem-Estar Social teve sua origem nas
mudanças corridas no mundo do trabalho, marcadas por manifestações de
desemprego estrutural, subemprego e ampliação das desigualdades nos
anos 70.
As décadas de 1980 e 1990 foram
marcadas por uma gestão social moldada pela onda neoliberal, que
defendia a idéia de um Estado mínimo e a primazia do mercado para a
superação da crise.
Os governos neoliberais procuraram
reestruturar o Estado do Bem-Estar Social com a transferência de
atividades de órgãos públicos estatais às empresas privadas, às
organizações sociais de caráter público não estatal (ONGs contratadas
pelo Estado) ou às parcerias entre autarquias governamentais e
entidades privadas (Singer, 1999: 56).
Na sociedade contemporânea, vive-se um
ciclo histórico inteiramente tomado pela mudança acelerada,
ininterrupta e cumulativa. Nele, entrecruzam-se inovações tecnológicas
e modificações socioculturais que repercutem sobre planos e setores da
vida social (Nogueira, 1995:107).
As compressões políticas e econômicas
globais; as novas demandas de uma sociedade complexa; os déficits
públicos crônicos; a revolução informacional; a transformação
produtiva; o desemprego e a precarização das relações de trabalho; a
expansão da pobreza; e o aumento das desigualdades sociais são alguns
dos tantos fatores que engendram demandas e limites e pressionam por
novos arranjos e modo de gestão da política social (Carvallho,
1999:20).
A forma de pensar política nesta nova
conjuntura, na qual ocorrem mudanças em todas as esferas da sociedade,
contempla políticas universalistas e focalistas, assentadas em alguns
princípios de complementaridade, subsidiariedade, transparência,
flexibilidade, igualdade e sustentabilidade (Castells, 1998).
As políticas sociais apresentam-se com
novos arranjos de articulação e presenças partilhadas e articuladas
pelas Nações Unidas, Banco Mundial, agências governamentais e o
Terceiro Setor (global governance e local governance). A gestão
compartilhada ou welfare mix, característica desses novos arranjos de
responsabilidades compartilhadas, promove uma combinação de recursos e
de meios mobilizáveis junto ao Estado, ao mercado e às iniciativas
privadas sem fins lucrativos (Carvalho, 1998).
O Terceiro Setor, representado pela
sociedade civil organizada, emerge neste cenário com um papel
significativo na defesa dos interesses dos cidadãos e na capacidade de
oferecer respostas em tempos de retração do Estado e da perda do
status do trabalho como vetor da inclusão social (Carvalho, 1998).
Entretanto, cabe ressaltar que: “Não é
que o Estado perca a centralidade na gestão do social, ou deixe de ser
responsável na garantia de oferta de bens e serviços de direito dos
cidadãos; o que se altera é o modo de processar esta responsabilidade
(Brant de Carvalho, 1999:25)”.
Nas últimas décadas, o conceito de
rede avançou para processos de articulação social, flexibilidade e
conectividade para responder às inúmeras demandas sociais. A
revalorização das redes de solidariedade é apresentada como nova forma
de parceria com possibilidades e desafios na construção conjunta de um
projeto comum para a sociedade contemporânea.
O atual cenário contemporâneo da vida
pública vem sinalizando um importante papel do Terceiro Setor na nova
expressão da ação política via ações solidárias, que são organizadas e
articuladas em redes globais.
Segundo Carvalho(1997), a sociedade
civil vem se apresentando como defensora legítima dos interesses dos
cidadãos, oferecendo respostas em tempos de retração do Estado e da
perda de status do trabalho como vetor de inclusão social.
Novos arranjos no fazer política
social sinalizam e integram outros sujeitos em um cenário de
descentralização, articulação e complementaridade em todas as
esferas. “Em um mundo de empresas rede e de Estado rede, a
administração também deve ir assumindo uma estrutura reticular e uma
geometria variável em sua ação” (Castells, 1988).
A rede interconecta e completa
serviços similares, sejam nas esferas governamental, não
governamental, comunidades nacionais, locais e mundiais. O novo modelo
de rede tem sido difundido como uma das alternativas no campo da
gestão social e como possibilidade de uma gestão compartilhada que se
integra e se relaciona horizontalmente com objetivos comuns.
