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Como trabalhar com voluntários na captação de
recursos
Andrea Goldschmidt*
Quando
falamos de captação de recursos para uma organização, podemos
estar falando em captação de dinheiro, de materiais, de produtos,
equipamentos, espaços físicos para a realização de atividades ou
eventos e, sem dúvida, de pessoas.
A existência
de voluntários, neste sentido, já é uma forma de captação de recursos
– recursos humanos.
Os recursos
humanos são essenciais na captação de outros recursos para uma
organização, já que são necessárias pessoas para fazerem contatos com
potenciais doadores, para ajudar na montagem de uma mala direta, na
organização de eventos, em atividades de telemarketing, etc.
A captação de
recursos é uma atividade que deve permear toda a organização. Todos os
funcionários e voluntários (sejam da linha de atendimento, diretores
ou conselheiros) podem e devem participar das atividades de captação
de recursos e, neste sentido, mesmo os funcionários de outras áreas da
organização podem ser voluntários.
Se gerenciar
pessoas já não é uma tarefa fácil, gerenciar voluntários apresenta
alguns desafios adicionais. Estamos lidando com pessoas com motivações
diferentes, disponibilidades diferentes, expectativas diferentes e com
apenas uma coisa em comum – não estão ganhando nada (financeiramente)
para desenvolver o trabalho proposto.
O que estamos
discutindo aqui, portanto, é como aproveitar o melhor de cada uma
destas pessoas, gerenciando os conflitos e dificuldades que irão
surgir neste processo.
É importante
pensarmos em alguns aspectos desta questão:
-
Como cada
uma destas pessoas pode ajudar? Que atividades estas pessoas podem
desenvolver? Que contatos elas têm que podem ser úteis para a
organização?
-
De quantas
pessoas dispomos?
-
Que
estrutura é necessária para gerenciar as atividades deste grupo?
-
Como vamos
fazer para envolvê-las, motivá-las e controlar seu trabalho?
-
Que
materiais são necessários para que estas pessoas possam desenvolver
suas atividades de maneira mais produtiva.
Este
planejamento deve ser feito antecipadamente, juntamente com o
planejamento da captação como um todo, já que algumas das conclusões
que vamos chegar ao analisar os recursos humanos de que dispomos podem
afetar as decisões de como o plano como um todo deve ser conduzido.
QUE
ATIVIDADES OS VOLUNTÁRIOS PODEM DESENVOLVER
A princípio
qualquer atividade pode ser desenvolvida por voluntários. Existem dois
caminhos que podemos seguir:
1. Depois
de elaborado o plano de captação (no qual foram pensadas
estrategicamente as atividades que devem ser realizadas para captação
de recursos) a organização seleciona os voluntários para desenvolverem
o trabalho
Esta é a
situação ideal, já que a organização primeiro estabelece o que precisa
ser feito e depois seleciona as pessoas que podem desempenhar
aquela(s) tarefa(s) com eficiência.
Para que esta
possibilidade exista, a organização precisa contar com uma grande
variedade de voluntários cadastrados. Estes voluntários vão sendo
chamados a participar sempre que surgirem atividades que demandem as
aptidões específicas que cada um deles têm.
Esta é a forma
mais eficiente de trabalhar, já que aproveitamos as aptidões e
habilidades de cada pessoa.
Na realidade a
situação que encontramos no mercado em geral é um pouco diferente
desta, já que as organizações não dispõem de tantas alternativas de
recursos humanos disponíveis.
2. Selecionados
os voluntários, vamos fazer um levantamento de suas habilidades e
aptidões e pensar como podemos explorá-las da melhor maneira
possível.
Quando a
organização não dispõe de muitas alternativas de recursos humanos
disponíveis, este pode ser um caminho interessante.
É melhor
aproveitar as habilidades de um voluntário que esteja disponível, do
que insistir em captar recursos através de canais sobre os quais não
se tem conhecimento e/ou acesso.
É preciso
tomar cuidado, no entanto, para não perder boas oportunidades de
mercado porque a organização não conseguiu enxergar alternativas para
os métodos tradicionais de captação que seus voluntários estabeleceram
como ideal.
