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Informações do Ambiente Externo em Organizações do Terceiro Setor:
Estudos e Aplicações das Configurações em Rede no Campo da Ciência
da Informação
Simone Cristina Dufloth*
RESUMO
Este
trabalho propõe uma reflexão sobre as informações do ambiente externo
em organizações do terceiro setor, considerando suas configurações em
rede. Nesse sentido, buscou estudar as organizações do terceiro setor,
especificamente as fundações de direito privado sem fins lucrativos de
caráter filantrópico sediadas na cidade de Belo Horizonte, Minas
Gerais, com o objetivo de caracterizar a prática que adotam para a
obtenção, organização e distribuição de informações do ambiente
externo, bem como de identificar as informações do contexto externo
mais utilizadas e/ou procuradas, e as principais fontes ou meios de
obtenção de informações. Nas reflexões acerca das redes de conexões
estabelecidas entre organizações do terceiro setor, envolvendo também
parceiros, voluntários, sociedade, empresas e governo, pondera-se
quanto ao monitoramento e às necessidades de informações do ambiente
externo para fins gerenciais. As configurações em rede são
consideradas, a partir da evolução do pensamento sistêmico até as
novas teorias de auto-organização com vistas a compreender a lógica de
funcionamento dessas organizações enquanto sistemas sociais, nos quais
a informação se faz imprescindível como fator de manutenção dessas
organizações.
1
INTRODUÇÃO
Na era das telecomunicações, da
multimídia e da internet, consolida-se uma nova sociedade, pela
criação de redes de conexões que integram todas as partes do mundo, ao
mesmo tempo que evidenciam suas diferenças. Trata-se de um ambiente de
alta conectividade, em que todos os seus participantes dependem do
conhecimento interconectado, em face da impossibilidade de se
desenvolver uma visão completa de um determinado campo. Surge, então,
a noção de inteligência coletiva, segundo a qual o conhecimento e a
capacidade de criação local são ampliados pela atuação de cada
participante envolvido em redes.
Em paralelo ao avanço
tecnológico, acentuam-se as diferenças de renda da população,
emergindo segmentos da sociedade que lutam pela representatividade das
classes menos favorecidas, pela execução de ações filantrópicas e pelo
desenvolvimento de projetos sociais que promovam alternativas
conjuntas, em forma de organizações espontâneas e voluntárias,
modificando a própria conduta desta nova sociedade.
Na classificação proposta por Carvalho
(1998), três grupos de organizações são nitidamente caracterizados:
-
Entidades comunitárias que prestam
serviços locais, em geral com pouca visibilidade, sendo realizados
por grupos de voluntários sustentados por reduzidos recursos
financeiros, movimentando espaços comunicativos primários e redes
espontâneas de sociabilidade.
-
Entidades filantrópicas que, em
geral, atuam na prestação de serviços assistenciais destinados aos
segmentos mais vulneráveis da população (idosos, pessoas portadoras
de deficiência, famílias em extrema pobreza, etc.) ou, ainda, na
prestação de serviços de educação, saúde e cultura, integrando-se
neste grupo as fundações empresariais como financiadoras ou
promotoras diretas desses serviços. Este agrupamento de organizações
rege-se pelo princípio da filantropia. Neste mesmo escopo, outro
grupo identificado por Carvalho (1998) é o das entidades ligadas a
diversas igrejas, que, orientadas pelo princípio da caridade e
compaixão, também se destinam à prestação de serviços assistenciais,
de educação e saúde.
-
Entidades voltadas para o
fortalecimento do cidadão e a defesa das minorias. Em geral,
atribuem a si mesmas o nome de organizações não-governamentais. São
fortemente articuladas em redes locais, regionais, nacionais e
supranacionais.
A existência dessas
organizações reflete a incerteza social sobre a dimensão e o impacto
que as transformações tecnológicas, sociais, econômicas, políticas e
ambientais podem provocar, especialmente, na realidade dos países em
desenvolvimento, como o Brasil. Também, leva a uma reflexão sobre a
postura evolutiva do indivíduo e da sociedade nesse contexto, no qual
a noção de responsabilidade social emerge e tende a mudar
comportamentos.
A nova postura da sociedade e dos
indivíduos, portanto, relaciona-se à disseminação do conhecimento,
incentivada pelas facilidades tecnológicas e pela rapidez com que os
acontecimentos são divulgados, refletidos em conjunto e traduzidos
através da opinião pública. Segundo Barreto (1998), a comunicação
eletrônica da informação e do conhecimento alterou a noção de tempo e
espaço da informação.
A justificativa de Salomon (1998) para
o crescimento de novas formas de organizações, como as organizações
não-governamentais (ONGs), as instituições de defesa de direitos ou as
entidades filantrópicas, reflete a consolidação dessa nova sociedade,
tendo o aporte informacional como condição estrutural determinante
dessa situação. Para ele, tal crescimento acontece em virtude da crise
ambiental global, das dificuldades do Estado em executar as inúmeras
tarefas sociais que lhe estão sendo designadas, do aumento do nível de
pobreza mundial e da crise do socialismo. Além desses fatores, Salomon
(1998) menciona dois movimentos de mudanças estruturais: um
caracterizado pela revolução nas comunicações, com a invenção e a
ampla disseminação do computador, televisão e satélite, que vêm
facilitando as conexões de comunicação necessárias à organização de
massa e à ação coordenada, mesmo nas regiões mais remotas do mundo; e
outro pelo significativo incremento nas taxas de alfabetização e
educação.
A proposta de um segmento sem fins
lucrativos, formado pelas chamadas organizações não-governamentais de
toda ordem, surge em conseqüência da própria necessidade social do ser
humano. Essa configuração é marcante no que diz respeito ao aspecto
filantrópico das organizações não-estatais e sem fins lucrativos, que
compõem o chamado terceiro setor da economia.
Nesse caso, a informação é elemento
premente, devendo mover e promover o encaminhamento das atividades
dessas entidades não-governamentais. Tais informações são essenciais
para a determinação de projetos segundo as emergências regionais ou
setoriais em diversas áreas (educação, saúde, meio ambiente, etc.) e
podem, inclusive, resultar do desenvolvimento desses projetos. A
própria produção e a difusão de informações podem configurar-se como
parte do trabalho, aspecto que muitas vezes se consolida em
organizações desse tipo.
A tecnologia da informação e a
comunicação eletrônica intensificaram os elementos de integração no
segmento do terceiro setor, tornando-o mais visível à sociedade e
configurando-o como mais um setor, paralelamente ao público e ao
privado. Segundo Barreto (1998, p.126), a comunicação eletrônica
“coloca o receptor como se virtualmente estivesse posicionado em
diversos elos de sua cadeia [...]. Não só a publicidade do
conhecimento se torna mais rápida, como o seu acesso e julgamento
ficam facilitados [...].” Não devem existir mais, nessas condições
tecnológicas, as limitações advindas dos grandes distanciamentos
geográficos, cenário presente no terceiro setor.
