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A Solução dos Problemas Socioambientais só Será
Possível com a Participação de Todos os Atores Sociais
Entrevista
com Enrique Svirsky*
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Um grupo
de pessoas, muitas já militantes e engajadas em algum tipo de
causa socioambiental, junta-se na década de 90 e resolve
fundar uma organização da sociedade civil para lutar pelos
direitos dos povos e do meio ambiente. A experiência dá certo e
12 anos depois de muita história construída é sinônimo
de seriedade e sucesso para as organizações do Terceiro Setor em
todo o mundo. |
Assim
começa a história do Instituto Socioambiental, fundado
oficialmente em 22 de abril de 1994. Apesar da data de criação,
suas atividades começaram bem antes, como ocorre muitas vezes no
Terceiro Setor.
Uma série de
acontecimentos ocorridos no final dos anos de 1980 e início de 1990
reforçaram o engajamento e a participação da sociedade civil
brasileira em questões relacionadas à sociedade e ao meio ambiente:
o processo de formulação e aprovação dos direitos sociais coletivos
e do meio ambiente na Constituição Federal (1987/88); a campanha da
Aliança dos Povos da Floresta (1989); o Encontro dos Índios em
Altamira (Pará) para protestar contra um grande plano oficial de
aproveitamento hidrelétrico da Bacia do rio Xingu (1989) e a
formação do Fórum Brasileiro de ONGs, Movimentos Sociais
preparatório para a Rio 92 (1990) e a própria Conferência das Nações
Unidas (1992). A partir desse panorama, entre 1993 e 1995, um grupo
de 33 pessoas relacionadas a ações como o Programa Povos Indígenas
no Brasil do Centro Ecumênico de Documentação e Informação
(PIB/CEDI) e o Núcleo de Direitos Indígenas (NDI) de Brasília
(ambas, organizações de atuação reconhecida nas questões dos
direitos indígenas no Brasil), participa ativamente na idealização e
implementação dessas questões ocorridas e esse processo de
articulação culmina na criação do Instituto Socioambiental.
O Instituto
Socioambiental (ISA) ampliou suas ações e atinge hoje uma
área de atuação surpreendente, tendo como sua principal missão
defender os direitos coletivos relativos ao meio ambiente, ao
patrimônio cultural, aos direitos humanos e dos povos.
Enrique Svirsky,
atual secretário executivo adjunto e membro-fundador do Instituto,
conta um pouco sobre o processo de gestão do ISA e fala da
importância da participação civil para a transformação da sociedade
e a preservação do meio ambiente.
Entrevista
Integração.
Como funciona a gestão do ISA? Como
está organizado o trabalho dentro da instituição?
Svirsky.
O Instituto tem uma forma de gestão que veio sendo construída ao
longo desses anos. Para desenvolver e administrar todos os programas
que temos hoje, além das 6 sedes, tudo é muito bem dividido. Temos
a Assembléia Geral com a participação dos sócios, um conselho
diretor formado por 5 membros, e a secretaria executiva,
representada pelo Beto Ricardo e por mim. São sete setores
trabalhando em volta de todos os projetos: O DI (desenvolvimento
Institucional), responsável pela pesquisa de editais para inclusão
de projetos, formatação e organização dos documentos; O setor de
Comunicação, com uma equipe de jornalistas muito atuante, que cuida
do site do ISA, de um mailling com mais de 5 mil pessoas, acompanham
eventos e escrevem as matérias para o site. Penso que a comunicação
é fundamentos para as nossas ações, fundamental para captar e
distribuir as informações socioambientais. Além disso, ainda faz
parte desse setor o núcleo que desenvolve os livros do ISA, com um
trabalho de qualidade que é essencial; Temos um importante setor de
Documentação, com um acervo de mapas, documentos e fotografias dos
últimos 30 anos. Essa documentação está disponível para
pesquisadores, mas é necessário agendar por conta do espaço de
arquivo desse material. Inclusive, estamos em busca de captação de
recursos para conseguir digitalizar tudo e disponibilizar ao
público; O setor de Geo-processamento é responsável pela criação
dos mapas. O ISA é muito procurado por entidades nacionais e
internacionais para a criação de mapas, com esse estudo criamos o
maior banco de dados de terras indígenas e áreas de conservação da
Amazônia; Tem também o setor de Capacitação, que chamamos de área chão,
onde realizamos um trabalho local com as comunidades, atuando com
associações locais, quilombolas, índios, estimulando a autogestão
dessas comunidades de acordo com as demandas locais; Tem ainda a o
setor de Informática que dá suporte a todas as nossas sedes e
equipamentos; Além, é claro, do setor Administrativo, que cuida de
toda a parte administrativa e financeira, os produtos do ISA,
compras e vendas, e auditoria. Todas essas áreas de apoio são
fundamentais para o funcionamento do Instituto.
