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Gestão de Pessoas em Instituições do Terceiro Setor: uma reflexão
necessária
Selma
Frossard Costa*
Introdução - O espaço
contemporâneo de fortalecimento das organizações da sociedade civil
sem fins lucrativos
No decorrer das duas últimas
décadas, primeiramente no contexto dos países de economia central,
hegemônicos economicamente, e posteriormente nos países periféricos,
dentre eles o Brasil, houve um significativo aumento da atuação de
organizações da sociedade civil sem fins lucrativos voltadas para
ações setoriais: assistência social, saúde, educação, meio ambiente,
arte e cultura, cidadania, segurança alimentar, etc. Essas
organizações passaram gradativamente a ocupar também o espaço
público até então considerado como esfera exclusiva do Estado. Esse
fenômeno tem ocorrido dentro de um processo maior de reorganização
do capital e do mundo do trabalho, em esfera mundial, e na proporção
em que as crescentes demandas para o atendimento às necessidades
sociais da população não encontram ações efetivas e eficientes no
Estado. Temas que servem como pano de fundo para compreendermos esse
processo gradativo de avanço das organizações da sociedade civil sem
fins lucrativos no espaço público.
Essas
organizações não fazem parte do Estado, nem a ele estão vinculadas,
mas se revestem de caráter público na medida em que se dedicam a
causas e problemas sociais e em que, apesar de serem sociedades
civis privadas, não têm como objetivo o lucro, e sim o atendimento
das necessidades da sociedade.
(Tenório, 2001: 07)
Significativos acontecimentos
históricos, de caráter político, econômico e social, marcaram
definitivamente o mundo contemporâneo, somados ao avanço tecnológico
e científico. Novos temas como a globalização, mercado
internacional, neoliberalismo, privatização, responsabilidade
fiscal, controle social, gestão pública e acordo monetário passaram
a constituir o cenário de discussões e/ou decisões relacionadas a
políticas públicas que pudessem dar conta de questões emergentes que
passaram a afetar, direta ou indiretamente, países, governos e
populações.
Apesar da pobreza e miséria sócio-econômica que
facilmente identificamos em nossa sociedade, não podemos considerar
o Brasil um país pobre. Certos setores da indústria, agricultura e
comércio são desenvolvidos e geram muita riqueza. O problema é que a
riqueza produzida no país encontra-se concentrada nas mãos de uma
minoria que, direta ou indiretamente, acaba mantendo o controle
político da nação. Com a concentração de renda nas mãos de poucos, o
índice de desemprego crescendo, os grandes contingentes de migrantes
rurais e a mão de obra desqualificada e explorada, o resultado tem
sido a ampliação da miséria e da pobreza, sendo evidente que
desigualdades sociais acabam por provocar um índice crescente de
violência e criminalidade.
Nesse contexto econômico e político o processo de
exclusão social evidencia-se cotidianamente.
“As conseqüências da implementação do ideário
neoliberal nas sociedades, que como a brasileira, vivem os impasses
da consolidação democrática, do frágil enraizamento da cidadania e
das dificuldades históricas de sua universalização para a maioria da
população, expressam-se pelo acirramento das desigualdades,
encolhimento dos direitos sociais e trabalhistas, aprofundamento dos
níveis de pobreza e exclusão social, aumento da violência,
agravamento sem precedentes da crise social que, iniciada nos anos
80, aprofunda-se amplamente na década de 90.” (Raichelis;
1999:60)
Por outro lado, estão em pauta, de forma
acentuada, os direitos humanos, a justiça social, a participação
social, a cidadania, bem como os grupos sociais organizados:
movimento dos sem terra, dos sem teto, dos negros, dos meninos e
meninas de rua, dos homossexuais, das mulheres, todos querendo fazer
valer seus direitos e as conquistas jurídicas já efetivadas. A
consciência de participação social e política do povo também
cresceu. As Leis Orgânicas¹ de cunho social promulgadas nos últimos
anos criaram espaços efetivos de participação da sociedade civil no
planejamento e execução de políticas sociais, através dos
respectivos Conselhos municipais, estaduais e federal.
No entanto, ao mesmo tempo em que ocorreram essas
conquistas, vimos crescer com grande força política e econômica a
ideologia neoliberal, como respaldo da política governamental, a
começar na instância federal, para determinar o “Estado Mínimo”,
significando uma clara intencionalidade de repassar à sociedade
civil, responsabilidades conferidas à instância pública
governamental, conforme a Constituição Federal de 1988 e todas as
Leis Orgânicas decorrentes.
"A saúde é direito de todos e dever do Estado,
garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem a
redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal
e igualitário às ações e serviços para a sua promoção, proteção e
recuperação.” (art. 196 - C.F./88)
"A assistência social será prestada a quem dela necessitar,
independentemente da contribuição à seguridade social.”
( art. 203 - C.F./88)
"A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será
promovida e incentivada com a colaboração da sociedade...”