Contudo, o nível de integração
proporcionado pela tecnologia pode não ser tão homogêneo a ponto de
garantir um fluxo informacional uniforme, capaz de criar condições
equilibradas de acesso e obtenção de informações para todas as
organizações ou grupos de entidades desse segmento. Talvez a
tecnologia possa não vir a ser o melhor mecanismo de integração nesse
caso. Outros meios, tais como as redes informais estabelecidas pelas
interconexões pessoais provenientes de contatos ou promovidas através
de encontros da área, cursos, congressos ou outras entidades
promotoras, são alternativas também utilizadas. A diferenciação desse
segmento traduz um universo extremamente desigual, o que dificulta até
mesmo a sua compreensão enquanto segmento. Nota-se que a tecnologia
contribui, mas as diferenças são marcantes. A menos que se delimitem
subgrupos desse segmento, as generalizações em termos de conclusões
podem mascarar e desconfigurar a realidade do terceiro setor.
A informação deve incidir como
mecanismo de integração de um contexto amplo e diversificado em formas
e campos de atuação. Portanto, até mesmo diferenças entre linguagem e
aspectos culturais interferem nesse contexto. Segundo Fernandes (1994,
p. 139),
“confrontos e
compromissos são uma parte intrínseca à dinâmica interna do terceiro
setor. Por isto mesmo, é necessário cuidar para que os canais de
intercomunicação não se bloqueiem de vez. [...]. Apesar das
dificuldades e mal-entendidos, sabe-se que a comunicação intersocial e
intercultural é sempre possível. [...] Não basta uma única língua e um
único código simbólico, no terceiro setor. [...] Apela-se para uma
língua de conhecimento comum, [...] onde as idéias são limitadas a um
mínimo denominador comum, ou seja, ao conceito de cidadania e seus
derivados. Com sua diversidade de formas, desde estruturas muito bem
definidas e estabelecidas até ações informais de grupos ou mesmo de
iniciativas individuais, há que se abrir espaços para a multiplicidade
de linguagens e simbologias em seu interior.”
O segmento solidário, dessa forma,
retrata uma necessidade básica de configuração em redes de interações
através de sensibilizações, mobilizações sociais e parcerias,
ultrapassando até mesmo as fronteiras territoriais e se comportando
como um grande sistema social.
A complexidade dessas organizações
reflete a possibilidade de alianças múltiplas e parciais, as quais
podem dar origem a diferentes conjuntos e conglomerados em diferentes
ocasiões, envolvendo parceiros diversos, segundo as circunstâncias, as
questões em pauta, a história local e a natureza de suas atividades.
Esta realidade, portanto, retrata uma estrutura volátil e em contínua
evolução, não estando presa a uma configuração constante ou a blocos
de lealdades permanentes, podendo assumir alto grau de complexidade.
Os “ativistas do terceiro setor devem aprender a arte da tradução,
tornar-se poliglotas da sociabilidade, ser capazes de entrar e sair de
espaços sociais com um mínimo de elegância e reconhecimento”
(FERNANDES, 1994, p.139).
As redes de ações sociais que resultam
desse comportamento participativo da sociedade podem proporcionar o
surgimento de novos parâmetros gerenciais, alterando formatos
organizacionais, numa proposta atrelada ao sentimento de cooperação
com vistas a busca de soluções para os problemas sociais. Refletindo
novos comportamentos da sociedade e requerendo um maior fluxo
informacional representativo do contexto social, esse ambiente
propicia arranjos organizacionais em redes voluntárias surgidas
através da união de esforços em torno de um objetivo comum. As ações
voluntárias partem de uma conduta baseada em um tipo de emoção
diferente que altera toda a dinâmica e o funcionamento da sociedade,
tendo como apelo para sua efetivação a realidade social e seus
problemas.
2
METODOLOGIA
As organizações do
terceiro setor assumem, cada vez mais, papel de importância no cenário
socioeconômico brasileiro. Em face das dificuldades sociais
emergentes, as iniciativas voluntárias têm beneficiado vários
segmentos com grandes carências. As áreas mais contempladas com
recursos e trabalhos voluntários são: educação, saúde, meio ambiente,
serviços sociais, habitação e defesa de direitos. Seu funcionamento em
redes requer o mais amplo domínio informacional das dificuldades
sociais, das áreas emergenciais, das formas de captação de recursos,
das possibilidades de parcerias e da participação em frentes de
trabalho social ou projetos conjuntos com outras entidades.
Em vista desse contexto, é necessário,
para a escolha de campanhas e projetos, bem como para a captação de
financiamentos, que se promova a gestão da informação, de forma a
canalizar esforços para se obter e melhor empregar recursos nessas
organizações.
Trata-se de um contexto
peculiar, por se pautar de ações conjuntas e iniciativas voluntárias,
em que o elemento informacional, em especial a informação do ambiente
externo, atrelado aos recursos disponíveis e às pessoas envolvidas,
possibilita o sucesso de suas ações.
Esta realidade refletiu-se na busca
pela investigação sobre as práticas de trabalho adotadas nas
organizações do terceiro setor no sentido de caracterizar como são
estabelecidos os mecanismos de obtenção, organização e distribuição da
informação do ambiente externo, observando as peculiaridades desse
segmento no que tange a suas configurações em rede. Esta proposta de
pesquisa resultou na tese de doutorado defendida recentemente por esta
pesquisadora, e retratou, a partir das configurações de organizações
do terceiro setor, uma reflexão sobre a prática do monitoramento
ambiental, considerando-se a natureza do trabalho e a forma de
organização destas entidades filantrópicas, além do alto grau da
relevância das interconexões estabelecidas neste segmento e entre esse
segmento e os demais setores que constituem seu ambiente de relações.
Nesse sentido, traduziu-se como objeto
desta pesquisa a relevância das informações do ambiente externo para
as instituições do terceiro setor. O problema de pesquisa enfocou a
construção de idéias e conclusões acerca das práticas de obtenção,
organização e distribuição das informações do ambiente externo nas
organizações do terceiro setor, bem como de suas possíveis implicações
no processo decisório de seus dirigentes.
Nesse trabalho, a metodologia proposta
considerou as características do segmento do terceiro setor. A ampla
diferenciação de formas de organização e campo de atuação observada
nesse segmento levou esta pesquisadora a buscar um universo de
pesquisa mais homogêneo. A forma de constituição legal dessas
instituições, a natureza de suas atividades, a localização de sua sede
e sua situação de funcionamento foram parâmetros estabelecidos para
que a pesquisa fosse aplicada em um grupo de instituições com
características similares, com vistas a ser possível uma avaliação
comparativa e o estabelecimento de conclusões que pudessem representar
a realidade dessas entidades.