Integração.
Quais são os principais projetos do ISA
atualmente?
Svirsky.
O grande esquema de atuação do ISA é o trabalho com um sistema
vertical, onde existe a articulação com o todo. Nós temos as ações
Globais, como a participação em eventos como COP, MOP, etc.; As
ações de políticas públicas, que estão ligadas as pressões e
articulações com governos; As ações regionais, que são os programas,
campanhas, com a participação de outros agentes e parceiros; E as
ações locais, que chamamos de ações com o pé na comunidade (área
chão), onde conhecemos os povos, entendemos suas demandas e assim
buscamos formas de ajudar na solução para os problemas. Temos os
programas, que são ações grandes, com localizações fixas, sede
própria, vários projetos pautados e uma relação contínua; tem o
tema, que são projetos específicos , com uma equipe voltada para
aquela ação, e as campanhas que estão relacionadas a uma ação
exclusiva, como a questão das barragens ilegais ou o Y Ikatu Xingu,
que é uma empreitada pela recuperação das nascentes e matas ciliares
do rio Xingu e que planejamos transformar em uma grande campanha
internacional.
Os programas
desenvolvidos pelo ISA atualmente são: Xingu, criado em 1995, é um
conjunto de projetos para a região, desenvolvido com as comunidades
locais, desde o monitoramentos das fronteiras do Xingu, a
iniciativas de geração de renda e formação de agentes indígenas de
saúde; Rio Negro, um programa que busca o desenvolvimento indígena
sustentável a partir do aproveitamento dos recursos naturais locais;
Mananciais, é o programa realizado na região metropolitana de São
Paulo que visa apontar alternativas para reduzir a ameaça de colapso
no abastecimento de água da região; PPDS, que são ações pautadas aos
direitos coletivos e políticas públicas; o programa Vale do Ribeira
que acontece desde 1997 onde o ISA atua também com parceiros em
busca de alternativas de geração de renda de famílias quilombolas;
Além do programa de monitoramento, que produz a publicação Povos
Indígenas do Brasil, que é considerada a Bíblia sobre os povos
indígenas no Brasil.
Integração.
Atualmente qual a dimensão do ISA em
termos de funcionários? Quantos são contratados e quantos são
voluntários? Como se dá à profissionalização do ISA nas atividades
meio?
Svirsky.
A O ISA trabalha hoje com 110 funcionários distribuídos nas seis
sedes. São dois tipos de funcionários, os fixos, que atuam em local
específico e os móveis que deslocam-se por vários locais e projetos.
Temos apenas cinco voluntários, até gostaríamos de ampliar esse
número, mas falta espaço físico na sede de São Paulo. Os
profissionais passam por uma seleção para atuar no ISA, precisa ter
o perfil da atividade, formação relacionada. Contratamos muitos
estagiários, é bom para treinar o profissional, assim, quando ele
sai da universidade já entende bem a instituição. O ISA envia seus
funcionários para cursos sempre que possível, para tentar
qualificá-los nas áreas em que atuam.
Integração.
A maior parte das instituições do
Terceiro Setor depende de patrocínios e financiamentos. Quais são as
fontes de recursos do ISA?
Svirsky.
Nós realizamos um levantamento há pouco tempo sobre isso. Atualmente
o ISA tem o apoio de mais de 35 instituições internacionais, no
entanto, as empresas brasileiras são o menor apoiador de todas as
nossa ações. Percebemos que setor privado não se interessa em apoiar
a causa socioambiental e isso precisa mudar. O orçamento mensal do
ISA – e isso está disponível no site – é de 1 milhão e mesmo assim
nós decidimos não aceitar recursos de empresas que tenham algum tipo
de passivo socioambiental, elas devem ter essa preocupação.