(art. 205 -CF/88)
Quando refletimos esse quadro
conjuntural constatamos que, apesar das profundas mudanças ocorridas
no contexto brasileiro no decorrer dos últimos vinte anos, tendo
como marco fundamental a promulgação da Constituição Federal de 1988
e, no que se refere às políticas sociais, as leis orgânicas da saúde
e da assistência social, o estatuto da criança e do adolescente, a
lei de diretrizes e bases da educação, a lei de atenção ao idoso,
etc., as diretrizes ali expressadas e os direitos ali garantidos
ficaram muito aquém do patamar desejado e almejado pela população
brasileira, em sua maioria excluída do acesso aos bens e serviços de
atendimento básico à saúde, educação e assistência social.
Na contramão das conquistas sociais citadas
acima, percebemos o surgimento do discurso do "Estado falido" e,
portanto incapaz de dar respostas eficazes às demandas sociais
ocorrendo, na verdade, uma retirada gradativa e estratégica do
Estado da arena social, sem investimentos significativos na mesma,
sucateando as políticas sociais públicas e tornando-as ineficazes,
não garantindo ao cidadão o acesso aos direitos reconhecidos e
promulgados legalmente.
A intencionalidade clara que permeia
essa questão é a transferência para a sociedade civil de ações e
responsabilidades até então bastante afetas à área estatal,
determinando a implantação do denominado "Estado Mínimo"; isto é, é
a inserção cada vez maior das instituições não governamentais na
esfera pública, atendendo a segmentos e problemáticas sociais
tradicionalmente assistidas pelo Estado.
É nesse contexto de sucateamento das políticas
públicas que a sociedade civil tem encontrado terreno fértil para o
surgimento e fortalecimento de atividades sem fins lucrativos e de
interesse público. Público porque o serviço prestado ou o benefício
gerado é voltado para segmentos da sociedade em situação de risco ou
carência, reconhecidos legalmente como direitos de cidadania. Toda
instituição que trabalhe em função da garantia desses direitos
estará cumprindo um fim público.
Organizações da sociedade civil não têm se negado
a atuar em direção à mudança do quadro conjuntural de exclusão
social, à medida que criam e mantêm instituições sociais para o
atendimento a diferentes segmentos da população: criança e
adolescente, população de rua, usuários de drogas, idosos, em
diferentes áreas: educação, saúde, habitação, trabalho, assistência
social, arte e cultura, etc.
FERRAREZI (1997) afirma que ao
pensarmos na dimensão dos problemas sociais brasileiros -
desigualdade de renda, pobreza, diversas formas de exclusão social,
fome, analfabetismo e baixa qualificação profissional, crianças em
situação de risco, habitação, etc., nas demandas crescentes e
complexas e na heterogeneidade sócio-econômica-cultural e regional,
fica-nos claro que a questão social dificilmente será resolvida
unicamente pela ação do poder público estatal, a não ser que essa
questão se torne prioridade política, o que não acontece, pois está
sempre em detrimento ao poder econômico, não somente pelos limites
financeiros, organizacionais e gerenciais do Estado mas,
principalmente, pelo esgotamento de suas funções tradicionais
ligadas ao Estado de Bem-Estar Social, e pelas novas demandas
decorrentes da democratização da sociedade civil, que ficou mais
complexa e dinâmica.
Trata-se de uma característica muito
acentuada da sociedade civil contemporânea a organização em busca de
soluções, fora da lógica do Estado e do Mercado, para a questão
social cada vez mais aguçada pela política econômica atrelada aos
interesses do capital internacional. Na verdade, estão em curso
transformações estruturais, em nível mundial, que têm determinado a
necessidade de ajustes das entidades sociais de caráter privado que,
historicamente, sempre agiram na perspectiva da filantropia ou da
hegemonia religiosa, sob a tutela estatal, a uma nova conjuntura
econômica, social e política. Nesse novo contexto, a tendência é o
delineamento de organizações autônomas, profissionalizadas e
não-governamentais, onde o caráter técnico do trabalho e os
princípios de administração e gerenciamento ganham relevância.
Isso tem requerido mudanças
profundas na cultura institucional para uma nova compreensão sobre a
forma de relação que deve ser estabelecida entre os atores que
integram o campo de atuação dessas organizações: gestores
governamentais e não-governamentais, trabalhadores da área,
dirigentes e coordenadores de entidades sociais, população usuária
dos programas e serviços, etc.
"A
institucionalização e legitimação social do chamado 'terceiro setor'
surge à medida em que as crescentes demandas pela democratização do
Estado, bem como para o atendimento às necessidades sociais da
população não encontram respostas no Estado. Este vazio de resposta
decorre da reestruturação do capital e da reorganização do mundo
produtivo à medida que impõe ao Estado novos atributos e funções na
sua relação com o mundo econômico, político e social."
(Tumelero, 1999:36)
Nessa reconfiguração das relações Estado e
Sociedade Civil, o Estado vem deixando de ser o executor das
políticas sociais, assumindo o papel de regulamentador, fiscalizador
e fomentador, na proporção em que celebra contratos de gestão com
órgãos ou entidades de iniciativa privada. Portanto, mesmo agindo à
luz de uma política de privatização dos serviços públicos, dentre os
quais situamos as políticas sociais, principalmente nas áreas de
educação, saúde e assistência social, o Estado não pode se furtar ao
seu papel, de absoluta importância, garantido pelo marco legal e
constitucional, conforme já pontuado e ressaltado. O crescimento e
fortalecimento do espaço que se configurou como o terceiro setor da
economia e, dentro deste, das organizações não-governamentais de
interesse público não anula e nem substitui o papel do Estado, com
destaque ao respaldo técnico e financeiro, apoiando e assessorando
essas instituições no processo de mudança, reestruturação e de
implantação de projetos, ações e serviços, de acordo com as demandas
colocadas. Trata-se do estabelecimento de uma nova relação Estado e
sociedade civil, caracterizada não mais como de tutela, mas de
"parceria".
