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Como Redigir Boas Cartas para Captação de Recursos
Andrea Goldschmidt*
Vários métodos de captação de
recursos usam cartas como a principal forma de comunicação com
doadores, parceiros ou prospects.
As cartas de captação de recursos
precisam estimular os clientes a fazerem o que desejamos: o principal
papel do redator da carta não é escrever, mas vender.
Quando enviamos uma carta, sempre
estamos querendo vender alguma coisa para alguém: uma idéia, uma ONG,
um produto ou serviço, o patrocínio de um evento, um convite para um
evento, a visita de um captador, um aumento no valor da contribuição,
etc.
O primeiro passo para tornar a
comunicação mais fácil de ser compreendida e conseguir melhores
resultados é ter em mente, antes de começar a escrever, o que você
está querendo vender neste caso.
Cartas que tentam vender várias
coisas ao mesmo tempo podem ser muito confusas para o leitor. A perda
de foco normalmente prejudica os resultados da ação.
Se você tiver várias coisas para
vender, avalie se não seria mais eficiente redigir diferentes cartas,
com conteúdos adaptados às expectativas e necessidades de cada leitor
(ou grupos de leitores com características comuns).
O planejamento da redação das cartas
pode ser feito conforme o roteiro abaixo, com 4 etapas:
-
Definição
dos objetivos da comunicação
-
Definição do público alvo (a quem a
correspondência se destina)
-
Construção
da “oferta” (o que estou oferecendo)
-
Definição da ação desejada e
fechamento da venda (o que espero que a pessoa faça)
Definição dos objetivos da comunicação
Uma carta pode ter vários objetivos
diferentes:
-
Realizar uma “venda” – vender algum
produto ou a própria organização, como acontece em campanhas de mala
direta para associação de novos parceiros;
-
Provocar um pedido de mais
informações;
-
Estimular uma visita à organização;
-
Estimular a leitura do folheto da
organização que está indo anexo ou a visita ao seu site;
-
Agendar uma visita para o captador
de recursos apresentar seu projeto;
-
Estreitar o relacionamento com
doadores e parceiros;
-
Obter respostas para um questionário
de pesquisa;
-
Levantar
nomes de prospects;
-
Convidar para um evento;
-
Etc.
Além disso, a carta pode desempenhar
funções diferentes como transmitir credibilidade, despertar interesse,
apresentar benefícios, responder a dúvidas, contornar objeções, fazer
uma oferta, transmitir senso de urgência, captar indicações de amigos
ou outros prospects, etc. A definição da função que a carta irá
desempenhar irá influenciar diretamente o tom e a forma como deve ser
escrita.
Definição do público alvo
Saiba para quem você está escrevendo.
Uma carta eficiente deve parecer ao máximo com uma conversa pessoal
em que você trabalha os argumentos adequados para cada um e usa
as estratégias corretas para levar a pessoa a agir como você espera.
Desta forma, você pode dividir os
leitores em grupos de pessoas com comportamentos parecidos e devem ser
redigidas versões diferentes da carta para cada grupo de leitores.
Isso é o que, em marketing, chamamos
de segmentação do mercado. O marketing de massa (mesma abordagem para
todos os clientes) não funciona neste caso, porque a forma de agir e
de pensar de cada pessoa, seu grau de relacionamento com a organização
e sua propensão para ter determinado comportamento podem ser
radicalmente diferentes.
Para criar os segmentos, deve-se
identificar as características em comum (e as que diferem) entre as
pessoas com as quais você quer se comunicar. Por exemplo: podemos
desenvolver uma segmentação baseada no relacionamento existente entre
o leitor e a sua organização, dividindo-os em:
-
Doador regular;
-
Doador
esporádico;
-
Ex-Doador
recente;
-
Ex-Doador antigo;
-
Prospect.
Mesmo que o objetivo da comunicação
para os três grupos seja o mesmo (convidar para um evento, por
exemplo), a forma de abordá-los precisa ser diferente.
No exemplo acima, convidaríamos os
doadores para o evento mencionando que, por serem nossos parceiros,
ficaríamos muito satisfeitos com a sua presença. Para os ex-doadores,
a carta deveria conter a menção de que gostaríamos muito de estreitar
os laços do nosso relacionamento porque gostaríamos muito de voltar a
ter o leitor como parceiro no futuro. Para um prospect, a abordagem
deve ser relacionada ao quanto é importante para nós que ele conheça
melhor nosso trabalho e, quem sabe, torne-se parceiro no futuro.
Teríamos, neste exemplo, um único
objetivo – convidar para um evento – e três modelos de cartas, cada
uma com uma abordagem diferente, mostrando maior adequação com o
público alvo selecionado.
Definição da oferta
Não basta redigir uma carta
personalizada e com um objetivo claro, é preciso que ela leve até o
leitor uma proposta interessante.