Optou-se pelas fundações de direito
privado sem fins lucrativos, que, pelo nível de exigências legais
requisitado, tanto para sua constituição quanto para sua extinção,
apontou para um grupo de organizações mais bem estruturadas e em
situação favorável, por possuir práticas de gestão informacional
instituídas. Nessas fundações, o Ministério Público atua, através de
sua Promotoria Especializada de Fundações, exercendo a função de velar
pelas fundações constituídas. Por possuírem patrimônio próprio como
exigência para sua constituição, sua forma de organização garante uma
missão institucional permanente, atrelada aos propósitos do seu
fundador. Todas essas características fizeram esta pesquisadora
pressupor a existência de um ambiente mais organizado e formalizado
para o desenvolvimento de estruturas informacionais destinadas a
subsidiar o processo de tomada de decisões nessas organizações.
Dentre os diversificados campos de
atuação existentes nesse segmento, buscou-se identificar aquelas
fundações com funções essencialmente filantrópicas, entendendo-se por
filantrópicas aquelas entidades que se enquadram na classificação de
Carvalho (1998), citada anteriormente. Nesse escopo, incluíam-se as
fundações de direito privado sem fins lucrativos executoras e/ou
financiadoras de projetos sociais. A opção pelas organizações de
caráter filantrópico enfoca um grupo de entidades voltadas aos
interesses da coletividade, garantindo uma abordagem mais ajustada aos
apelos do terceiro setor, no seu aspecto social, e delineia um
universo de pesquisa que merece o desenvolvimento de estudos, por se
fixar na efetivação de ações voltadas ao bem-estar social e à nova
postura de responsabilidade social, que hoje transparece para toda a
sociedade.
Optou-se também por restringir a
abrangência dessa pesquisa ao âmbito das fundações sediadas em Belo
Horizonte, por ser uma área de estudos ainda pouco explorada nessa
região e pela facilidade de acesso desta pesquisadora às fundações aí
pesquisadas.
A situação de funcionamento pretendida
visou estudar entidades que se encontrassem efetivamente em atividade,
haja vista a necessidade de se buscar informações que sinalizassem a
dinâmica de funcionamento dessas organizações e sua prática de gestão
de informações, especificando a obtenção, organização e distribuição
de informações do ambiente externo.
O método científico de
abordagem desenvolvido nesta tese, portanto, retratou o caráter
indutivo, mais adequado para compreender as práticas de obtenção,
organização e disseminação de informações do ambiente externo de
organizações do terceiro setor, a partir da análise de fundações de
direito privado sem fins lucrativos de cunho filantrópico.
O método científico, classificado
dessa forma por Lakatos e Marconi (1991, p. 106), configura-se como
sendo aquele que aborda de maneira mais ampla e em nível de abstração
mais elevado os fenômenos da natureza e da sociedade. Permite alcançar
o objetivo de pesquisa, traçando o caminho a ser seguido, detectando
erros e auxiliando as decisões do cientista. Para efeito desta
pesquisa, a opção pelo método indutivo reforça a proposta de um estudo
aplicado em uma esfera específica, com o intuito de fornecer indícios
que conduzam a conclusões gerais acerca do objeto de pesquisa.
Segundo Lakatos e Marconi (1991), o
método indutivo “é um processo mental por intermédio do qual, partindo
de dados particulares, suficientemente constatados, infere-se uma
verdade geral ou universal, não contida nas partes examinadas” (p.
86). Pode ser caracterizado como o método “cuja aproximação dos
fenômenos caminha geralmente para planos cada vez mais abrangentes,
indo das constatações mais particulares às leis e teorias (conexão
ascendente)” (p. 106).
A metodologia de pesquisa envolveu
pesquisa de campo descritiva com a finalidade de delinear ou analisar
as características de fatos ou fenômenos utilizando artifícios
quantitativos obtidos através da aplicação da técnica de entrevista.
O universo desta pesquisa
configurou-se como todas as fundações de direito privado sem fins
lucrativos de caráter filantrópico sediadas em Belo Horizonte e em
funcionamento. Foram identificadas 15 fundações que se enquadravam
efetivamente nos objetivos da pesquisas, possuindo caráter
filantrópico e estando em situação de pleno funcionamento e
disponíveis para essa pesquisa.
A pesquisa de campo se restringiu,
pois, a essas fundações, tendo sido prevista a aplicação de
entrevistas a todas elas, com a presença do pesquisador, além da
observação pessoal não participante. A pesquisa se caracterizou por
censitária, dentro do universo de pesquisa delineado. A partir do
levantamento de dados, buscou-se obter uma base informacional que
conduzisse a estudos e reflexões mais apuradas, com vistas a garantir
a formulação de conclusões, apoiadas nas características do terceiro
setor, representado pela dinâmica de funcionamento de fundações de
direito privado sem fins lucrativos com caráter filantrópico sediadas
em Belo Horizonte, e buscando contribuições no campo da ciência da
informação no que se refere à gestão informacional e às redes de
conexões observadas nesse segmento.
Pretendeu-se com essa pesquisa atender
aos seguintes quesitos:
-
identificar as características
destas instituições, forma de funcionamento e peculiaridades;
-
conhecer as práticas para obtenção,
organização e distribuição de informações do ambiente externo nestas
entidades;
-
identificar as informações do
ambiente externo mais utilizadas e/ou procuradas por estas
entidades;
-
identificar as principais fontes e
meios de obtenção de informações do ambiente externo destas
instituições; e
-
identificar facilidades e
dificuldades enfrentadas na obtenção, organização e distribuição de
informações do ambiente externo nas instituições pesquisadas.
Foram elaborados roteiros,
desenvolvidos com objetivos específicos, de forma a padronizar as
respostas dos entrevistados e possibilitar análise estatística e a
tabulação dos resultados em categorias específicas.
O primeiro roteiro, identificado como
Identificação da Fundação, buscou caracterizar as fundações
pesquisadas, levantando informações sobre seus objetivos, público
alvo, tempo de existência, práticas de parcerias, utilização de
voluntários, dentre outros.
O segundo roteiro, identificado como
Práticas de Obtenção, Organização e Distribuição das Informações do
Ambiente Externo, contemplou um conjunto de frases, diante das
quais cada responsável pelas respostas deveria posicionar a fundação
de que faz parte em relação aos aspectos: obtenção de informação do
ambiente externo, organização da informação do ambiente externo e
distribuição de informações para o ambiente externo. Para cada frase,
em número total de 39, o informante sinalizou sua concordância, sua
não concordância ou sua concordância parcial, sendo anotadas por esta
pesquisadora observações e ponderações comentadas em cada frase.