"Embora as
organizações do Terceiro Setor venham assumindo a responsabilidade
de promover políticas sociais de forma autônoma, mobilizando
doadores privados para financiar suas atividades, ressalta-se que o
Estado não pode se furtar de alocar recursos para a realização de
projetos por essas entidades. O Estado possui condições mais
adequadas para alocar recursos de forma racional e equânime uma vez
que detém informações sobre o conjunto da sociedade que permitem, em
princípio, compensar as desigualdades regionais de renda e riqueza,
apontando as prioridades e evitando que estados e municípios, que
possuam menor crescimento econômico e menores investimentos privados
no social, sejam prejudicados.” (FERRAREZI, 1997: 10)
Em decorrência de toda essa
reestruturação histórica e mundial e, portanto, conjuntural e local,
novos paradigmas têm surgido no que se refere ao gerenciamento das
instituições da sociedade civil, sem fins lucrativos, que atuam com
finalidade pública.
1. O Terceiro Setor em Evidência
A concepção de gestão institucional
tem passado por muitas reflexões e estudos recentes e, em se
tratando de instituições da sociedade civil que atuam junto a
políticas sociais setoriais, tem se observado e apreendido que, cada
vez mais há a necessidade de serem gerenciadas de forma técnica e
profissional, com ênfase na participação de todos os envolvidos no
âmbito institucional; trata-se da gestão participativa.
Mas, para abordarmos a gestão dessas
organizações há a necessidade de uma reflexão preliminar sobre o
terceiro setor, tema que contém significativa importância pela sua
atualidade e abrangência. O crescimento acentuado das organizações
que integram o terceiro setor passou a ocupar importante papel na
política econômica de vários países, ganhando expressão no Brasil,
no decorrer dos anos 90. A inter-relação setorial entre Estado,
Mercado e Terceiro Setor entrou em pauta definitivamente e termos
como parceria, voluntariado, filantropia empresarial foram
resgatados como expressões de uma nova forma de relacionamento entre
os três setores da sociedade.
Vários autores têm destacado a
importância do reconhecimento do terceiro setor, que diferencia-se
do primeiro setor (Estado), de finalidade pública, e do segundo
setor (Mercado), de finalidade privada:
"... o ponto
de vista de que a sociedade pode ser organizada a partir de três
setores está se consolidando. Mais do que a adoção de um novo
conceito, isso denota uma nova mentalidade, apoiada no
reconhecimento da importância das iniciativas que surgem
espontaneamente no seio da sociedade civil e de que o 'modelo
dualista’ não é suficiente para oferecer respostas plenas aos
dilemas sociais da atualidade.”
(Silva, 2001, p. 20)
"O Terceiro
Setor no Brasil (...) surge para identificar um conjunto de
iniciativas da sociedade civil organizada que visam atender
interesses públicos (...) estamos diante de um novo arranjo
institucional, determinado por uma nova relação entre sociedade e
estado." (Nascimento,
2000, p. 01)
"... por
terceiro setor entenda-se (...) a sociedade civil que se organiza e
busca soluções próprias para suas necessidades e problemas, fora da
lógica do Estado e do mercado.”
(Rodrigues, 1998, p.31)
"... é o
conjunto de instituições, ONGs, fundações, etc. que, desempenhando
funções públicas, encontram-se fora do Estado, no espaço de
interseção entre este e o mercado, porém sem declarar fins
lucrativos.” (Montanõ,
1999, p.06)
De forma geral, podemos descrever o
terceiro setor por aquele formado por organizações sem fins
lucrativos, incluindo as entidades de defesa de causas específicas,
fundações que investem na área social e instituições diversas que
buscam dar respostas e soluções que o Estado não tem conseguido
resolver. São entidades não governamentais que expressam a sociedade
civil organizada para atendimentos de interesse público em
diferentes áreas e segmentos.
SCHIAVO (2001), citando Jeremy
Rifkin, autor de "O Fim dos Empregos", aponta dados que permitem
dimensionar o Terceiro Setor em alguns países:
"Nos Estados
Unidos, o setor emprega 9% da mão-de-obra e gera 7% do PIB. No Reino
Unido, são mais de 350 mil organizações voluntárias, gerando uma
receita de 17 bilhões de libras esterlinas, o que corresponde a 4%
do PIB inglês. Na França, 6% do emprego total estão no Terceiro
Setor (...) Na América Latina, as ONGs que tratam de questões
relativas às mulheres, crianças e idosos, portadores de
deficiências, portadores de HIV e doentes de AIDS e a usuários de
drogas, para citar apenas os casos mais visíveis, somam milhares de
organizações, milhões de postos de trabalho e giram um capital, que
já ultrapassa um bilhão de dólares.”
