Adolescentes e Liberdade Assistida
Márcia
Cunha
Fortalecendo a tendência de pensar, planejar
ou executar ações sociais reconhecendo a importância
daqueles que serão seus beneficiários, o Unicef,
em sua sede paulistana, acaba de realizar a pesquisa A Liberdade
Assistida e os Sentidos da Lei, que registra as opiniões
e percepções acerca dessa medida socioeducativa,
por adolescentes que estão passando por ela.
O Estatuto da Criança e do Adolescente, legislação
que versa sobre as questões da infância com base
na doutrina da proteção integral, determina que,
em casos de adolescentes autores de ato infracional, aplique-se
não uma pena, mas uma medida socioeducativa, substituição
que vai além da forma e privilegia a reinserção
desses adolescentes por meio do oferecimento de caminhos traçados
em conjunto com eles, sua família e sua comunidade. Entre
as medidas socioeducativas - que vão da privação
de liberdade, em situações mais graves, até a
prestação de serviços à comunidade
ou reparação do dano causado - está a Liberdade
Assistida, que é o acompanhamento do adolescente durante
um período estabelecido por um juiz da Vara Especial da
Infância e Adolescência. Durante os meses de vigência
da medida, profissionais e instituições competentes
unem-se para, numa rede de serviços e apoio, auxiliá-los
na construção de novos projetos e formas de realizá-los.
A pesquisa, coordenada
por Nilton Ota, como consultoria para o Unicef, teve como objetivo
saber o que os adolescentes que
estão passando pela experiência da Liberdade Assistida
pensam sobre ela, o que gostariam que fosse diferente, o que
consideram importante, quais suas expectativas. Adolescentes
das zonas leste, sul e norte de São Paulo, sessenta ao
todo, responderam a questionários e participaram de grupos
focais em que debateram temas ligados a expectativas, educação,
família, trabalho, circuito socioeducativo, direitos e
participação. O relatório, além de
deter-se longamente nas formas de subjetivação
da Liberdade Assistida e das importantes ponderações
metodológicas acerca da relação entre entrevistadores
e entrevistados (o que o faz interessante não só para
os envolvidos no tema da infância e da adolescência
especificamente), mostra que a família é central
na vida dos adolescentes. 33,3% dos entrevistados citaram a família
como o lugar em que as regras são mais efetivamente respeitadas
e 98,3% citaram-na como a principal instituição
que garante seus direitos e seu bem-estar. Esses dados aproximam-se
dos resultados da pesquisa Voz dos Adolescentes, realizada pelo
Unicef em âmbito nacional, em que 95% dos entrevistados
citaram a família como a instituição social
de maior importância. No que diz respeito às expectativas,
86,7% dos adolescentes acreditam que no futuro estarão
fazendo algo de que gostam e, quando requisitados a dizer a primeira
coisa que lhes vinha à cabeça quando pensavam no
seu futuro, 29% deram respostas ligadas a trabalho, 28% à família
e 17% à posse de bens materiais.
Apesar das privações materiais de que são
vítimas, e que costuma ser a principal característica
pela qual esses adolescentes são vistos, a menção
ao acesso à rede de serviços foi preterida por
outras relacionadas a laços familiares e comunitários,
também quando se referiram ao que acreditam ser a principal
função da Liberdade Assistida. 85% deles afirmaram
que o papel dela é ajudar os adolescentes a pensarem em
suas atitudes e para 78,3% é ensinar coisas importantes
para a vida. Do ponto de vista dos impactos da medida em suas
vidas, 53,3% consideraram seu ponto forte no auxílio ao
convívio familiar.
Outros
dados quantitativos e a presença de falas transcritas
das discussões com os adolescentes apontam desafios e
registram percepções dos adolescentes, que podem
orientar o sentido dos esforços a serem empregados. Montam
um cenário em que a Liberdade Assistida assume grande
importância não só no que diz respeito ao
tratamento dispensado a adolescentes em conflito com a lei, mas
também à construção de uma realidade
melhor para todos.