Pequenos Eventos para Captação de Recursos
Andrea Goldschmidt*
Grande
parte das organizações do terceiro setor surgiu da iniciativa de
uma pessoa ou de um grupo de pessoas que acreditavam em uma causa
e começaram a lutar por ela.
Seja
beneficiando pessoas ou trabalhando no sentido de preservar o meio
ambiente, as organizações do terceiro setor têm um papel muito
importante para o desenvolvimento da sociedade como um todo.
Como há uma
grande demanda por todos os tipos de serviços de educação, saúde e
assistência social, é normal que as instituições passem, logo após a
sua constituição, por um período de rápido crescimento.
Este
crescimento (ampliação do atendimento ou do número de serviços
prestados) está sempre acompanhado de um aumento de despesas -
derivado da necessidade de mais funcionários e voluntários, de mais
material de consumo e de controles gerenciais e administrativos mais
complexos.
É claro que
boa parte das organizações brasileiras conseguiu crescer de forma
estruturada, desenvolvendo sistemas eficientes de captação de recursos
e garantindo a sustentabilidade de suas atividades, mas, o que
observamos em muitos casos, é que as organizações lutam dia-a-dia por
sua sobrevivência, fazendo verdadeiros milagres para se manterem
funcionando.
O ideal seria
que os gestores das organizações pudessem pensar sobre o crescimento
do seu negócio de forma estruturada, que desenvolvessem um
planejamento estratégico para a organização e um plano de captação de
recursos que os ajudasse a sair desta situação de dificuldade
financeira permanente.
Mas se há
falta de recursos humanos e falta de recursos financeiros, como bem
sabemos, como o gestor da organização poderá se dedicar a estas
atividades que, além de tomarem bastante tempo, não trazem resultados
de curtíssimo prazo? Como colocar em prática as idéias de planejamento
para captação de recursos, sem saber de onde tirar o dinheiro para
pagar os funcionários na semana que vem? Como fazer um planejamento
estratégico, sem saber se a organização terá condição de manter as
atividades até o final do ano?
Aparentemente,
o problema da maior parte das organizações brasileiras é de curtíssimo
prazo, o que dificulta muito a implantação da gestão baseada em planos
estratégicos de prazo mais longo.
Esta
dificuldade não invalida de forma alguma o planejamento estratégico,
muito pelo contrário, demonstra o quanto este planejamento é
importante para a continuidade do trabalho desenvolvido e para que a
administração possa ser conduzida com mais tranqüilidade, mas deixa
claro que existe a necessidade de pensar em medidas emergenciais que
ajudem as ONGs a buscarem alternativas de fontes de financiamento de
curto prazo para que seus administradores possam começar a se dedicar
ao planejamento de forma mais estruturada.
Esta atividade
irá ajudar os gestores a escaparem do círculo vicioso da falta de
recursos que acontece da seguinte maneira:
-
A falta de
recursos financeiros para as despesas de manutenção das atividades
leva, normalmente, à diminuição da estrutura gerencial (já que os
recursos devem ser prioritariamente destinados às atividades fim).
-
A falta de
gerenciamento das atividades dificulta a tomada de decisões e o bom
andamento do trabalho realizado e,
-
Normalmente,
leva a uma dificuldade relacionada às atividades de prestação de
contas aos parceiros e ao marketing da instituição.
-
A falta de
exposição e visibilidade dificulta a manutenção das parcerias atuais e
a formação de novas parcerias.
-
A falta de
parceiros realimenta o problema da falta de recursos.

A
profissionalização do terceiro setor é, evidentemente, um processo sem
volta. As técnicas mais modernas de administração (utilizadas pelas
empresas privadas) precisam ser incorporadas por estas instituições, a
fim de tornar o seu trabalho cada vez mais produtivo e atender às
demandas dos parceiros financiadores.
A equação que
precisamos resolver aqui é como conseguir manter uma estrutura
administrativa condizente com as necessidades da organização, mesmo
quando nossos principais parceiros preferem direcionar suas doações
para as atividades fim, não concordando em destinar recursos para as
atividades administrativas da ONG parceira.
Garantir receitas para a
sustentação da administração não é uma tarefa tão difícil. O
importante é que a organização saiba onde quer chegar e consiga
mobilizar pessoas para ajudarem neste processo.
Os eventos, assim como as pequenas
doações de pessoas físicas, têm esta importante característica. São o
que convencionamos chamar de “dinheiro não carimbado”, isto é, quem
doa estes recursos (por exemplo através da compra de convites para uma
festa beneficente), não irá determinar como ele deve ser gasto. Desta
forma, os administradores da organização podem direcionar estes
recursos para a sustentação das despesas administrativas, resolvendo,
desta maneira, o dilema apresentado acima.
Organizar eventos, no entanto, não
é uma tarefa fácil. Existem algumas características importante que
devem ser observadas para que o evento seja bem sucedido:
-
Pense na
capacidade de sua organização – é melhor começar organizando eventos
pequenos, mesmo que eles não rendam muito dinheiro. A experiência que
a organização vai adquirindo é muito importante para que futuros
eventos (maiores) sejam bem sucedidos. Se a sua organização tem uma
estrutura boa, conta com a participação de voluntários, é possível
pensar, desde o início, em eventos de maior complexidade operacional.
-
Planeje - O
evento deve ser planejado com antecedência e de forma completa. O
instrumento básico para gerenciamento de um evento deve ser o
cronograma de ações. Nele estarão todas as informações referentes ao
evento: quais as atividades necessárias, quem são os responsáveis por
cada uma delas, em que ordem devem ocorrer, quais os prazos para cada
etapa, etc.