Segundo, ainda, reportagem do jornal
Folha de Londrina, de 20 de maio de 2001, esse setor já é
considerado por pesquisadores como a oitava força da economia
mundial, afirmando quanto ao Brasil que,
"Seguindo o
rastro de experiências bem sucedidas nos países desenvolvidos, o
Brasil implantou definitivamente o terceiro setor da economia,
considerado o fenômeno da área no final do século 20. Movido pelas
inúmeras organizações não-governamentais (ONGs) já implantadas,
reflete a busca por soluções de problemas comunitários mundiais, que
em muitos casos não têm sido resolvidos pelo primeiro setor
(governo) e segundo (mercado).”
Esta mesma
reportagem, repetindo dados fornecidos pelo Conselho da Comunidade
Solidária², declara que o terceiro setor no Brasil já conta
“com
aproximadamente 250 mil entidades que empregam 1,5 milhão de
trabalhadores, além de agregar uma massa de 12 milhões de
voluntários que trabalham gratuitamente em ações voltadas para a
promoção social.”
A configuração e o reconhecimento do
chamado terceiro setor tem adquirido expressão a partir de dados
como os acima mencionados. No entanto, ao se tentar uma referência
conceitual deste setor, são encontradas algumas dificuldades
determinadas pela diversidade de organizações que ele abarca, pela
multiplicidade de áreas em que atua e pelos diferentes segmentos
atendidos.
CAMARGO (2001) aponta como os
principais grupos integrantes do terceiro setor, as associações, as
fundações, os sindicatos, as cooperativas, as igrejas e as
organizações não-governamentais.
Todos esses grupos, com linhas
ideológicas, políticas e religiosas específicas, transmitindo de
forma mais ou menos expressiva vinculações com setor estatal ou
setor privado, acabam atuando em questões direta ou indiretamente
relacionadas ao resgate da cidadania e à garantia de direitos
humanos, aviltados pela condição de pobreza, miséria e desinformação
de grande parte da população brasileira.
Atuam a partir de ações que
histórica e tradicionalmente são marcadas pelo caráter
assistencialista e paternalista, como os antigos orfanatos e "casas
de recuperação", geralmente ligados a igrejas e/ou denominações
religiosas até às atuais ONGs que se expandiram nos anos 80 em
defesa dos direitos humanos, do meio ambiente e do desenvolvimento
social.
FERNANDES (1996) afirma que
"... o
Terceiro Setor é composto de organizações sem fins lucrativos,
criadas e mantidas pela ênfase na participação voluntária, num
âmbito não-governamental, dando continuidade a práticas tradicionais
de caridade, da filantropia e do mecenato e expandindo o seu sentido
para outros domínios, graças, sobretudo, à incorporação do conceito
de cidadania e de suas múltiplas manifestações na sociedade civil.”
Portanto, o que se tem claro é que o
espaço delimitado como o do terceiro setor é aquele cuja origem é a
participação de cidadãos que, representando a sociedade civil
organizada, buscam intervir na realidade social, de forma
voluntária, em uma área específica (assistência social, educação,
saúde, meio ambiente, cultura, habitação, trabalho, etc.), com
segmentos definidos (crianças e adolescentes, mulheres, idosos,
índios, famílias, dependentes químicos, portadores de deficiência,
portadores de HIV, dentre outros), no sentido de garantir a esses
condições de desenvolvimento integral, existindo e coexistindo de
forma satisfatória e adequada à condição humana. Por isso,
inserem-se na esfera pública não governamental, mantendo sua
autonomia administrativa em relação ao poder estatal, embora muitas
dessas organizações mantenham com este, vínculos por força de
convênios e parcerias.
LANDIN (1993) relata que a maior
parte das organizações sem fins lucrativos no Brasil é composta por
associações (77%). São associações beneficentes e
assistenciais, recreativas e esportivas, culturais, científicas e
educacionais.
Dentre estas, destacam-se entidades
assistenciais e educacionais organizadas, administradas e mantidas
por clube de serviços, igrejas, outras confissões religiosas e
filosóficas, e associações de voluntários, traduzindo-se em creches,
centros de atendimentos a dependentes químicos, instituições de
apoio sócio-educativo, de ensino profissionalizante, asilos, etc.,
que possuem uma área de abrangência mais localizada, municipal ou
regional. Também, não podem ser ignoradas as ações pontuais,
realizadas por igrejas de diferentes confissões, centros espíritas,
escolas, grupo de jovens, clube de serviços, etc., tais como,
distribuição de alimentos (cestas básicas, sopas, leite),
distribuição de agasalhos, primeiros socorros, dentre outras ações,
que não estão institucionalizadas formalmente, mas que ocorrem
durante o ano todo ou em épocas específicas (de inverno, seca,
enchentes, etc.) constituindo-se de vital importância para
diferentes segmentos da população e movimentando um número
significativo de voluntários e recursos financeiros, captados,
gerenciados e distribuídos por iniciativa de pessoas e organizações
da sociedade civil.