O terceiro roteiro, identificado como
Informações Utilizadas e/ou Procuradas, relacionou 41
informações, preferencialmente, do ambiente externo, passíveis de
utilização ou interesse por parte dessas fundações. Tais informações
foram estabelecidas com base nos Indicadores de aspecto do contexto,
proposto por Tenório (1997). O terceiro roteiro de entrevistas buscou
identificar, a partir da visão do entrevistado, as informações do
ambiente externo da fundação pesquisada que seriam mais utilizadas ou
procuradas, caracterizando seu grau de importância, finalidade e fonte
de obtenção das informações.
O quarto roteiro, identificado como
Fontes ou Meios de Obtenção de Informações buscou levantar as
fontes ou meios de obtenção de informações utilizados pela fundação
pesquisada.
Ao término do levantamento de dados,
foram desenvolvidas tabelas comparativas que consolidaram o resultado
da apuração feita das respostas obtidas na aplicação dos roteiros de
entrevistas.
3 ASPECTOS DA PRÁTICA
DA GESTÃO INFORMACIONAL EM ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR SOB O
ENFOQUE DAS FUNDAÇÕES DE DIREITO PRIVADO DE CUNHO FILANTRÓPICO
A partir das análises de dados,
evoluiu-se para a etapa de delineamento das conclusões e ponderações
acerca dos estudos realizados, com vistas a atingir os objetivos
pretendidos neste trabalho. Nesse sentido, foram considerados cinco
aspectos de funcionamento das fundações pesquisadas, relativos à
obtenção, organização e distribuição de informações do ambiente
externo. Tais aspectos, diluídos nas opiniões apresentadas pelos
entrevistados, contemplam quesitos de análise necessários à
compreensão da gestão informacional praticada nessas entidades, sendo
identificados como: tecnologia; redes e parcerias; formalidade e
informalidade; gerência de informações (planejamento, coordenação,
controle); e profissionais da informação.
3.1 Tecnologia
O aspecto tecnologia
buscou caracterizar o nível ou situação tecnológica das fundações
pesquisadas. Os dados de pesquisa forneceram uma realidade bastante
peculiar para as organizações pesquisadas. Nesses casos,
verificou-se:
-
A internet não é o melhor meio de
obtenção de informações para a maioria das fundações. Apenas 35,7%
das fundações pesquisadas disseram utilizar sites informativos do
terceiro setor, tais como RITS, IntegrAção e outros. Muitas
desconheciam a existência destes sites.
-
Mais de 70% dos
entrevistados afirmaram utilizar sistemas de informações
informatizados na organização de suas informações do ambiente
externo, tais como sistemas de controle de estoque, financeiro, e
outros. Contudo, mais da metade das fundações pesquisadas relataram
que a prática de medir os resultados da fundação é realizada
manualmente, sem nenhum recurso tecnológico.
-
Metade das fundações
pesquisadas não possuem banco de dados organizado e atualizado com
informações do ambiente externo.
-
No que se refere à
internet, 57% das fundações pesquisadas a possuem e a utilizam para
divulgação dos resultados de trabalhos.
Em muitos casos, foram
observadas carências de recursos, inexistindo computadores ou
possibilidade de acesso à internet, ou mesmo apresentando recursos
tecnológicos obsoletos ou defeituosos.
A prática de se
buscarem informações do ambiente externo ocorre, em muitos casos, de
maneira mais passiva do que ativa; ou seja, ao invés de ir até a
informação, espera-se que essa chegue; se não chega, muitas dúvidas
persistem. Percebe-se que muitas das organizações pesquisadas se
encontram mais voltadas a questões internas de organização e com
atenção na solução de problemas operacionais e gerenciais internos.
Observa-se, portanto, que a prática de
divulgação institucional através do uso da tecnologia é mais freqüente
do que a prática de obtenção de informações do ambiente externo com
esse recurso.
3.2
Redes e parcerias
O aspecto redes e
parcerias foi caracterizado para uma análise mais detalhada,
devido aos estudos relativos à configuração de redes de conexões
proposta no trabalho. Buscando-se melhor caracterização dessa dinâmica
aplicada às fundações pesquisadas, foram obtidos os seguintes
resultados:
-
Para 64,3% das
fundações pesquisadas as informações do ambiente externo são obtidas
a partir de redes de parcerias com outras fundações e entidades
afins. Em 71,4% dos casos pesquisados, as redes de parcerias
contribuem para a troca de informações entre a fundação e o ambiente
externo.
-
A prática de
estabelecimento de alianças com parceiros e entidades afins é
executada em 71,4% das fundações pesquisadas.
-
O fortalecimento de redes de
parcerias também é evidenciado quando 85,7% das fundações
pesquisadas afirmaram que a troca de informação é estimulada nas
fundações através da ampliação dos contatos e interações com outras
pessoas dentro e fora da fundação.
-
As parcerias com universidades e
institutos de pesquisa para obtenção de informações são executadas
por 42,9% das fundações pesquisadas. Já 42,9% dessas fundações não
adotam este tipo de parceria.
Observam-se altos níveis de
concordância quando se busca caracterizar a prática de parcerias e
conexões com o ambiente externo. Esse fato se justifica pela própria
natureza de suas atividades. Contudo, verifica-se que essas relações
são estabelecidas com grande freqüência através de contatos pessoais.
As redes de organizações estabelecidas
pela filiação a entidades que representam grupos de organizações do
terceiro setor, tais como FUNDAMIG, GIFE e outras, com o objetivo de
prestação de serviços, fornecimento de informações ou estabelecimento
de condições para formação de redes de conexões entre as organizações
filiadas e parceiros, corroboram também os resultados observados na
pesquisa. Como verificado, 64,3% das organizações pesquisadas são
filiadas a pelo menos uma dessas entidades. Apenas 35,7% não possuem
nenhuma filiação.
3.3 Formalidade e informalidade
O aspecto
formalidade e informalidade foi destacado para efeito da análise,
em razão da necessidade de se situar o grau de formalismo das
informações obtidas nas fundações pesquisadas. O nível de exigências
estabelecido em termos legais para a sua criação, manutenção e
extinção reflete-se sobre uma tendência mais formal de procedimentos.
Contudo, o segmento do terceiro setor prevê na proposta de sua
dinâmica de funcionamento um caráter mais flexível e, portanto, mais
informal.
Nos levantamentos realizados nas
pesquisas de campo, constatou-se o seguinte:
-
Para 42,9% das fundações
pesquisadas, as informações obtidas do ambiente externo são
informais. Em 64,3% das respostas das entrevistas o contato direto,
face a face, com a comunidade acaba por ser o mecanismo mais adotado
na fundação para a obtenção de informações do ambiente externo. O
acesso à informação do ambiente externo é estimulado através da
ampliação de contatos pessoais em 85,7% dos casos.
-
A fundação incentiva a participação
de seus colaboradores em cursos de treinamento para 71,4% dos casos
pesquisados; em congressos e eventos para 85,7% dos entrevistados,
como vistas à obtenção de informações do ambiente externo. A
utilização de bibliotecas para obtenção de informações só foi
relatada por 40% das fundações pesquisadas.