Para que
possamos aproveitar o melhor destas duas alternativas, a sugestão é:
-
Elabore um
plano de captação de recursos “ideal”;
-
Identifique as habilidades necessárias para desenvolvimento
das atividades do plano;
-
Monte um
cadastro de voluntários disponíveis e identifique as habilidades de
cada um deles;
-
Faça um
cruzamento das duas informações e tente ajustar o plano para que
fique o mais próximo possível do ideal e aproveite da melhor maneira
possível as habilidades dos voluntários disponíveis.
COMO
ENVOLVER OS VOLUNTÁRIOS NAS ATIVIDADES DE CAPTAÇÃO
Algumas
organizações têm facilidade em atrair voluntários, mas têm uma certa
dificuldade em mantê-los. A captação de recursos, como sabemos, é um
processo que às vezes demanda tempo e, por isso, precisamos de
voluntários “fixos”: pessoas que estejam comprometidas com o trabalho
e que tenham o compromisso de levar a cabo as atividades e os contatos
que foram iniciados.
Para que um
voluntário permaneça trabalhando por um longo período para uma
organização, ele deve estar ainda mais motivado a participar do que os
funcionários remunerados.
O voluntário
tem que enxergar:
-
Que
faz diferença;
-
Que seu
trabalho é importante;
-
Que está
sendo reconhecido por desenvolver este trabalho e pelo apoio que dá
a esta organização.
Motivação é a
palavra chave! É importante que os voluntários recebam o retorno que
esperam com o trabalho que estão realizando.
O complicado
aqui é saber o que cada voluntário espera. Como estamos lidando com
pessoas, as motivações de cada voluntário podem ser muito diferentes
e, para isso, teremos que desenvolver a difícil tarefa de estudar as
motivações de cada pessoa.
Pode ser
interessante, desenvolver um pequeno questionário (ou uma breve
entrevista), através do qual a organização possa conhecer melhor seus
voluntários e entender mais profundamente quais são as suas
motivações.
Também é
importante que a atividade seja acompanhada (supervisionada) com
freqüência, para que o voluntário não se sinta demasiadamente “solto”.
Isso não significa controlar cada passo que o voluntário dá. Lembre-se
que eles estão ali para ajudar, dividindo as tarefas. Se a supervisão
for freqüente demais ou profunda demais, a equipe de supervisão vai
ficar ainda mais sobrecarregada e os voluntários, ao invés de ajudar,
podem até atrapalhar.
COMO
FAZER A SUPERVISÃO E AVALIAR OS VOLUNTARIOS
Se levarmos em
consideração que o voluntário foi selecionado para desempenhar uma
tarefa específica, é fácil imaginar que haverá um detalhamento do que
deve ser feito, em que prazo e com que recursos. Se o plano de
atividades tiver sido feito desta maneira, ficará fácil implantar um
sistema de supervisão deste trabalho.
O
desenvolvimento de um plano de ação, portanto, é a chave para a
supervisão do trabalho dos voluntários (e também dos funcionários
remunerados).
Pode ser
interessante estabelecer reuniões regulares de acompanhamento do
plano. Sempre que planejamos uma atividade composta por várias etapas
de trabalho (como um plano de captação de recursos), é importante que
haja momentos pré-definidos de avaliação do andamento das ações
propostas.
Além desta ser
uma forma justa e clara de cobrar o trabalho de todas as pessoas
envolvidas (já que cada um sabe o que deve fazer, quando, qual a
importância do seu trabalho dentro do todo e qual o impacto de um
atraso de sua parte no trabalho de outras pessoas), a tendência é que
as pessoas entendam estas datas como “dead-lines” e que realizem a sua
parte até a data do próximo encontro.
A supervisão,
portanto, deve ser freqüente e baseada em informações pré-acordadas
(das atividades que deveriam ser realizadas).