Por outro lado,
existem também aquelas instituições de caráter não-governamental que
ganharam expressão nacional pelo volume de pessoas beneficiadas,
número de voluntários envolvidos e recursos financeiros captados e
aplicados. Um exemplo a ser destacado é a Associação de Pais e
Amigos dos Excepcionais - APAE - com 46 anos de existência,
possuindo um orçamento anual de 200 milhões de reais, aglutinando
21.400 voluntários e beneficiando 200 mil pessoas. Também, a
Associação de Assistência à Criança Deficiente - AACD - pode ser
citada pelos seus 51 anos de existência, 42,5 milhões de reais de
orçamento anual, 1.200 voluntários e 4.000 crianças atendidas.³
De vinculação
religiosa, com expressão nacional, também despontam organizações
como a Pastoral da Criança que beneficia 1,5 milhões de pessoas, com
um orçamento anual de 17,2 milhões de reais, contando com 150 mil
voluntários. Também podem ser citados, o Fundo Cristão para Crianças
e a Visão Mundial. A primeira tem 35 anos de existência, atinge 80
mil beneficiados, conta com 4.000 voluntários, com um orçamento de
26,3 milhões de reais. A segunda tem 26 anos de funcionamento,
alcança 57 mil pessoas, com 70 voluntários e um orçamento anual de
20 milhões de reais.
Dentro do âmbito
das fundações, a Fundação Bradesco e a Fundação Ayrton Senna
são lembradas pela sua atuação na área social e educacional. A
Fundação Bradesco, com mais de 40 anos de existência, atua na área
da educação, abarcando a Educação Infantil, o Ensino Fundamental,
Médio, Médio Profissionalizante, a Educação de Jovens e Adultos e
Educação Profissionalizante Básica. Durante o ano de 2001 investiu
112 milhões de reais, abrangendo 102.762 alunos.
O Instituto Ayrton Senna investe suas ações também na área da
educação beneficiando 180 mil crianças e jovens por ano, com um
investimento anual de 18.517 milhões de reais .
Assim, dentro do espaço do terceiro
setor situam-se desde as organizações mais simples, com atuações
localizadas, até aquelas que ganharam expressão no âmbito nacional
e, inclusive, internacional. Esse fato tem dificultado aos
estudiosos e pesquisadores do assunto um consenso quanto à
conceituação do que vem a ser o terceiro setor, estando essa
definição em processo de construção à medida que as pesquisas e
discussões se aprofundam. O que já podem ser apontadas são algumas
características e alguns desafios postos para o fortalecimento do
terceiro setor.
SALAMON e ANHEIER (1997), citado por
SILVA (2001), dentre outros autores, apontam cinco características
principais que identificam o terceiro setor:
"Organizadas:
institucionalizadas em algum grau; Privadas: institucionalmente
separadas do governo; Não distribuidora de lucros: não retornam
quaisquer ganhos gerados a seus 'proprietários’ ou diretores;
Autogovernadas: aptas a controlar a suas próprias atividades e
Voluntárias: envolvendo um grau significativo de participação
voluntária". (p. 22)
(grifo nosso).
Esse setor comporta um número
variado de organizações que atuam enquanto associações, fundações,
sindicatos, cooperativas, ONGs, etc., e foram instituídas em
diferentes momentos históricos de nossa sociedade, trabalhando com
segmentos diversificados e atendendo a novas demandas, como a AIDS e
a camada de ozônio, por exemplo. A abrangência de suas ações vai
desde o assistencialismo praticado por grupos religiosos e não
religiosos, até pesquisas científicas financiadas por empresas ou
instituições privadas, que buscam respostas para as grandes questões
sociais, educacionais, ecológicas, dentre outras. Certamente a forma
de gerenciamento dessas organizações comporta perspectivas e visão
de mundo de acordo com a base política, ideológica e religiosa que
as sustentam institucionalmente.
Considerando a sua dimensão, é fato
que o terceiro setor não é um apêndice da sociedade. Tem ocupado e
desempenhado um papel de vital importância na dinâmica de uma
sociedade, cujos cidadãos estão mais consciente e convictos de seus
direitos, mas sobretudo da importância de sua participação no
processo de transformação de realidades que não apenas oprimem,
massificam, mas também podem destruir o ser humano.
Em decorrência desse conjunto imenso
e até mesmo informal de organizações da sociedade civil que atuam em
áreas e segmentos que as caracterizam de finalidade pública,
configurou-se a esfera pública não estatal. Isto é,
organizações não estatais podem ter caráter público superando-se a
idéia de que o público é monopólio do Estado.
A emersão desta esfera pública não
estatal, dentro do contexto conjuntural e histórico em que se
instituiu e se fortaleceu o terceiro setor, determinou não só a
necessidade de uma revisão na forma de gerenciamento dessas
instituições, principalmente as de caráter
assistencial/filantrópico, como também a reforma do marco legal que
regula as relações entre os órgãos estatais e as organizações da
sociedade civil que atuam com interesse público, ou seja, entre o
Estado e a Sociedade Civil, ou ainda em outras palavras, entre a
esfera pública estatal e a esfera pública não-estatal.
O Estado, reconhecendo não somente o
crescimento do terceiro setor e o volume de recursos humanos e
financeiros que este movimenta, mas inclusive, percebendo a
importância estratégica de regulamentação das ações institucionais
do terceiro setor, promulgou, em 23 de março de 1999, a Lei Federal
9.790. Esta dispõe sobre a qualificação de pessoas jurídicas de
direito privado, sem fins lucrativos, como organizações da sociedade
civil de interesse público.