-
Para 57,1% das fundações existem
menos barreiras para a obtenção de informações em entidades do
terceiro setor do que em órgãos oficiais.
-
Em 78,6% das fundações a organização
das informações obtidas resulta em relatórios ou registros que
determinam ou alteram os rumos da fundação. As informações relativas
aos projetos e seus resultados são apuradas e registradas
sistematicamente em 64,3% das pesquisadas.
-
Existe grande disciplina, eficiência
e incentivo para o registro e a documentação do conhecimento e
know how existente apenas para 35,7% das fundações pesquisadas.
A informalidade se faz
presente com mais intensidade nas relações estabelecidas entre as
fundações pesquisadas e o seu ambiente externo através dos vínculos
com voluntários, parceiros e a própria comunidade. O contato direto ou
pessoal é tratado com destaque na busca de informações do ambiente
externo e incentivado através de eventos, congressos e cursos de
treinamento.
Informações internas
acerca do desempenho do trabalho com vistas ao estabelecimento de
controles internos acabam se caracterizando de maneira mais formal,
estruturadas através de relatórios, registros e documentos produzidos
pelas fundações pesquisadas. Essa prática formal de registros pode
refletir as exigências de funcionamento e prestação de contas
previstas na legislação para esse grupo específico de organizações.
Outra consideração que
conduz a essas reflexões é o fato de não se praticar efetivamente o
registro dos conhecimentos e know how adquiridos e/ou
desenvolvidos na maioria das fundações pesquisadas. Essa prática não é
exigência legal, no entanto retrata uma preocupação com a preservação
da memória relativa às experiências e aos trabalhos desenvolvidos nas
organizações.
3.4 Gerência de informações
Esse quesito de análise busca
considerar momentos do processo gerencial que necessitam de
informações como suporte às decisões organizacionais. Para tanto,
identificaram-se as etapas de planejamento, coordenação e controle,
retratadas através da prática de obtenção, organização e distribuição
de informações do ambiente externo, caracterizadas nas entrevistas com
as fundações pesquisadas.
3.4.1 Planejamento da informação
O planejamento estabelece objetivos e
define procedimentos com vistas a garantir resultados positivos e
melhorar o aproveitamento de recursos. A ausência de objetivos e
planos de trabalho leva a perdas no encaminhamento das ações, podendo
colocar em risco o sucesso do projeto. Tal planejamento se reflete em
todos os aspectos de trabalho da organização e pode ser sinalizado
pela prática da gerência de informações. Para as fundações
pesquisadas, ficaram constatados os seguintes procedimentos de
planejamento com fins de obtenção, organização e distribuição de
informações do ambiente externo:
-
A atualização da informação acontece
de maneira espontânea e de acordo com a necessidade da fundação em
mais de 71,4% das fundações pesquisadas.
-
Para 57,1% das fundações pesquisadas
não há programação ou planejamento para divulgação de informações da
fundação para o ambiente externo.
-
Em 42,9% das mesmas fundações não
existe uma política de divulgação sobre a fundação frente a outras
organizações do terceiro setor e em 35,7% delas não existe política
de divulgação frente a órgãos e agências financiadoras de projetos.
-
Para 57,1% das fundações
pesquisadas, frente à comunidade, a política de divulgação sobre a
missão e valores da fundação existe.
Verifica-se que a maior preocupação
com vistas à divulgação reflete a busca de recursos para financiar ou
viabilizar a implantação de projetos. Nesse sentido, a divulgação
frente a órgãos e agências financiadoras de projetos pode aparecer de
maneira mais programada. Mesmo assim, algumas fundações que possuem
recursos próprios para sua manutenção, através de aluguéis, por
exemplo, se enquadrariam no percentual de 35,7% obtido na pesquisa.
Apesar de não se verificarem ações
planejadas para a obtenção de informações do ambiente externo nem para
a distribuição de informações em mais da metade das fundações, a
preocupação em posicionar a comunidade sobre a missão e os valores da
fundação aparece para 57,1% das pesquisadas.
3.4.2 Coordenação
A etapa de coordenação requer a
condução do trabalho no sentido de executar as ações previamente
estabelecidas no planejamento, a fim de efetivar os resultados
definidos nos objetivos traçados para o trabalho. A falta de
planejamento reflete atitudes improvisadas, e muitas vezes leva a
etapas e procedimentos desnecessários ou mais longos. No que tange à
pesquisa, a análise sobre a coordenação leva a verificações acerca da
prática de executar registros e relatórios que sirvam de parâmetros
tanto para o estabelecimento de controles quanto para os planos de
ação. Nesse sentido, foram constatados os seguintes resultados:
-
Apenas 35,7% das respostas afirmaram
não ser o dirigente o principal catalisador de informações externas
para a fundação, outras 35,7% consideraram o dirigente como o
principal catalisador das informações do ambiente externo e 28,6%
disseram ser parcial a participação do dirigente nesse caso.
-
A organização da informação do
ambiente externo não é função do dirigente para 78,6% das fundações
pesquisadas.
-
Os resultados dos projetos são
apurados e organizados com vistas a avaliações e revisões futuras
para 64,3% das fundações pesquisadas.
Observou-se um peso maior de práticas
improvisadas na obtenção de informações do ambiente externo. A atuação
do dirigente central da fundação, em muitos casos, é fator
significativo para os trabalhos da fundação, assumindo em alguns casos
características de centralização, principalmente na busca de
informações do ambiente externo em função de contatos pessoais.
Contudo, registros são efetuados, e a organização da informação
interna é executada sem a presença do dirigente central, na grande
maioria dos casos.
3.4.3 Controle
A etapa de controle refere-se à
verificação dos resultados em relação aos objetivos traçados, com
vistas a apurar possíveis desvios, sucessos ou insucessos nos
resultados dos trabalhos efetivados. Trata-se de uma etapa que requer
informações provenientes do planejamento e dos registros dos
desempenhos apurados na execução do trabalho. Na prática de
funcionamento das fundações pesquisadas, observou-se que:
-
Em 78,6% das fundações são
elaborados relatórios e registros a partir das informações obtidas
no ambiente externo.
-
Em quase 64,3% das fundações
pesquisadas as informações do ambiente externo relativas aos
projetos desenvolvidos na fundação são registradas sistematicamente
como prática de trabalho.
Esses altos percentuais podem estar
relacionados às exigências legais que as fundações precisam cumprir e
às prestações de contas que devem fazer ao Ministério Público. Os
controles relativos à prestação de contas conduzem à grande
preocupação observada nessas organizações no que se refere à
documentação de informações e à elaboração de relatórios.
3.5 Profissionais da informação
O quesito de pessoal buscou
caracterizar a existência de profissionais de informação nas fundações
pesquisadas. Verificou-se que:
-
Para 57,1% das fundações pesquisadas
não existem equipes dedicadas à obtenção de informações atualizadas
e de interesse para as fundações.