Isso não
significa que não possam acontecer atrasos ou contratempos durante a
execução do plano. O supervisor tem que ter a habilidade de reconhecer
quais os problemas que levaram ao não cumprimento das atividades
acordadas – corpo mole, falta de habilidade do voluntário para aquela
tarefa, falta de suporte da organização, problemas externos, etc. – e
avaliar como esta dificuldade será contornada para que o sucesso do
plano não seja comprometido.
Este já é o
começo da avaliação do trabalho dos voluntários. Quando fazemos
reuniões de acompanhamento com freqüência, estamos construindo dia
após dia, uma avaliação de cada um dos voluntários envolvidos nas
atividades de captação de recursos.
Se o
desempenho for bom, isto é, se as atividades estiverem sendo
desenvolvidas a contento, ótimo. Se não for bom, é preciso fazer uma
análise da situação e definir o que fazer.
Podemos pensar
em várias alternativas:
Pode parecer
estranho falar em “demissão” de voluntários, mas a organização precisa
ter em mente que o voluntário está ali para ajudá-la, mais do que para
ser ajudado.
É possível,
portanto, “demitir” voluntários que não estejam trazendo os resultados
desejados (ou combinados com o restante do grupo), mas é claro que
isso deve ser o resultado de sucessivas avaliações negativas.
Quando o grupo
como um todo percebe que aquele voluntário não está desenvolvendo suas
atividades como proposto, é até bom que ele seja desligado, para não
criar desânimo entre os demais voluntários.
COMO DAR
RECONHECIMENTO PARA OS VOLUNTARIOS PARTICIPANTES
Se podemos
“demitir” voluntários que não atendem às nossas expectativas,
certamente também devemos dar reconhecimento para os voluntários que
atendem (e até superam) às expectativas.
Imaginando que
a organização tenha feito a pesquisa sugerida para conhecer melhor as
motivações dos voluntários, ela precisa, em algum momento, dar a eles
o retorno que esperam.
É claro que
alguns retornos são imediatos ou constantes: “o prazer de ver o
desenvolvimento de uma comunidade” poderá ser observado pelo
voluntário no dia-a-dia, à medida que as atividades vão sendo
desenvolvidas. Mas muitas pessoas tornam-se voluntárias em função do
reconhecimento que vão ter e, desta forma, esta é uma atividade que
não pode ser negligenciada.
O
reconhecimento pode ser simples, feito dentro do próprio grupo, ou
pode ser um reconhecimento público, em um evento, por exemplo.
Algumas
organizações realizam eventos anuais de reconhecimento de voluntários:
uma festa em que serão “premiadas” as pessoa que ajudaram com seu
trabalho voluntário ao longo do ano. Estas pessoas podem receber um
diploma, um troféu ou simplesmente ter seu nome citado na presença de
pessoas que sejam importantes para elas (sejam familiares,
empregadores ou amigos).
O que
precisamos ter em mente é que da mesma forma que estamos avaliando
nossos voluntários, também estamos sendo avaliados por eles. Se nesta
avaliação eles tiverem a percepção de que não tiveram o retorno que
desejavam (os itens que citaram na nossa pesquisa), eles provavelmente
irão procurar outras organizações para oferecer seu trabalho e, desta
forma, perderemos o voluntário.
Trabalhar com
voluntários, portanto é uma tarefa muito gratificante e economicamente
viável, mas que precisa ser planejada de maneira detalhada para que se
obtenha os resultados desejados.
Além do
planejamento detalhado do trabalho que será realizado, deve-se ter
especial atenção com a seleção, a avaliação de desempenho e as ações
de motivação dos voluntários para que a ação de captação com a
participação de voluntários seja realmente eficiente.
* Andrea
Goldschmidt é administradora de empresas pela EAESP- FGV e atua como
captadora de recursos desde 1999. Também é professora de Marketing e
Captação de Recursos na ESPM e na FACAMP e colaboradora do Centro de
Estudos do Terceiro Setor (CETS) da Fundação Getúlio Vargas. Trabalha
como consultora na APOENA Empreendimentos Sociais (www.apoenasocial.com.br)
auxiliando empresas na implantação de programas de responsabilidade
social junto à comunidade.
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