|
A comunicação nas empresas socialmente responsáveis
Claudio Paiva*
Um dos maiores dilemas éticos que envolvem as
relações entre comunicação e responsabilidade social corporativa (RSC)
diz respeito à verdadeira motivação que move as empresas na direção
da responsabilidade social. Os casos de empresas interessadas
unicamente em obter ganhos de imagem talvez cresçam na mesma
proporção em que avança o movimento pela RSC. Sem entrar no mérito
desse debate e especular sobre as possíveis distorções decorrentes,
bem como sobre o fôlego da intenção primeira, suas possibilidades de
sobrevida e de obtenção de resultados concretos, cabe aos
profissionais de comunicação estarem atentos ao assunto, pois ela
envolve a própria reputação da atividade e de seus praticantes.
A intenção desse texto é propor alternativas que
instrumentalizem os profissionais de comunicação para lidar com este
dilema no mundo corporativo. A proposta básica é tentar inverter a
equação: ao invés de utilizar a responsabilidade social para a
geração de resultados de comunicação, a idéia é utilizar a
comunicação, suas ferramentas e processos, para dinamizar as
práticas de responsabilidade social e o diálogo com os stakeholders.
A proposta tem como premissa as profundas alterações ao exercício da
comunicação corporativa propostas pelo crescente desenvolvimento e
expansão da responsabilidade social nas organizações. Assumindo que
empresa socialmente responsável é aquela que, além de produzir bens
e/ou serviços de qualidade, com preços competitivos e distribuição
eficaz, também respeita o meio ambiente e relaciona-se de forma
ética e transparente com seus stakeholders, pode-se apontar várias
implicações no campo prático e teórico da Comunicação Corporativa,
derivadas das significativas transformações promovidas pela gestão
socialmente responsável. As implicações para a atividade da
comunicação, ainda pouco exploradas no meio acadêmico, começam pouco
a pouco a serem identificadas no mundo empresarial.
A responsabilidade social corporativa diz
respeito à atitude da empresa perante a sociedade, o meio ambiente e
os stakeholders. Portanto, a responsabilidade social não existe por
si só. Ela não apenas pressupõe a existência do outro, mas também
regula as relações entre a empresa e os seus públicos. Entre a
empresa e seus stakeholders é necessário haver uma atitude de
diálogo, de interlocução, e portanto de comunicação. Por isso é
válida a máxima de que não basta à empresa ser socialmente
responsável. Ela tem que parecer ser. Portanto, não existe
responsabilidade social sem percepção de responsabilidade social.
Como não existe percepção sem comunicação, pode-se concluir que, sem
comunicação, a responsabilidade social não se realiza de modo
efetivo.
O raciocínio inverso também é verdadeiro. Para a
empresa que pretende ser socialmente responsável, a comunicação
perderia boa parte de seu sentido sem a RSC. A comunicação
alimenta-se da responsabilidade social, fazendo dela a sua principal
matéria-prima e referência de trabalho. A RSC propõe substanciais
alterações na agenda de todas as áreas da empresas – e a área de
comunicação é uma das mais impactadas nessa transformação. A
responsabilidade social propõe uma verdadeira repactuação do papel
da comunicação na organização.
Portanto, existe uma relação de interdependência e interpenetração
entre a RSC e a Comunicação. Tal idéia pode parecer muito assertiva,
mas os argumentos apresentados a seguir pretendem demonstrar de
forma clara a importância estratégica da comunicação no processo de
responsabilidade social e vice-versa.
Espaços de intersecção
A
primeira mudança significativa na atividade de comunicação, proposta
pela responsabilidade social, é a necessidade de integração e
participação na gênese das políticas e práticas. A RSC exige um novo
tipo de postura do profissional de comunicação e na sua forma de
envolvimento com os fatos que são a sua matéria-prima de trabalho.
No processo de responsabilidade social, a comunicação não pode ser
vista como uma disciplina estranha, alheia ou apartada, que só se
envolve com os fatos depois que eles aconteceram ou na hora de
administrar uma crise. Ao invés de simplesmente comunicar a ação, o
profissional de comunicação é chamado a participar da formulação dos
projetos e pode fazer a diferença na hora de implementar as ações,
visto que a comunicação oferece instrumentos valiosos para dinamizar
e estruturar o exercício da responsabilidade social.