-
Para quase 71,4% das fundações
pesquisadas não existe uma área específica na fundação responsável
pela organização e atualização de informações e documentação do
ambiente externo, talvez por não entenderem a função da biblioteca
com esse fim.
-
Pois, 42,9% das mesmas fundações
afirmaram possuir biblioteca e organizar as informações do ambiente
externo em bibliotecas. Porém 42,9% relataram não possuir biblioteca
em suas fundações.
A carência de profissionais de
informação constatada na pesquisa pode também estar contribuindo com
diversas características que retratam dificuldades no desempenho do
trabalho. Por outro lado, faz chamar a atenção dos profissionais dessa
área para um campo de atuação relativamente novo e com grandes
perspectivas de trabalho.
Em muitas visitas e entrevistas,
pôde-se notar um grande interesse por parte das pessoas das fundações
pesquisadas pelo trabalho e pelos benefícios da gerência de
informações em organizações do terceiro setor. Trata-se de um campo
que merece ser mais estudado e explorado pelos profissionais da
informação no sentido de suprir carências e promover integrações,
fortalecendo as redes estabelecidas nesse contexto e criando
mecanismos que facilitem seus processos gerenciais e a implementação
de projetos sociais bem sucedidos.
As informações mais
utilizadas e/ou procuradas pelas fundações pesquisadas refletiram
outras constatações. Considerando-se os indicadores de aspectos de
contexto, observa-se que dentre os aspectos identificados por Tenório
(1997), ou seja, o tecnológico, o político, o econômico, o
jurídico/legal, o sociocultural, o demográfico e o ecológico, nas
fundações pesquisadas ressaltam-se o jurídico/legal, refletido na
grande incidência de respostas com interesse em legislações
específicas; o sociocultural, observado em interesses demonstrados
pelas informações indicativas de nível educacional, carências da
comunidade e outros; o político, identificado pela preocupação com
informações relativas a propostas de governo, dentre outras; e o
tecnológico, caracterizado pela utilização de informações sobre
capacidade tecnológica da fundação e outras nesse sentido.
Verificou-se também um
grande interesse demonstrado nas fundações pelas informações de cunho
gerencial, que, apesar de não se incluírem nos indicadores de contexto
propostos por Tenório (1997), fizeram transparecer a preocupação com
informações que forneçam condições de decisão nessas organizações.
Algumas inferências
podem ser feitas na condução das conclusões deste trabalho, dentre as
quais a relação com a questão legal, objeto de maior preocupação
constatado pela pesquisa, refletido em um contexto que requer
flexibilidade, devido a sua proposta de funcionamento, podendo
dificultar a efetivação de projetos. Contudo, mecanismos de regulação
que assegurem a lisura e a credibilidade das ações implementadas por
essas entidades devem existir e ser construídos com a participação
efetiva da sociedade e dos demais envolvidos na execução desse
trabalho.
Finalmente, quanto ao
levantamento realizado acerca das fontes ou meios de obtenção de
informações, baseado na classificação de Choo (1995) relativa a fontes
de informações, ou seja, externas impessoais, internas impessoais,
externas pessoais e internas pessoais, observa-se que as fontes mais
utilizadas nas fundações pesquisadas são internas impessoais, seguidas
das externas impessoais e internas pessoais.
Esse resultado também
reflete a preocupação com a legislação, presente nessas fundações,
caracterizam-se por internas impessoais os relatórios e estudos
internos, que visam promover o controle e a prestação de contas nessas
organizações. Já as fontes ou meios de obtenção de informações
externas impessoais refletem publicações governamentais, incluindo-se
a publicação de legislações que regulam procedimentos adotados nessas
entidades. As internas pessoais configuram-se em contatos pessoais
estabelecidos reforçando o aspecto informal dessas organizações.
4 CONCLUSÕES E REFLEXÕES
Ao concluir este trabalho, algumas
considerações devem ser feitas. As práticas informacionais apontadas
destacaram os momentos de obtenção, organização e distribuição de
informações do ambiente externo, com vistas a caracterizar
comportamentos sobre as relações estabelecidas entre as organizações e
o seu ambiente, através das redes de conexões.
Apesar de se tratar de organizações em
rede, sabe-se que tais conexões só podem ser estabelecidas através das
pessoas que as constituem. As reflexões acerca da abordagem sistêmica
retratam uma forma de se compreender a lógica de funcionamento dessas
organizações, em termos da interdependência entre suas partes,
situando as práticas informacionais de busca, organização e
distribuição de informações como elos de conexão nesse complexo
organizacional. Contudo, as informações assumem uma dimensão muito
maior nessas organizações, enquanto sistemas sociais, pois atuam
também como elementos de mudança social. Nesse sentido, as informações
contribuem para a construção de arranjos organizacionais cada vez mais
complexos, oriundos da mutabilidade contínua das relações
estabelecidas. Não basta pensar em informação apenas como elemento de
conexão nas redes de conversações; é necessário que se pense na
informação, também, como elemento de mudança de conceitos e
percepções, com significados passíveis de provocar repercussões de
amplitudes imprevisíveis.
Dois fatores se apresentam como
resultado das reflexões sobre os resultados dessa pesquisa: a
necessidade do estabelecimento de formas de constituição formais,
reguladas através das legislações impostas pelos órgãos competentes; e
a dinâmica das relações e interconexões, configurada de maneira
espontânea e através das relações informais estabelecidas.
Verificou-se na pesquisa desenvolvida
que as práticas informais são bastante adotadas e que a tecnologia
ainda não contribuiu plenamente para a obtenção e distribuição de
informações no contexto estudado. Esse fato converge para as
conclusões de Araújo (1999) acerca dos canais de comunicação
estabelecidos em organizações não-governamentais brasileiras, que
trabalham com a questão do Gênero e dos Direitos da Mulher. Segundo
Araújo (1999, p. 159), “no contexto das ONGs pesquisadas, os canais
eletrônicos ampliam as possibilidades de comunicação, mas não têm
substituído os outros canais mais tradicionais e principalmente o
contato face a face, fundamental para o trabalho desenvolvido pelas
ONGs [...]”.
A dualidade entre formalidade e
informalidade presente nas organizações pesquisadas, transparece em
outros pontos do trabalho. Para a maioria das fundações, as
informações do ambiente externo mais utilizadas e/ou procuradas foram
aquelas relativas à legislação tributária e incentivos fiscais, à
legislação sobre o terceiro setor e à legislação trabalhista. Esses
fatos apontam para uma realidade ainda pouco estruturada em termos
informacionais, haja vista as características observadas na pesquisa.