Neste quadro de novas formas de
participação, o Terceiro Setor vem se caracterizando pelo
desenvolvimento de ações conjuntas em todas as esferas, organizando
redes para troca de informações, além de promover articulações
institucionais e políticas para a implementação de projetos comuns.
O Estado, a sociedade civil e o
mercado, nesta nova conjuntura do fazer público, são marcados por
novas formas de relação e novos padrões no que tange às políticas e
aos programas sociais. Para Carvalho (1997:28), esses padrões são
caracterizados por: a) relações descentradas e horizontais; b)
negociação e participação dos sujeitos; c) políticas e programas
desenhados pelo prisma da multissetorialidade; d)
interdisciplinaridade e ações públicas fortemente conectadas com os
sujeitos, requerendo hoje, a arte de contemplar políticas
universalistas e focalistas.
A multiplicação de ações privadas com
objetivos públicos tem influenciado de maneira singular os novos
padrões de relacionamento do Estado e da sociedade, acarretando um
crescente protagonismo dos cidadãos e de suas organizações, por meio
de ações e iniciativas relevantes para públicos específicos.
O novo pensar da gestão social na
atual sociedade contemporânea, complexa e dinâmica, incorpora
estratégias fundamentais para o desenvolvimento de políticas e
programas sociais, o qual pressupõe cada vez mais a ênfase no cidadão,
por intermédio da articulação, da participação, das autonomias
solidária e de controle social do Estado.
É neste contexto que os fazeres
social e político -
com a formação de redes e parcerias
-
e as organizações da sociedade civil vêm ganhando mais visibilidade e
importância na agenda pública.
Um Estudo do Programa Rede Jovem
A Rede Jovem surgiu a partir da
iniciativa da Comunitas, Organização da sociedade civil de interesse
público, criada em 2000, por iniciativa da Dra. Ruth Cardoso, para
garantir a continuidade dos programas gerados pela Comunidade
Solidária, entre 1995 a 2002. Eles envolvem parcerias com empresas
privadas, órgãos públicos e organizações da sociedade civil.
A missão da Rede Jovem é aumentar as
participações social e cidadã da juventude, oferecendo acesso à
Internet e oportunidades de informações, expressão, articulação,
lazer, comunicação e desenvolvimento desse público.
O programa atua desde 2000 em
comunidades de baixa renda, nas periferias de grandes cidades
brasileiras. Em 2004, a rede se consolidou, ampliando a dimensão de
todo o programa, em 52 espaços jovens, instalados em 13 cidades de
sete Estados brasileiros.
Atualmente, está em cinco frentes de
trabalho: animação da Rede Jovem, implantação de espaços jovens,
acompanhamento metodológico, gerenciamento do site, sistematização e
replicação de metodologias. A rede tem um alto potencial mobilizador e
agregador tanto no site (nas listas de discussão, nos bate-papos)
quanto nos espaços. As atividades e discussões têm proporcionado de
maneira positiva o intercâmbio e a troca de experiência dos jovens,
que muitas vezes têm poucas opções culturais, ampliando assim seus
projetos pessoais e sociais.
Em 2004, foram implantados mais 34
espaços jovens, 18 deles em parceria com organizações não
governamentais, fundações, grupos de jovens, associação de moradores e
prefeituras e 30 espaços em escolas municipais no Rio de Janeiro. São
oferecidos minicursos com o objetivo de incentivar os potenciais
individual e coletivo, somando e integrando a novas tecnologias, entre
eles, oficina de currículo, redação, rádio on-line e outros.
O programa valoriza as necessidades
desse público, levando em consideração conteúdos condizentes com a sua
realidade. Destacam-se: bate-papo e fórum on-line, oficina de redação
on-line, criação de blogs, oficinas de currículo, oficina de rádio
on-line. As temáticas tratam de assuntos como: consciência negra,
combate à violência, saúde e paternidade, sexualidade, redução da
maioridade, combate à AIDS, utilidade pública na Internet etc.
Metodologia e Resultados: Gestão Descentralizada
A gestão descentralizada é um dos
fatores inovadores da rede, alcançando resultados positivos no
decorrer desses últimos anos, em que os técnicos acompanham e avaliam
uma vez por mês todos os espaços. Cada um deles tem uma coordenação
local, gerenciando horários de funcionamento, programação das
atividades, manutenção técnica e sustentabilidade financeira. A
coordenação nacional esta localizada no Rio de Janeiro.