Com base nessa Lei, organizações do terceiro
setor podem ser qualificadas como "Organizações da Sociedade
Civil de Interesse Público" (OSCIP), desde que "... os
respectivos objetivos sociais e normas estatutárias atendam aos
requisitos instituídos por esta Lei” (art.1º).
As instituições não governamentais
têm sido obrigadas a repensar suas práticas e a sua inserção no
contexto social, buscando novas formas de enfrentamento aos desafios
impostos pelo retorno à política de não intervenção estatal, e do
incentivo à privatização dos serviços públicos. Ser ágil na captação
de recursos e ter propostas claras e eficientes de trabalho são
condições atuais básicas para essas instituições continuarem
existindo e prestando serviços de qualidade e com competência.
Por comportar uma diversidade de
organizações e uma multiplicidade de ações e por constituir-se em
uma expressão ainda pouco utilizada no Brasil, o terceiro setor
enfrenta alguns desafios, dentre os quais destacamos a necessidade
de maior divulgação sobre o que ele é, como é formado, como se
expressa no panorama nacional e na execução de ações de interesse
público, sua vinculação com o Estado e com o setor Privado, etc.
Também são desafios, buscar recursos financeiros mais estáveis para
a sua sustentabilidade e incentivar, mobilizar e criar condições
para maior participação de voluntários, tanto na manutenção
financeira das organizações que o compõem, como no gerenciamento das
mesmas e também na execução das atividades junto à população
beneficiária. Mas, principalmente, consideramos como um dos maiores
desafios colocados hoje ao terceiro setor, a melhoria da qualidade e
eficiência da gestão de organizações e programas sociais, onde
necessariamente está incluída a gestão de recursos humanos e,
conseqüentemente, o desenvolvimento de competências.
E é esse recorte que nos interessa
fazer, a partir desse breve resgate do processo de instauração e
fortalecimento do terceiro setor, sempre considerando a conjuntura
política e econômica que não só favoreceu esse fato como se utilizou
dele à medida que interessava à execução do projeto neoliberal de
privatização, publicização e terceirização também das políticas
sociais.
2. O Terceiro Setor e a Gestão de
Pessoas
KLIKSBERG (1997:100) afirma que o
contexto contemporâneo de atuação da gerência institucional é
absolutamente diferente em face das décadas anteriores. A
predominância é, cada vez mais, da complexidade, da instabilidade e
da incerteza.
Nesse momento histórico de profundas
mudanças sociais, econômicas e políticas configuradas mundialmente,
a gestão social ganha importância relevante em todos os setores, mas
de forma significativa no contexto das instituições que atuam no
terceiro setor.
Voluntariado forte, organizado e
participativo, trabalho administrativo e técnico articulados e
definidos com clareza, planejamento estratégico, gestão
participativa, transparência nas decisões, desenvolvimento de ações
e programas de real interesse da população, etc. são temas e
questões que podem ser apontados como prioritários na pauta de
trabalho das organizações da sociedade civil que atuam sem fins
lucrativos e com interesse público. Mas a gerência de recursos
humanos tem adquirido destaque como área prioritária de atenção, em
função da necessidade cada vez maior dessas organizações atuarem com
competência, com eficácia e com eficiência.
Nessa perspectiva, o processo de
desenvolvimento de competências dos recursos humanos
tem se constituído como um dos principais desafios a serem
enfrentados pelas organizações do terceiro setor. Trata-se do
alcance de uma das metas em direção à superação dos obstáculos que
têm impedido o funcionamento institucional de acordo com as novas
demandas da realidade. No cotidiano institucional, as pessoas
envolvidas no desenvolvimento de atividades e serviços têm um papel
fundamental. Espera-se que sejam pessoas preparadas e capacitadas
para as funções.
Como exemplo, lembramos que,
segundo a LDB/96, admite-se como formação mínima para atuar na
educação infantil (creche e pré-escola) a formação oferecida em
nível médio, na modalidade Normal (art. 62). Mas, com
freqüência, essas instituições, que atuam na esfera da assistência
social, funcionam mais de oito horas diárias, com um número de
crianças além das vagas existentes, devido à grande demanda, com um
quadro de pessoal nem sempre habilitado adequadamente e nem com
número suficiente para o atendimento infantil. O indicado seria um
quadro de pessoal diversificado quanto a competências e habilidades,
suficiente quanto ao número e bem selecionado quanto às
características psicológicas e de saúde para desempenhar com
eficiência as diferentes atividades previstas pelo programa
institucional.
Ser um profissional que atua
diretamente em instituições do terceiro setor, em muitos casos,
ainda não é uma profissão regulamentada, e nem nome definido ainda
tem. Voltando ao exemplo da educação infantil ou mesmo em serviços
de apoio a adolescentes, idosos, etc., observamos que, em sua quase
totalidade, a maioria são mulheres, que em diferentes locais são
denominadas de diferentes formas: educadoras, monitoras, atendentes,
"tias", etc.