Essa nova função da comunicação deriva das
dinâmicas e da natureza das ferramentas com as quais lida essa
disciplina. Pelo menos quatro das atribuições do profissional de
comunicação, nos dias atuais, são comuns também ao processo de
gestão de responsabilidade social:
-
Coordenar o processo de formulação das
mensagens que a corporação transmitirá a todos os seus públicos,
especialmente quando se tratar dos temas sensíveis;
-
Desenvolver os canais mais adequados
para cada tipo de mensagem e para cada público;
-
Desenvolver mecanismos de feedback
sobre a efetividade da comunicação;
-
Construir relacionamentos leais e
duradouros entre a organização e os seus stakeholders, por meio de
processos estruturados de diálogo.
Essas atribuições sugerem, mais do que afinidades, um espaço de
intersecção entre comunicação e RSC. Essa área comum configura-se
principalmente na dinâmica da comunicação transparente e dialógica,
um pressuposto básico da responsabilidade social (diálogo com
stakeholders) e um imperativo na atividade da comunicação (feedback
da mensagem) nas organizações modernas.
Na prática, essas duas coisas significam uma só:
a interação com o interlocutor está baseada no gesto de falar e
ouvir, observar e ser observado, argumentar e respeitar a
contra-argumentação, dialogar e procurar o entendimento.
A comunicação transparente e dialógica, portanto,
é uma variante da comunicação responsável, que propõe a
bidirecionalidade do fluxo de mensagens como padrão de operação.
Contudo, no mundo de hoje, onde os atores com os quais a empresa
interage são numerosos, esse exercício de diálogo quase sempre não
pode ser feito de forma presencial. A comunicação desenvolve
diversos mecanismos de interação estruturada, entre os quais a
pesquisa para aferição de expectativas e necessidades e para a
avaliação de percepções de stakeholders; a internet, por suas
características interativas, é também um espaço privilegiado para
abrigar o exercício do diálogo; os eventos, se orientados para a
interação e o diálogo, são também táticas que produzem resultados
interessantes; entre outras.
Temas estratégicos e transversais
Assim como o corpo humano, a empresa transpira por múltiplos poros
que interagem com o ambiente de maneira capilar. Os canais de
comunicação da empresa com o mundo interno e externo não são apenas
os veículos estruturados e administrados pela área de comunicação.
Os elementos mais significativos no processo de formação de
reputação são aqueles que atuam informalmente como meio e mensagem a
um só tempo: as atitudes e gestos da empresa e das pessoas que nela
trabalham.
Um vendedor da fábrica de alimentos que visita um
supermercado; um propagandista de laboratório farmacêutico que
conversa com um médico; um funcionário da mesa de compras que
negocia com fornecedor. Cada um desses profissionais são poros da
organização. Eles relacionam-se com stakeholders e vertem mensagens
corporativas. São, portanto, agentes de responsabilidade social e de
comunicação.
Se é assim, conclui-se que
o exercício da comunicação e da responsabilidade social não está
restrito aos gestores desses processos, pois esses temas são
estratégicos e transversais na vida das empresas. Idealmente, todos
os colaboradores devem estar preparados para atuar como porta-vozes
da organização, mesmo que eles não tenham autorização formal para
falar em nome da empresa. Nas situações de convívio social, eles são
percebidos como porta-vozes da organização – e podem formar opinião.
Vem daí, portanto, a necessidade de treinamento e familiarização
desses gestores com temas corporativos e institucionais, entre os
quais se incluem as políticas de comunicação e de RSC, que permeiam
a toda a organização e orientam as relações da empresa com todos os
públicos.
É claro que existem especialistas em comunicação
e responsabilidade social, pessoas dedicadas ao seu estudo e
prática, seja no ambiente acadêmico ou nas empresas. Contudo, esses
especialistas não devem concentrar e monopolizar o conhecimento
sobre esses assuntos. Ao contrário, devem atuar como pólos de
disseminação, facilitação e mediação das políticas e práticas das
duas disciplinas. A transversalidade da comunicação e da
responsabilidade social exige um tratamento multidisciplinar,
multidepartamental e multi-hierárquico.
Pelo fato de a responsabilidade social ter impacto direto sobre a
reputação empresarial, como veremos mais adiante, as áreas de
comunicação estão freqüentemente envolvidas, quando não liderando a
implementação da responsabilidade social nas empresas. Mas existem
outras múltiplas portas de entrada nas empresas – além da
comunicação, é freqüente também a liderança ser exercida pela área
de RH, departamento Jurídico, Gestão de Qualidade, Gestão Ambiental,
Assuntos Corporativos, entre outros. Tanto faz a porta pela qual o
tema é introduzido na organização. O importante é assegurar que a
responsabilidade social não fique circunscrita a um departamento e
tenha o envolvimento e o compromisso de todos.