O grande interesse pela legislação sinaliza uma preocupação com normas
e regras impostas externamente, com vistas a definir procedimentos
internos de organização do trabalho. Em organizações dinâmicas e
flexíveis, comprometidas com os propósitos e com a missão
institucional, essa preocupação não deveria posicionar-se em destaque
em relação a outras informações, tais como nível de pobreza, educação
ou saúde da população carente?
Informações sobre legislações já
haviam sido detectadas como informações procuradas por organizações do
terceiro setor em outro trabalho. Baptista (2001, p.17), divulgando os
resultados de sua pesquisa, relatou o seu objeto de estudo como sendo
“o acesso à informação diante do fenômeno da explosão da informação,
tal como vivenciado no contexto de entidades que representam setores e
categorias da sociedade brasileira”, tais como mulheres, cultura
negra, sindicatos, consumidores. Em seu trabalho nove entidades
representativas foram pesquisadas e selecionadas aleatoriamente a
partir de critérios prévios da pesquisadora. Dentre os resultados
obtidos, a pesquisa identificou que as informações que as entidades
procuram, “embora bastante diversificadas em função dos objetivos
específicos de cada uma [entidade], enquadram-se basicamente nos
seguintes tipos: informação legislativa, informação política,
informação econômica” (BAPTISTA, 2001, p.18).
Sem que se possa estabelecer
comparativos, haja vista as diferenças entre os universos pesquisados,
vale a reflexão sobre a convergência de interesses em um grupo de
informações bastante específico. Nesse sentido, há que se pensar nas
constatações feitas. Informações sobre legislação refletem uma
necessidade de definição de parâmetros e bases referenciais de
procedimentos que balizem a condução dos trabalhos, através de
controles definidos e de medidas de desempenho.
Ao mesmo tempo, organizações do
terceiro setor se pautam por atuarem de forma mais flexível e segundo
uma lógica com vínculos de relações mais informais, fundada em ideais,
relações de confiança e iniciativas voluntárias. Nesse contexto, as
configurações de sistemas auto-organizados parecem enquadrar-se, desde
que os fluxos informacionais sejam suficientemente estruturados para
que o sistema se organize internamente, com o mínimo de normas
impostas por seu ambiente externo.
Em uma organização na qual o fluxo
informacional não esteja bem estruturado, a presença dessas normas e
de procedimentos que padronizem e uniformizem as ações e propostas de
trabalho é talvez mais necessária. Estruturas mais flexíveis, e
portanto auto-organizadas e auto-reguladoras, requerem um contexto
informacional bem estabelecido que alimente os organismos de regras,
construídas nas relações estabelecidas e aprendidas com parceiros
internos e externos, criando um ambiente propício ao estabelecimento
de organizações com formatos mais complexos e intrincados na concepção
de redes.
Tais conclusões vão ao encontro das
reflexões de Ayres (2001) acerca da Rede Voluntária, estabelecida
pelos Centros Voluntários, do Programa de Voluntários do Conselho da
Comunidade Solidária. Segundo Ayres (2001, p.12)
“[...] uma rede que tem propósitos
convergentes possui, embutida em si, uma estrutura de auto-regulação.
Os problemas que aparecem em um determinado ponto da rede reverberam
por toda ela, e a tendência é que, de dentro dela saia uma solução
devido à propagação deste problema. [...] para isto não há regras, e a
única forma de decidir é levantando este tipo de discussão à própria
rede. [...] [E conclui:]
“uma forma de manter uma certa formalização e controle é através da
constante ativação do fluxo de informações que existe na rede. Uma
rede de organizações pode ser visualizada como uma teia, onde os
pontos são as organizações (e seus participantes) e as teias que ligam
os pontos são os fluxos de informação. Portanto, quanto mais ativo
este fluxo, maior a força da rede”.
A partir da teoria do caos, tem-se que
os elementos de um sistema se interagem e se organizam segundo
parâmetros de complexidade cada vez maiores. Nesta interação, vai
ocorrendo uma espécie de troca e de organização de informações, de tal
forma que todos ‘aprendem’, até que busquem uma forma de integração
que garanta sua manutenção e a formação de novos parâmetros de
configurações cada vez mais complexos.
Peculiaridades e diferenças conduzem,
pois, esse segmento ao estabelecimento de redes de conexões e a uma
dinâmica de funcionamento que requer organização em torno de uma
situação aparentemente caótica. A noção de sistemas auto-organizados e
auto-regulados aparece nessa realidade e convida a reflexões sobre o
nível de flexibilidade ou de formalismo dessas organizações.
As organizações em redes requerem
regras e orientações que, em um consenso, levem ao funcionamento de
suas atividades e à manutenção de seu estado. Segundo Ayres (2001,
p.10), a relação de confiança, parâmetro vital para entidades do
terceiro setor e para a manutenção das redes, alianças e ações de
parceria, constituiu-se em fator desagregador da Rede Voluntária. “A
diversidade existente em um grupo (como a Rede Voluntária), que seria
uma riqueza para o mesmo, em um agrupamento – que sofre de
desconfiança e outros males – (a diversidade) se torna um problema”.
A conduta das pessoas reflete todo o
sucesso de suas ações, que transparece na atuação das organizações das
quais participam. Quando interesses individuais prevalecem, a proposta
para o trabalho é colocada em risco e seus resultados podem não ser
alcançados. Nesse sentido, perdem os seus beneficiados e perde toda a
sociedade quando uma instituição é desativada. Tais experiências levam
à seguinte indagação: Até que ponto a legislação deve estabelecer
controles para essas organizações, podendo restringir sua capacidade
de auto-organização e auto-regulação?
Dentro da experiência apresentada por
Ayres (2001) sobre a Rede Voluntária, no que se refere à proposta de
funcionamento dessa rede, refletiu-se por dois caminhos: o primeiro
leva a um maior controle e profissionalismo e a institucionalização da
rede; o segundo, conduz a uma maior flexibilidade, abrindo-se para
isso mão do controle e contando com resultados mais a longo prazo.
Para Ayres (2001), se o primeiro caminho assegurar resultados em prazo
mais curto, também pode levar à descaracterização das relações
informais e voluntárias entre seus membros, elemento de diferenciação
em relação às organizações do segmento empresarial. Se a
profissionalização (mal conduzida) pode descaracterizar a proposta
deste setor, o descontrole em excesso também pode ser danoso e, em
conseqüência, servir como fator de desagregação da rede.
Na escolha de um caminho mais flexível
para essas organizações, proporcionando a elas condições de se
auto-organizarem e de se auto-regularem, ressaltam-se algumas
reflexões.
As redes de conexões estabelecidas
fazem surgir estruturas complexas que, nas interações configuradas,
possibilitam a troca de informações que levam a arranjos e rearranjos
dinâmicos. As regras de convivência estabelecidas nessas estruturas
vão sendo alteradas a cada interferência incorporada por seus membros,
de tal forma que a organização em rede, através das relações
estabelecidas com a troca de informações, muda, alterando seu grau de
complexidade ou se redefinindo em outras configurações. Contudo, deve
existir um elemento de convergência traduzido por propósitos e
objetivos bem definidos e pela interação com o ambiente externo.