Historicamente, tem se constatado
que, vários modelos de instituições sem fins lucrativos implantados
no Brasil partiram do princípio que para diminuir custos devia-se
empregar mão-de-obra barata, com pequena qualificação. Desta forma,
a qualidade do trabalho apresentado por estes equipamentos ficou,
não raras vezes, muito comprometida.
Portanto, se faz de fundamental
importância que, no contexto institucional, existam trabalhos
especificamente voltados para os recursos humanos, preparando-os não
apenas para o desempenho de suas atividades cotidianas, mas também
para o alcance de desempenhos que exijam maior complexidade.
Investir em desenvolvimento de competências é um dos desafios que
tem se configurado no seio do terceiro setor para aquelas
instituições preocupadas em acompanhar a dinâmica da realidade
social cada vez mais complexa.
“Gerenciar não é dirigir para
determinados objetivos, mas criar condições para que os recursos
humanos da organização respondam - individualmente e com
criatividade - a um meio que requer permanente adaptação.”
(Klikisberg 1997:93)
Percebe-se então a necessidade da
formação qualificada daqueles que vão atuar na esfera do terceiro
setor, considerando-se principalmente o redesenho do ambiente
externo das organizações e, necessariamente do ambiente interno,
determinado por novas demandas e por uma nova visão do significado
do trabalho sem fins lucrativos de finalidade pública.
Um dos fatores determinantes dessa
qualificação é que o profissional trabalhe nessa área não apenas
pela necessidade de uma atividade remunerada, mas também por opção
pessoal e profissional, pois atuar em instituições do denominado
terceiro setor, atualmente, tem implicado em ser especialmente
treinado para tal. A falta de cursos e especializações para esses
profissionais acarreta, por sua vez, um mal entendido quanto às
diferentes competências dos que trabalham nas diferentes
organizações que integram esse setor.
"Uma das grandes forças de uma
organização sem fins lucrativos é que as pessoas não trabalham nela
para viver, mas por uma causa (nem todas, mas muitas). Isto também
cria uma tremenda responsabilidade para a instituição: a de manter a
chama viva e não permitir que o trabalho se transforme em apenas um
'emprego’.” (Drucker,
1999:110)
Embora esse autor esteja
referindo-se mais especificamente ao trabalho do voluntariado, essa
afirmação nos leva a refletir sobre a importância da motivação
constante do quadro de recursos humanos, em todos os níveis e
setores de uma organização do terceiro setor, para que aquele
emprego remunerado não signifique apenas o ganho salarial obtido a
cada mês. Mas que, somado a isso, haja um verdadeiro e autêntico
envolvimento com a missão institucional.
São pessoas, singulares e únicas,
portadoras de necessidades pessoais e funcionais, que devem ser
consideradas em função do desempenho adequado nos programas e
serviços institucionais. O desenvolvimento de competências, a
capacitação continuada, o relacionamento interpessoal e o
atendimento específico a necessidades individuais são focos
importantes a serem trabalhados no âmbito dos recursos humanos da
instituição.
Percebe-se com facilidade que as
pessoas que exercem atividade remunerada nessas instituições apontam
como fatores desmotivadores ao trabalho, o desconhecimento do cargo,
a falta de habilidades necessárias, a falta de feedback positivo, o
excesso de rivalidade entre colegas, o estabelecimento de metas
impossíveis, conflitos com os chefes. E como fatores motivadores, a
segurança no trabalho, os desafios, as oportunidades de criação, de
realização profissional, de crescimento e desenvolvimento pessoal e
o contato com a população usuária dos serviços institucionais.
A questão salarial aparece como
fator preocupante para os diretores e para os funcionários. Por um
lado, é muito difícil para o grupo dirigente da instituição manter
um quadro de pessoal treinado e preparado, com baixos salários. Por
outro lado, os salários estão sempre aquém do nível de satisfação
dos funcionários e, estes, não raras vezes, quando encontram melhor
oferta de salário no mercado de trabalho, deixam a instituição. Esta
necessita, então, começar novamente todo um ciclo de treinamento com
um novo contratado. Como são instituições sem fins lucrativos,
sobrevivem com doações, campanhas, eventos e verbas públicas (quando
têm convênios). Essa condição dificulta muito para a instituição
manter funcionários treinados e capacitados em seu quadro de
pessoal, pois isso implica maiores salários e, por conseguinte, mais
encargos sociais.
Como desenvolver metas de
desenvolvimento de competências, primordial hoje no âmbito do
terceiro setor, diante das condições financeiras institucionais
sempre precárias, muitas delas sobrevivendo com escassas verbas?
Essa realidade as tem levado prioritariamente ao exercício de
projetos e atividades voltadas para a captação de recursos
financeiros. Porém,
"...
atualmente, o primeiro passo para o sucesso e a sustentabilidade de
uma organização sem fins lucrativos é a formação do quadro
profissional, mesmo que isso represente um projeto. Depois, a
excelência na captação. Acredito que apenas as organizações capazes
de estruturar-se desta maneira - selecionando critérios bem
definidos, remunerando adequadamente e investindo em seus quadros -
irão atrair potenciais doadores, pois todos eles farão questão de
trabalhar com organizações transparentes que apresentem resultados
esperados conforme o determinado no projeto inicial, destacando-se
assim, pela competência na execução.”