Além disso, cada espaço da rede possui
dois jovens monitores responsáveis pela rotina diária e repasse do
relatório quantitativo e qualitativo de acompanhamento para a sede
nacional. Os monitores são qualificados e capacitados, participando de
fóruns virtuais e encontros da monitoria no decorrer do ano. Nestes
espaços de gestão coletiva, os jovens compartilham experiências com a
finalidade de refletir a importância de ouvir o outro e zelar pelo bem
público e pela participação coletiva.
O site é interativo, possibilitando
que os internautas possam publicar matérias, textos e anúncios.
(biblioteca virtual). Nele, são veiculados mensalmente boletins
eletrônicos, enviados para todos os parceiros dos espaços com as
notícias do programa. A rede dispõe ainda de cinco salas de bate-papo
e blog para criação de sites gratuitos, a fim de que os jovens possam
divulgar suas idéias na Internet. Todavia, é importante ressaltar que
a metodologia de trabalho dos telecentros é desenvolvida pelos
próprios jovens (monitores, voluntários e usários), não havendo assim
uma estrutura de cursinho.
Atualmente, a Rede Jovem recebe em
cada espaço entre 25 e 50 freqüentadores por dia. O jovem tem um
ambiente para discutir seus problemas, bem como fazer pesquisa para
escola, ler revistas e jornais. O uso de ferramentas tecnológicas
funciona como um elemento agregador, no qual projetos e atividades de
geração de renda são desenvolvidos nos bairros dos jovens.
O programa apresenta resultados
relevantes, como:
-
397.000 atendimentos;
-
43.000 cursos on-line de redação e
aperfeiçoamento de blogs e sites;
-
Milhares de oficinas diárias;
-
15.000 cursos de iniciação à
informática e à Internet;
-
350 publicações mensais no site da
rede;
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13.991 e-mails gratuitos;
-
24 edições dos boletins eletrônicos.
O programa tem crescido de maneira
expressiva, com uma metodologia inovadora tanto nas novas formas de
acesso à tecnologia como na importância de se manter um diálogo e uma
parceria com os múltiplos atores da sociedade. A experiência e a
inovação da rede no modelo de gestão descentralizada têm garantido a
participação e a integração em todos os espaços de coordenadores,
monitores e usuários.
A busca por uma interação constante
tem funcionado positivamente entre os jovens de diferentes
comunidades, potencializando capacidades individuais e coletivas. A
replicação desta metodologia do programa Rede Jovem tem fortalecido
processos de intercâmbio e experiências tanto local como mundial.
Atualmente, a rede promove encontros, seminários e fóruns com os
setores público e privado, fortalecendo e ampliando o diálogo, os
recursos e as competências necessários à promoção e ao desenvolvimento
local.
A consolidação do programa nestes
últimos dois anos, em comunidades de baixa renda, nas periferias de
grandes cidades, tem sido importante na implantação de metodologias
inovadoras e na promoção de novas formas de integração e crescimento
dos jovens. Também foi fundamental para a participação de diversos
atores da sociedade no debate e no entendimento das novas dinâmicas
sociais.
A Rede Jovem se
constitui como um exemplo de inovação na articulação e no instrumento
de aprendizagem para jovens de camadas da população pobre, como também
no novo arranjo do fazer da política social, predominando ações
intersetoriais, diálogo, além da complementaridade do Estado e da
sociedade civil diante das novas expressões da questão social na
sociedade contemporânea.
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*
Márcia Moussallem é mestranda em Serviço Social pela PUC/SP.
Pós-Graduada em Gestão de Organizações do Terceiro Setor, possui
licenciatura e Bacharelado em Ciências Sociais pela Unama-Universidade
da Amazônia, Belém-Pa. Professora da disciplina "Elaboração, Avaliação
e Monitoramento de Projetos Sociais" no Curso de “Princípios de Gestão
para Organizações do Terceiro Setor”- CETS - FGV/SP e Professora do
Curso Intensivo de “Administração para Organizações do Terceiro Setor”
na Fundação Salvador Arena / SP. emails:
marciamoussallen@bol.com.br e
memor6@yahoo.com.br.
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