Para saber o que é interessante para
cada leitor, precisamos nos colocar no lugar dele e pensar quais são
seus desejos e necessidades: quais os benefícios que ele vê em apoiar
um projeto como o nosso.
No caso de uma carta para captação de
recursos, podemos imaginar que o leitor tenha várias necessidades ou
desejos diferentes quando resolve fazer uma doação:
-
Necessidade de ajudar o próximo;
-
Desejo de participar de ações
sociais na comunidade;
-
Aliviar a culpa;
-
Investir em ações sociais sem perder
seu foco de atuação;
-
Etc.
Também precisamos pensar como a nossa
proposta é melhor do que outras que o leitor possa ter recebido
ultimamente – comparação com a “concorrência”. Sabemos que o leitor
recebe correspondências (e propostas) de várias organizações ao longo
do ano. O que faria com que ele nos escolhesse em detrimento das
outras organizações que solicitaram seu apoio? O que fazemos melhor do
que as outras? O que nos diferencia? O que podemos oferecer a mais que
as outras?
Também pode ser útil pensar nas
objeções dos leitores. Quais os problemas ou razões que o levariam a
não querer apoiar a nossa organização? Se possível, trabalhe estas
objeções, demonstrando, no texto da carta, como elas poderiam ser
amenizadas.
Alguns comportamentos são comuns a
quase todas as pessoas. Desejos de economizar tempo, ganhar dinheiro,
ser popular, ser elogiado ou reconhecido, aproveitar as oportunidades,
evitar esforço, entre outros, são comuns a quase todos os seres
humanos. Explorar estas necessidades humanas pode tornar a sua
proposta mais convincente. Lembre-se de deixar claro para o leitor
quais destes benefícios ele terá ao apoiar a sua organização.
Definição da ação desejada e
fechamento da venda
Diga para o leitor o que ele deve
fazer. Seja explícito. Não perca de vista o objetivo da carta.
Dê instruções específicas e facilite a
ação:
-
Telefone para o
número abaixo e torne-se um contribuinte;
-
Preencha o cupom
anexo e envie por fax;
-
Ligue para
agendar uma visita.
Procure transmitir um tom de
urgência. Muitas vezes, se a pessoa não agir imediatamente após
terminar de ler a carta, ela se envolve com outras atividades e acaba
não tomando a ação desejada. Mostre que é importante que o leitor aja
imediatamente, para não perder o impacto da comunicação.
O fechamento da venda deve ser feito
em tom positivo: não diga “se você quiser se tornar parceira da
ONG...”, mas sim “assim que recebermos sua ligação para
cadastramento...”
Procure resumir os benefícios no
final da carta, reforçando sua oferta e deixando claro o que espera
que o leitor faça.
Outras Dicas Importantes:
1. Sua
carta vai ser sempre lida por uma pessoa,
nunca por uma empresa, um cargo ou por várias pessoas ao mesmo tempo –
use “eu”, “você” e os verbos no singular. Escreva de forma pessoal.
Encontre uma forma de parecer profissional e, ao mesmo tempo,
pessoal.
2. Fale
dos benefícios para o leitor, não das necessidades da organização
– Dê ênfase aos benefícios para o leitor (não para a organização). É
claro que ele quer ajudar, mas o destaque deve ser dado no porque
ajudar é importante ou benéfico para ele e não para a nossa
organização. Pense sempre que “Não somos nós que estamos enviando a
correspondência”, “é ele que está recebendo a correspondência”. Isso
pode parecer um detalhe sem importância, mas tem um grande impacto
sobre o leitor.
3.
Quem vai assinar a carta?
-
Sua carta deve
ser assinada por uma única pessoa – a pessoa que está
“conversando” com o leitor – não use nós, nossa empresa, etc., usar
verbos na primeira pessoa ajuda a criar um vínculo com o leitor.
-
Quem tiver o
maior contato ou vínculo com o doador potencial
– é importante que o doador perceba o vínculo que existe com quem
enviou a carta. O ideal é que a carta seja assinada por alguém que
conhece o leitor. Se isso não for possível, a carta pode ser
assinada pela pessoa que gerencia aquele projeto. Em alguns casos,
pode ser interessante que um colega de profissão assine a carta, por
exemplo, um médico assinando uma carta destinada a outros médicos.
-
A letra da
assinatura deve permitir que o nome seja lido
– o nome legível de quem assinou passa uma noção de credibilidade.
Se o nome não for legível, o leitor pode imaginar que qualquer
pessoa poderia ter assinado a correspondência.
-
Se a carta for
impressa em cores, a assinatura deve ser feita em azul
– mesmo que saibamos que as cartas não foram assinadas uma a uma,
subconscientemente isso parece uma personalização.
-
Quando
possível, assinar uma a uma mesmo.