Mas, para que aconteçam de fato, e não só na
teoria, responsabilidade social e comunicação devem necessariamente
partir do exemplo da liderança da organização como mecanismo inicial
de contágio. E, a partir daí, contaminarem a atitude de todos os
escalões e de todos os departamentos. Quando a liderança empenha-se
pessoalmente, a responsabilidade social espalha-se como um vírus do
bem no interior das organizações, propondo um novo pensar e um novo
fazer a cada gestor. A área de comunicação é sempre uma das
primeiras a ser contaminada, assumindo o grande desafio de
reposicionar os seus pressupostos e referências.
Nas organizações socialmente responsáveis, a atividade de
comunicação passa a ser exercida dentro de um novo paradigma: além
de incorporar novas temáticas, tendo como motivação básica a nova
agenda que a RSC introduz na organização, a área de comunicação
passa a exercer novas funções. Nas organizações socialmente
responsáveis, a comunicação passa a ser exercida como fator de:
-
Transparência e de diálogo perante a
sociedade;
-
Mobilização do público interno,
fornecedores, acionistas e concorrentes, com a causa da
responsabilidade social e do desenvolvimento sustentável;
-
Educação e aprendizagem, a partir do
diálogo e consideração dos pontos de vistas de todos os
stakeholders, reconhecendo que estamos em contínuo aperfeiçoamento
de nossas práticas e processos.
Vetores de percepção
Ao ingressar no mundo da responsabilidade corporativa, incorporando
a seus temas estratégicos o novo paradigma das relações, redes,
relacionamentos e interações com os stakeholders e os diversos
atores sociais, a empresa lança-se em um outro movimento, muitas
vezes de forma despercebida. Trata-se da expansão dos vetores de
percepção da empresa. Ao vetor tradicional da imagem, sobre o qual
recaiu toda a ênfase da Comunicação Corporativa até meados dos anos
90, agrega-se o vetor da reputação.
Imagem e reputação são conceitos semelhantes em alguns aspectos, mas
não podem ser confundidos. Às vezes andam juntos, e este é o melhor
dos mundos. Mas nem sempre ocorre assim. Existem companhias com
excelente imagem, mas com reputação duvidosa. Da mesma forma, há
também empresas cuja imagem é muito pouco difundida, porém gozam de
reputação intocável. A que se deve o descolamento desses dois
conceitos?
A imagem é o vetor de percepção da empresa que opera no clássico
paradigma que combina foco no preço, na qualidade, na distribuição e
na publicidade. Aqui, a empresa detém sob seu absoluto controle os
principais fatores constitutivos de seu negócio. Pode administrar
estrategicamente, buscar talentos, crescer, desenvolver tecnologia,
lançar novos produtos e promovê-los perante o mercado. Se for bem
sucedida, poderá gozar de boa imagem. Se operar em segmentos muito
competitivos e que exigem investimentos em comunicação, poderá
construir uma excelente imagem.
A imagem, portanto, é uma referência construída, projetada e
administrada pela empresa. É como uma fotografia viva e dinâmica
arquivada em nossa memória, plasmada por impulsos emitidos pela
própria empresa e fortemente mediados pela indústria da comunicação.
Diferentemente, a reputação tem por base impulsos que se referem a
um repertório ampliado, não restrito aos fatores preço, qualidade,
distribuição e publicidade. A reputação é a resultante de um
processo que tem por base os valores e a identidade da empresa,
refletidos sobre a forma como ela se relaciona com o meio ambiente e
como trata seus stakeholders. Aqui, o investimento em comunicação
funciona como uma enzima capaz de acelerar e potencializar as
reações que, de outra forma, se farão a um ritmo mais lento, mas
igualmente efetivo. A reputação, portanto, não é uma referência
frágil e volátil, pois está construída sobre alicerces sólidos.
Portanto, as empresas devem se ocupar não só da construção da
imagem, mas cuidar principalmente da reputação delas, pois é isso
que de fato faz a diferença na hora em que o cliente ou consumidor
tiver de optar por esta ou aquela marca. Ou, da mesma forma, na hora
em que um jovem profissional de talento estiver escolhendo ingressar
nesta ou naquela organização.
*Claudio Paiva é diretor da unidade de Responsabilidade
Corporativa da CDN- Companhia de Notícias.
|