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Pesquisa revela grandes disparidades entre o desenvolvimento humano de brancos e negros/pardos.
Em entrevista concedida à Revista IntegrAção, o professor Marcelo Paixão ressalta a importância da atuação das Organizações da Sociedade Civil na luta contra a exclusão social das populações negra e parda

Pesquisa desenvolvida pelo professor de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marcelo Paixão, comprovou a existência de duas realidades bem distintas no tocante à qualidade de vida e desenvolvimento humano das populações branca e negra/parda.

Trata-se de projeto pioneiro, que vem sendo implantado desde 1996, seguindo basicamente a mesma metodologia usada pelo PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento na elaboração do chamado IDH - Índice de Desenvolvimento Humano, indicador adotado pelas Nações Unidas a partir dos anos 90 e que tenta medir as condições de desenvolvimento e promoção humanas nos países. No caso da pesquisa brasileira, foram usados dados relativos a educação, expectativa de vida e rendimento per capita referentes ao ano de 1999.

Enquanto o índice de desenvolvimento dos brancos se assemelha a países como os Emirados Árabes e Croácia (que ocupam respectivamente a 45ª e a 46ª posição no ranking da ONU), o índice das populações negra e parda se compara ao de países como a Argélia e o Vietnã (100ª e 101ª posições, respectivamente). O Brasil, por sua vez, ocupa a 69ª posição. Semelhante pesquisa, levando em consideração as diferenças entre negros e brancos, já havia sido realizada nos Estados Unidos (1993) e na África do Sul (1994).

Em entrevista concedida à revista IntegrAção, o professor Marcelo Paixão relata que a pesquisa procura ver a questão racial sobre a ótica da exclusão social brasileira, do acesso à cidadania e aos direitos humanos econômicos e sociais, podendo ser um eficiente instrumento para captar a realidade nacional bem como desigualdades sociais eventualmente existentes.

Ainda, segundo o professor, tal pesquisa despertou o interesse de várias Organizações da Sociedade Civil e Movimentos Sociais que lutam pelos direitos da população negra e tem se mostrado como ferramenta útil em suas atuações e reflexões.

De fato, o professor ressalta o importante papel destas entidades no debate e conscientização do racismo e da exclusão social da população negra. O momento tem sido muito fértil na sociedade brasileira para a discussão de tais questões, tendo recebido atenção também da imprensa. Nesse sentido, a pesquisa tem a importante função de convidar a uma reflexão sobre a dinâmica da exclusão e fomentar o debate, visando à construção de políticas públicas inclusivas da população negra. Para o professor, quanto mais se compreender esta dinâmica de exclusão (comprovada pela pesquisa e pelas disparidades mostradas entre o IDH da população branca e o IDH das populações negra e parda), amplia-se a eficácia no objetivo de erradicá-la.

O professor nos relembra que há uma resistência secular à implantação de tais políticas, e que o atual governo ainda manifesta ações tímidas. Indubitavelmente faz-se necessário uma maior reflexão sobre como construir estas políticas de inclusão no Brasil, assunto este que já vinha sendo discutido em 2001 em função do projeto de se estipular cotas para negros nas universidades públicas e da decisão inédita do Supremo Tribunal Federal (instância máxima do Poder Judiciário no Brasil) de estipular cotas para negros no preenchimento de seus cargos mediante concurso público.

Sobre as perspectivas para o futuro, o professor mostra-se ao mesmo tempo pessimista e otimista. Pessimista por entender que a década de 90 foi uma década perdida em relação ao desenvolvimento social do país, uma vez que se perpetuaram as desigualdades sociais. Apesar da evolução dos índices das populações negra e parda, registrada nos três anos em que a pesquisa foi feita (1997, 1998 e 1999), o professor entende que o período é insuficiente para concluir se o movimento foi apenas pontual ou se realmente representa uma tendência. Otimista, porque percebeu, ao mesmo tempo, um fortalecimento da sociedade civil e por questões como esta estarem encontrando espaço para debate, tanto na sociedade quanto na imprensa e no próprio Estado.

Alfabetização - pessoas acima de 15 anos 1997 1999
Brancos 91% 91,7%
Negros 78% 80,2%

Renda média familiar per capita 1999
Brancos 2,99 salários mínimos
Negros 1,28 salários mínimos

Expectativa de vida 1999
Brancos 71,23 anos
Negros 68 anos

Contato: Prof. Marcelo Paixão - mpaixao@ie.ufrj.br

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