-
Elabore um
plano - nunca pressuponha nada, esteja atento a cada detalhe. Tente
pensar nas possíveis contingências e em como as dificuldades serão
contornadas quando ocorrerem, a fim de evitar que seja despendido um
grande esforço na organização e o resultado do evento não seja
satisfatório.
-
Desenvolva um
plano de comunicação – um dos resultados paralelos mais importantes de
um evento é a publicidade. Além do retorno financeiro que o evento
pode ter, ele pode ser uma ferramenta muito útil na divulgação das
atividades da sua organização, pode ajudar a trazer novos parceiros e
a aproximar pessoas que, posteriormente, poderão trabalhar como
voluntárias, ou ajudar no desenvolvimento das atividades de diversas
maneiras. Todo evento pode ser visto sob 3 aspectos: a arrecadação de
fundos, a divulgação da organização e a aproximação de pessoas chave
para trabalhos futuros.
-
Selecione as
pessoas chave – uma das etapas mais importantes na organização de um
evento é a mobilização das pessoas (funcionários ou voluntários) que
estarão envolvidos na execução das atividades necessárias à
implantação do evento. Em primeiro lugar é preciso selecionar pessoas
que tenham capacidade e disponibilidade para assumir as tarefas que
lhes serão designadas.
-
Mantenha todos
os participantes bem informados – como todo trabalho em grupo, é
fundamental que todos os participantes estejam informados do andamento
das atividades. Reuniões periódicas de acompanhamento do cronograma
ajudam a manter o grupo unido e bem informado sobre as necessidades
que forem surgindo. É importante que estas pessoas estejam envolvidas
e comprometidas com as atividades que lhes foram designadas, a fim de
que o cronograma seja cumprido e que o evento seja realizado conforme
o planejado. Normalmente são muitas as atividades necessárias à
organização de um evento e elas, provavelmente, estão encadeadas em
uma seqüência. Isso significa que se uma pessoa envolvida em uma etapa
da organização do evento não cumprir suas tarefas no prazo
especificado, ela poderá comprometer toda a organização do evento ou,
no mínimo, dificultar o trabalho das outras pessoas envolvidas. Como
em todo trabalho em equipe, é fundamental que as pessoas chave sejam
selecionadas com rigor e estejam envolvidas e comprometidas com suas
tarefas.
-
Elabore um
orçamento – é fundamental saber de antemão quais os custos envolvidos
na elaboração do evento e qual o retorno que se espera ter com a sua
realização. Mesmo que o evento tenha como objetivo captar recursos
para a organização, é muito provável que seja necessário fazer algum
investimento para a sua implantação. Por exemplo: uma organização que
esteja planejando um almoço beneficente precisará comprar os
alimentos, alugar instalações, etc. É claro que este dinheiro será
reposto no caixa da organização com a venda dos convites (e ainda
haverá um lucro), mas é possível que seja necessário investir
antecipadamente em alguns itens e é importante que isso seja previsto
no fluxo de caixa da organização.
-
Controle sua
arrecadação financeira – monte uma planilha de controle de gastos e
receitas. Conforme o tipo de evento organizado, é possível que existam
várias fontes de entrada de dinheiro (venda de convites, venda de
alimentos e bebidas durante o evento, patrocínios de atividades,
etc.). É importante controlar todas estas “fontes”, não apenas para
evitar desvios de dinheiro, mas também para que se possa analisar, no
futuro, quais foram as fontes de recursos mais eficientes e,
conseqüentemente, planejar melhor os resultados das próximas edições
do evento.
-
Agradeça todos
os voluntários e funcionários envolvidos – é sempre muito simpático
receber agradecimentos por um trabalho desenvolvido. Seus funcionários
e voluntários certamente se sentirão muito valorizados ao receberem
uma carta de agradecimento ou ao serem reconhecidos por sua
colaboração ao longo do próprio evento. Se você tem planos de repetir
a experiência no futuro, é importante que todas as pessoas envolvidas
sintam-se reconhecidas e motivadas. Isso pode aumentar as chances de
sucesso dos próximos eventos organizados.
Organizar
eventos é uma atividade bastante trabalhosa, mas os resultados podem
ser muito positivos. Uma organização que consiga montar um cronograma
anual de eventos (com 4 ou 5 eventos sendo realizados ao longo do ano)
provavelmente conseguirá arrecadar os recursos necessários para a
manutenção de sua estrutura administrativa.
À medida que a
organização vai colocando estas ações em prática, seus gestores têm
mais tempo para se dedicar ao planejamento estratégico e à captação de
recursos. Principalmente, à busca de parcerias que irão formar a “base
de sustentação” do seu projeto social, rompendo o ciclo vicioso de
falta de recursos que citamos acima.
É claro que
este é um processo um pouco demorado, que precisa ser realimentado
continuamente e que envolve a necessidade de participação de um grande
número de colaboradores, mas os eventos devem ser vistos pelas
organizações como uma forma razoavelmente simples de captar recursos
suficientes para que os gestores possam parar de se preocupar tanto
com as contas que estão vencendo e começar a pensar no desenvolvimento
de sua organização de forma mais estratégica.
* Andrea Goldschmidt é administradora de empresas pela EAESP- FGV
e atua como captadora de recursos desde 1999. Também é professora
de Marketing e Captação de Recursos na ESPM e na FACAMP e
colaboradora do Centro de Estudos do Terceiro Setor (CETS) da
Fundação Getúlio Vargas. Trabalha como consultora na APOENA
Empreendimentos Sociais (www.apoenasocial.com.br)
auxiliando empresas na implantação de programas de
responsabilidade social junto à comunidade.
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