(Campos, 2002:03)
Um fato é concreto: há necessidade
premente das instituições investirem em seus recursos humanos, se
almejarem um trabalho de qualidade e impacto social, na direção do
cumprimento de sua missão e da transformação concreta e efetiva do
ambiente (interno e externo) em que atuam.
A rotatividade custa muito alto para
a instituição, principalmente quando é desenvolvido todo um trabalho
de capacitação profissional. Faz-se necessária a combinação de
estratégias para a obtenção de resultados ideais
Por sua vez, não podemos ignorar que
no contexto do terceiro setor o voluntariado ocupa papel de
importância fundamental, compondo também o quadro de recursos
humanos, sem, no entanto, ser assalariado.
Em diferentes literaturas sobre
organizações não governamentais, a presença do voluntariado aparece
como um dos requisitos essenciais para que sejam classificadas como
de terceiro setor. A partir, portanto, da amplitude que as
organizações não governamentais têm assumido na atual conjuntura,
surge, com muita força, o resgate do papel e das funções do
voluntariado, procurando-se definir qual o perfil de voluntário que
essa nova realidade demanda.
Mas o que é necessário ressaltar
nesse momento, quase que como um resgate histórico, é que se as
instituições não governamentais chegaram até aqui, surgiram e têm
atravessado dezenas de anos desenvolvendo projetos, serviços e ações
junto a diferentes segmentos, que em diferentes momentos sofreram o
processo de exclusão social de diferentes formas, é porque o
trabalho do voluntariado esteve sempre fortemente presente nessas
instituições.
O voluntariado tem atuado nessas
instituições em duas grandes frentes de trabalho: através da
prestação de serviços diretos aos usuários e/ou compondo o corpo
diretivo das mesmas. No primeiro caso, atua exercendo alguma aptidão
profissional ou pessoal, colocando à disposição da instituição e dos
usuários seus conhecimentos e suas habilidades. No segundo caso, são
diretores e gestores que compõem o grupo que dá sustentação
administrativa e financeira ao trabalho institucional. Realizam
ações que, basicamente, estão voltadas para a manutenção e
sobrevivência das instituições. Decidem as grandes questões em
assembléias e reuniões, discutem e modificam estatutos e regimentos,
que incidem diretamente na atuação cotidiana da instituição.
Portanto, o voluntariado já vem
dando a sua contribuição significativa no âmbito das políticas
sociais. O que tem mudado nesse novo contexto conjuntural é a forma
de exercer e de compreender a ação voluntária. Percebemos que muitos
ainda não têm clareza das mudanças conjunturais e determinantes de
um novo perfil de voluntário. Defendemos a idéia de que ele
necessita ser treinado e preparado para o exercício do voluntariado,
frente às peculiaridades da atual conjuntura social, econômica e
política, seja em qual frente for o trabalho a ser desenvolvido. Da
mesma forma que ao funcionário que atua nessas instituições deve ser
proporcionado espaços de capacitação e atualização, o voluntário
também necessita ser alvo de processos de desenvolvimento de
competências.
Conclusão
Essas são algumas reflexões,
relacionadas à gestão de pessoas, que, sem dúvida, ocupam espaço nas
instituições de terceiro setor, principalmente aquelas atuantes na
esfera da assistência social. Atributos como responsabilidade,
compromisso, dedicação e envolvimento sincero com o trabalho
institucional e com os seus usuários, integram o perfil das pessoas,
voluntárias ou contratadas, que compõem os recursos humanos dessas
organizações. Porém, para um trabalho qualitativamente diferenciado
há de se pensar e de se construir ferramentas de gestão que
facilitem ao terceiro setor o desenvolvimento de competências
envolvendo não apenas a melhoria do desempenho em termos de
conhecimento, habilidades e atitudes para que a pessoa desenvolva
suas atribuições e responsabilidades (Dutra, 2001:28); mas
também, de capacidade em assumir e executar atribuições e
responsabilidades de maior complexidade, ocorrendo uma íntima
relação entre o desenvolvimento das competências individuais e as
competências organizacionais.
Consideramos que, nessa perspectiva
e de acordo com as exigências da atual conjuntura, devem integrar o
perfil das pessoas que atuam em instituições do terceiro setor com
enfoque na esfera da assistência social, também os seguintes
desafios: 1º) Conhecer e saber utilizar-se da legislação atual que
enfoca o trabalho na área das políticas sociais, dentre elas a da
Assistência Social, Saúde e Educação. 2º) Ter clareza da conjuntura
em que essas leis foram gestadas e implantadas, e do contexto
social, econômico e político em que estão inseridas as instituições,
os usuários e todos os sujeitos envolvidos. 3º) Ter uma participação
ativa nas instâncias legais que atuam junto aos segmentos com os
quais trabalham. 4º) Saber estabelecer articulação e parcerias com
as demais instituições da sociedade civil, através de associações,
fóruns, núcleos, grupos, etc. 5º) Ter clareza de suas concepções
sobre quem é o usuário com quem trabalham, qual a visão que têm
destes, e quais os princípios e diretrizes ideológicas, políticas e
religiosas que norteiam o trabalho institucional.
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