As organizações que melhor lidam com o
fluxo informacional e a troca de informações em um ambiente de
cooperação, confiança e simbiose estabelecem as condições para se
criarem estruturas cada vez mais complexas. O mapeamento ambiental
possibilita a abertura de novas perspectivas e novos contatos. A
leitura e a identificação de informação de contexto externo balizam o
propósito do sistema, em relação às possíveis interações desse com o
seu ambiente externo, realimentando-o com informações que podem
provocar rearranjos em sua organização. A organização das informações
e registros e a socialização da informação, por parte de seus
elementos constituintes, podem criar um sistema mais propenso à
inovação e à interação com o meio ambiente externo. A disseminação das
informações organizadas e estruturadas para o ambiente externo
possibilita maior visibilidade e abertura para agregação de elementos
novos, com vistas a reconfigurações e aprimoramento do sistema atual.
Todo esse movimento só terá sucesso se
o comprometimento e a integração dos componentes do sistema forem
convergentes e harmoniosos. Não podem existir interesses individuais,
e sim do grupo. A confiança e a credibilidade são elementos de
coalizão e sucesso nesta proposta. Contudo, outros aspectos podem
estar incidindo nessa questão. A própria dificuldade de acesso e a
interpretação da legislação, devido a uma variedade de possibilidades
de organizações e funcionamentos previstos pela legislação para esta
área, aliada à carência de profissionais da informação e de equipes de
trabalho voltadas à obtenção de informações do ambiente externo, pode
contribuir para este quadro.
Os resultados da pesquisa refletiram
um quadro que demonstrou algumas práticas de trabalho individual onde
prevaleceram os contatos pessoais e as redes de relações e parceiros
estabelecidas no nível das pessoas, e não no nível institucional.
Limitações de recursos para a manutenção dos serviços da fundação
prestados à comunidade conduzem muitos dirigentes a priorizar ações
voltadas aos procedimentos administrativos, aos controles internos e à
execução de projetos.
A carência de
informação é significativa, principalmente em fundações executoras de
projetos sociais. A falta de pessoal qualificado para o trabalho
também ficou patente em muitas fundações. O trabalho voluntário, nesse
sentido, pode assumir alguns vieses, pois o nível de
comprometimento é diferente, se comparado a situações em que há
vínculo empregatício. Há necessidade de se treinarem voluntários
Também existem trabalhos considerados difíceis na execução de
projetos sociais que nem todos os voluntários estão dispostos a fazer.
De modo geral, as atividades
configuradoras do terceiro setor se reportam a essa dinâmica de
organizações, tanto pela presença de voluntários quanto pela
necessidade de parcerias com outras entidades ou com a sociedade.
Porém, também são reguladas por seu ambiente externo, através de
legislações e regras definidas fora do contexto das redes. O nível e a
qualidade das informações que são processadas através dessas conexões,
a partir de objetivos e propósitos claros e bem estabelecidos pela
rede, representam fatores de determinação do nível de impacto das
normas e da formalização legal na dinâmica de funcionamento dessas
entidades. Quanto mais bem estruturada em termos de informações
processadas, através da ampliação dos seus elos de conexões, maiores
serão suas possibilidades de efetivar configurações em redes e mais
complexa será a organização.
Verifica-se, pois, que as fundações
voltadas para a execução ou a viabilização de projetos, mesmo
possuindo patrimônio próprio, em sua grande maioria, ainda apresentam
dificuldades com a obtenção de informações e a utilização da
tecnologia de informação para o desempenho de suas atividades, devido
à limitação de recursos financeiros, de infra-estrutura tecnológica e
de profissionais de informação, dentre outros.
Em virtude do grau de importância das
organizações do terceiro setor para toda a sociedade, há que se buscar
ações e se desenvolver estudos e pesquisas capazes de proporcionar
melhores condições de acesso e orientações acerca das informações
necessárias aos colaboradores desse segmento. Para tanto, é
fundamental o envolvimento da universidade, através de núcleos de
pesquisa, da formação de profissionais da área de informação, com
enfoque no terceiro setor, até mesmo, através da abertura de espaços
para a promoção de fóruns de discussão e para a busca de estruturas
flexíveis e integradas nesse segmento.
É necessária ainda a participação do
governo, no sentido de estabelecer uma política capaz de propiciar
maior visibilidade para esse segmento em razão dos benefícios que
promove e das dificuldades que enfrenta. Tal participação deve,
também, propiciar um ambiente favorável à flexibilidade dessas
organizações e às orientações legais sobre a forma de constituição e
funcionamento de suas estruturas, ressalvada a responsabilidade do
cumprimento de sua missão.
Finalmente, a conduta dos
profissionais do terceiro setor deve pautar-se por ações de
cooperação, em que sua credibilidade seja garantida pela forma como
conduzem suas atitudes em todas as relações que estabelece.
O gerenciamento de informações
mostrou-se, indiscutivelmente, como fator essencial para essas
entidades, tanto no que se refere à busca de novos elos nessa rede de
conexões, criando maiores possibilidades de atuar no contexto dinâmico
da realidade de que faz parte e garantindo sua manutenção e
sobrevivência, por estar em conexão na rede, quanto em criar
mecanismos de controles internos que promovam o melhor aproveitamento
de seus recursos.
A carência de profissionais da
informação, nesse espaço, leva à necessidade de abertura de novos
estudos, com vistas a aprimorar os conhecimentos específicos exigidos
desses profissionais, nessa área. A reflexão comparativa entre os
resultados desta pesquisa, focada na realidade de fundações, com
outros formatos de ONG´s tais como associações ou institutos, poderia
conduzir a outros resultados. Estudos envolvendo áreas de atuação
específicas como saúde ou meio ambiente, por exemplo, poderiam
contribuir com novas conclusões. Além disso, realidades de outros
países, estados ou regiões, poderiam ser contempladas em outras
pesquisas. Portanto, esse caminho é longo e aponta para uma
abrangência e amplitude vasta e diversa na pesquisa da ciência da
informação.
5
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* Simone Cristina Dufloth é Pós-Graduada em Administração de
Sistemas de Informação e em Comércio Exterior, Mestre em
Planejamento Energético pela Escola de Engenharia da UFMG, Doutora
em Ciência da Informação pela Escola de Ciência da Informação da
UFMG. Pesquisadora e Professora da Fundação João Pinheiro nos cursos
de Mestrado, Pós-Graduação e Graduação. Coordenadora do Curso de
Especialização em Administração da Fundação João Pinheiro e
Coordenadora da Área de Gestão da Informação do Mestrado em
Administração Pública da Fundação João Pinheiro. Professora Titular
do Centro Universitário de Ciências Gerenciais da UNA.
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