4. Verifique
os recursos de personalização disponíveis
– mesmo que todo mundo saiba que os processadores de textos atuais
personalizam as cartas automaticamente, é sempre impactante receber
uma correspondência que parece ter sido feita exclusivamente para
você: com seu nome, nome da empresa onde você trabalha, alguma
referência ao seu último contato com a organização, etc. Neste caso é
muito importante tomar cuidado para que a personalização esteja
correta: erros de personalização podem ter o efeito contrário ao
desejado.
5. Não
tente falar tudo para todo mundo. Concentre-se nas informações mais
importantes para cada público selecionado. Pode ser interessante
reforçar e repetir a idéia principal várias vezes ao longo da carta
para ajudar a fixá-la.
6. Quantas
páginas a carta pode ter?
Lembre-se que a carta estará desempenhando o papel do vendedor e que
pode ser difícil cobrir tudo com uma carta muito curta. Não acredite
no mito de que cartas longas nunca são lidas, mas faça o possível para
ser claro e direto e conseguir transmitir suas idéias no menor espaço
possível. Lembre-se que as pessoas são ocupadas e podem se
desinteressar se sentirem que o texto tem informações pouco
relevantes. Faça a carta do tamanho que for necessário para atingir
seus objetivos.
7. Pesquisas
indicam que você tem 3 segundos para prender a atenção do leitor
após a abertura do envelope – mostre o principal benefício logo no
primeiro parágrafo, “seduza” o leitor para estimulá-lo a saber mais
sobre o assunto. Também pode ser interessante destacar alguma
informação através de um quadro ou uma chamada marcante. O quadro
será, certamente, lido antes do restante do texto.
8. Geração
de Leads – não esgote todas
as informações, use a carta para despertar o interesse do leitor e
despertar a curiosidade da pessoa. Incentive o leitor a entrar em
contato para obter mais informações.
9. Inclua
um P.S. – a maioria das
pessoas lê o P.S. antes de começar a leitura propriamente dita. Use o
P.S. para destacar algum benefício importante, dar tom de urgência ou
incluir uma informação nova de grande interesse para o leitor. Uma boa
dica é usar no P.S. alguns termos como “mais um detalhe...” ou “e você
também ganha...”. Este tipo de chamada leva o leitor a acreditar que
existem outros benefícios citados ao longo do texto e fazem com que
tenha vontade de ler a carta inteira.
10. Facilite
a leitura – escreva como
você fala: use palavras simples e frases curtas e diretas. Dê
preferência à voz ativa. Não seja escravo da gramática – seu objetivo
é ser claro – aceite quebrar algumas regras gramaticais, mas cuidado
com erros que prejudiquem a credibilidade da sua proposta e da sua
capacidade.
11. Envolva
o leitor – Faça com que ele
se identifique com alguma situação ou caso relatado na carta
12.
Comece sua carta:
-
Fazendo uma
pergunta
-
Contando uma
história
-
Mencionando seu
relacionamento anterior com o leitor
-
Mostrando que
você tem os mesmos sentimentos e desejos que ele
-
Projetando o
leitor para alguma situação agradável
13. Seja
honesto e sincero – a carta
deve transmitir credibilidade para que o leitor sinta-se confiante em
tornar-se seu parceiro. Inclua informações sobre a solidez e o
histórico da organização, mas não exagere ao descrever os benefícios
oferecidos, porque isso pode elevar demais as expectativas (gerando
reclamações posteriores) ou até mesmo comprometer a credibilidade da
organização. Nunca minta.
14. Use
testemunhais – peça que
outros doadores ou que os beneficiários da sua ação escrevam com suas
próprias palavras sobre os benefícios que a parceria trouxe para eles
e para suas famílias. Inclua estes depoimentos (ou trechos deles) na
sua carta, citando o nome da pessoa que deu o testemunho.
15.
Diagramação
-
Divida o texto em
parágrafos curtos
-
Use recuo na
primeira linha do parágrafo
-
Não alinhe o
parágrafo do lado direito
-
Use subtítulos
para destacar os principais benefícios – todos os subtítulos vão ser
lidos antes da pessoa ler a carta toda
-
Sublinhe ou
destaque com negrito. Mas não exagere, destacar tudo acabará não
dando ênfase a nada
-
Nunca use letra
menor do que 10 pontos
* Andrea
Goldschmidt é administradora de empresas pela EAESP- FGV e atua como
captadora de recursos desde 1999. Também é professora de Marketing e
Captação de Recursos na ESPM e na FACAMP e colaboradora do Centro de
Estudos do Terceiro Setor (CETS) da Fundação Getúlio Vargas. Trabalha
como consultora na APOENA Empreendimentos Sociais (www.apoenasocial.com.br)
auxiliando empresas na implantação de programas de responsabilidade
social junto à comunidade.
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