Fontes de
Recurso*:
|
%Anuais |
1995 |
1996 |
1997 |
1998 |
1999 |
2000 |
2001 |
2002 |
2003 |
2004 |
2005 |
Total |
|
1 |
Doações Externas |
77,2% |
83,3% |
77,5% |
76,4% |
83,5% |
80,7% |
83,1% |
83,6% |
85,2% |
86,8% |
82,3% |
83,2% |
|
2 |
Fundos Públicos Nacionais |
0,0% |
6,5% |
15,5% |
15,8% |
3,3% |
11,2% |
9,4% |
9,2% |
5,7% |
4,0% |
7,2% |
7,6% |
|
3 |
Doação de Empresas Nacionais |
0,0% |
0,0% |
0,0% |
3,8% |
6,8% |
3,1% |
3,4% |
2,4% |
1,0% |
3,8% |
0,3% |
2,4% |
|
4 |
Vendas e Prestação de Serviços |
2,7% |
2,4% |
1,3% |
2,4% |
0,5% |
1,2% |
2,2% |
2,6% |
1,1% |
1,2% |
1,6% |
1,7% |
|
5 |
Outras Receitas Nacionais |
16,4% |
6,9% |
5,0% |
1,5% |
5,3% |
3,0% |
1,5% |
1,5% |
3,8% |
1,3% |
2,1% |
2,8% |
|
6 |
Receitas Financeiras |
3,7% |
0,8% |
0,7% |
0,1% |
0,7% |
0,8% |
0,5% |
0,7% |
3,1% |
2,9% |
6,4% |
2,3% |
|
|
Total |
100% |
100% |
100% |
100% |
100% |
100% |
100% |
100% |
100% |
100% |
100% |
100% |
Integração.
Como funciona a captação de recursos do
Instituto?
Svirsky.
A O ISA realiza seu próprio processo de captação de recursos, não
contratamos profissionais para isso. É um trabalho de persuasão
direto feito ou pela secretaria executiva ou por um programa.
Integração.
Que experiências foram adquiridas que
devem ser transmitidas às outras instituições do Terceiro Setor?
Svirsky.
Percebemos a necessidade de ter pessoas com experiência relacionada
à causa na criação da entidade, buscar uma atividade
auto-sustentável que possa bancar a instituição, buscar parcerias,
elaborar bons projetos, de forma claras, mas o que considero mais
importante para ser perene e forte é o contato com a realidade local
da comunidade com que a organização está trabalhando, não pode ser
uma ONG de escritório. As parcerias locais é que vão mostrar as
demandas, os problemas e até as soluções.
Integração.
Existe uma crescente tendência da
realização de parcerias entre o Terceiro Setor e o Governo para
viabilização de projetos na área de meio ambiente, como vocês vêem
essa evolução?
Svirsky.
Considero que a solução dos problemas socioambientais só acontecerá
com a participação de todos os atores sociais. É necessário buscar
parceiros para encontrar alternativas e respostas. É importante
atuar em redes, consórcios, Conselhos. Trabalhar em conjunto com
todas as esferas, além de governo, empresas, instituições
internacionais, além de fundamental a participação das comunidades
locais para reconhecermos a situação específica local e tentarmos
melhorá-la.
Integração.
O ISA realiza diversas campanhas que
influenciam as votações de leis ambientais, existe algum projeto do
Instituto que já foi adequado às políticas públicas?
Svirsky.
O ISA tem uma participação significativa no que diz respeito às
ações de pressão ao governo para votações ou criação de leis
socioambientais, isso vem desde a criação da Constituição em 1988.
Além disso o ISA já desenvolveu ações junto ao governo, como criação
do plano diretor de Cachoeira ou as análises na questão do Rodoanel,
além de outros projetos em que há uma interface com o governo. Como
disse, é necessário dialogar em todas as esferas.
Integração.
A cada dia a sociedade civil organizada
se apropria mais das responsabilidades e demandas relacionadas ao
meio ambiente, povos indígenas, quilombolas, entre outros, em função
da deficiência de ações do poder público. O que vocês pensam sobre
essa relação?
Svirsky.
Acho ótimo que cada vez a sociedade civil participe mais e mais. É
importante auxiliarmos no direito de outros povos na busca de que
sejam valorizados, reconhecidos. É importante que a sociedade civil
participe, pois muitas vezes a visão do governo pode ou não ser
diferente da visão das instituições do terceiro setor. A questão é,
de que lado você está? Nós estamos ao lado dos direitos coletivos
dos povos.
Integração.
Alguma coisa para acrescentar?
|
Svirsky.
Gostaria de lembrar que a todo o tempo falamos de democracia,
mas o importante é trazer essa democracia para dentro das instituições
também. É necessário que as questões sejam discutidas em grupos.
No ISA realizamos muitas reuniões com os envolvidos, existe
uma democratização de informações e decisões. É preciso exigir,
pressionar e cobrar, agora a democratização não deve ser apenas
para fora, ela precisa ser implantada para dentro também. |
 |
Enrique
Svirsky é ambientalista, uruguaio de nascimento, administrador de
empresas e mestre em sociologia pela FLACSO. Especializado em elaboração,
negociação e avaliação de projetos, trabalhou na CETESB. Foi vice-presidente
do ISA e desde maio de 2005 é secretário executivo adjunto.
Para conhecer a
história do Instituto Socioambiental e seus projetos em detalhes,
acesse o especial ISA 10 anos disponível no site –
www.socioambiental.org
*Informação cedida pelo ISA.
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