Stakeholders – Como interagir com tantos públicos diferentes
Andrea
Goldschmidt*
Todo plano de negócios e,
conseqüentemente, o plano de captação de recursos, deve começar
pela compreensão do mercado em que a organização atua: conhecer em
detalhes o mercado onde desenvolvemos nossa atividade social é
fundamental para que seja possível tomar as decisões mais
acertadas.
A análise do mercado passa por uma
série de etapas, entre elas:
1.
Identificação do público alvo;
2.
Identificação das necessidades e desejos do público alvo;
3.
Determinação do potencial de mercado;
4.
Identificação dos “concorrentes” (no terceiro setor é mais
comum o termo “organizações congêneres”, já que as organizações
não concorrem para dominar o mercado, mas trabalham juntas na
solução dos problemas sociais existentes);
5.
Análise dos pontos fortes e fracos de cada uma das
organizações congêneres (“concorrentes”);
6.
Determinação dos produtos que trarão maior satisfação para
as necessidades dos clientes e que preencherão “lacunas” de
mercado (levando em consideração as características dos
concorrentes e do mercado).
O objetivo
deste texto é abordar os 3 primeiros itens: identificação do
público alvo, identificação das suas necessidades e desejos, e
determinação do potencial do mercado.
Identificação do público alvo
Quando
pensamos em uma empresa qualquer, o público alvo é visto, de
maneira simplificada, como o consumidor dos produtos e serviços
daquela empresa.
Dentro do conceito de
Responsabilidade Social Empresarial que vem sendo desenvolvido
pelas empresas, no entanto, o público alvo deixa de ser apenas o
consumidor e passa a englobar um número muito maior de pessoas e
empresas. São os chamados stakeholders.
O termo “stakeholders” foi criado
para designar todas as pessoas ou empresas que, de alguma maneira,
são influenciadas pelas ações de uma organização.
Interna e externamente podemos
pensar em vários grupos de pessoas que podem ser influenciados
pelo trabalho de uma ONG:
-
Beneficiários diretos, familiares,
colegas de escola ou de trabalho dos beneficiários;
-
Empresas situadas próximas ao
local de desenvolvimento das atividades e /ou próximas ao local de
residência dos beneficiários;
-
Funcionários,
voluntários e Conselheiros;
-
Empresas parceiras e
seus funcionários;
-
Doadores;
-
Fornecedores e seus
funcionários;
-
Governos locais;
-
Outras organizações
do terceiro setor que prestam serviços complementares ao da sua
ONG.
Quem é,
então, o público-alvo de uma ONG?
A melhor
resposta, apesar de muito ousada, é: TODOS OS GRUPOS IDENTIFICADOS
ACIMA.
São grupos muito diferentes, com
perfis bastante diferentes e, certamente, com necessidades e
desejos bastante diferentes em relação aos serviços prestados pela
organização. Conciliar estas diferenças de interesses não é tarefa
fácil!
Se os atendidos não estiverem
satisfeitos, haverá problemas com o trabalho social. Se a
comunidade do entorno não estiver satisfeita, poderá boicotar seu
trabalho. Se os financiadores não estiverem satisfeitos, haverá
problemas na captação de recursos e no estabelecimento de
parcerias duradouras.
Desta forma, torna-se necessário,
não apenas identificar cada um destes públicos-alvo, mas também
identificar quais são suas necessidades e seus desejos e verificar
como podemos atendê-los da melhor maneira possível.
Identificação das necessidades
O que faz com que cada uma das
pessoas listadas acima tenham interesse no trabalho que a
organização desenvolve? O que é importante na escolha da
organização à qual irão se associar? O que esperam ter como
retorno? Como irão medir o “desempenho” das organizações
selecionadas?
Como são públicos diferentes, com
interesses diferentes e necessidades diferentes, torna-se
necessário pensar em cada um deles separadamente. Desta forma,
cada uma destas questões deverá ser respondida para cada um dos
grupos listados acima.
Existem
basicamente 3 formas de descobrir quais são as necessidades e os
desejos dos stakeholders:
1.
Pense como ele – coloque-se no lugar daquela
pessoa ou empresa e tente entender como é o seu comportamento e o
seu processo de decisão. Se você fosse um beneficiário, que
atividades gostaria que fossem desenvolvidas? Em que horário? Com
que finalidade? Se você fosse um líder comunitário, o que
esperaria da parceria com uma ONG? Se você fosse uma empresa
financiadora, que tipo de projetos gostaria de apoiar? Que
contrapartidas esperaria em troca? Como gostaria de receber a
prestação de contas?
2.
Observe-o
– Que atributos o serviço deve transmitir para atender às
necessidades de cada grupo de stakeholders? O que eles parecem
observar quando estão diante de uma situação de decisão? Que
fatores ajudam ou dificultam para conseguir seu apoio ou
participação?
3.
Pergunte a ele
– Após ter se colocado
no lugar do outro e ter observado seu processo de decisão, você
ainda pode procurar pelas pessoas e perguntar a elas o que precisa
saber. Isso pode ajudar a confirmar as conclusões a que você
chegou anteriormente ou complementar as informações necessárias
para a definição de qual é o serviço que melhor irá satisfazer aos
desejos e às necessidades do seu público-alvo.
Entender as necessidades de um
beneficiário pode aumentar significativamente o número de
inscritos nos seus programas e ajudar a reduzir o índice de
evasão. Entender as necessidades dos financiadores pode facilitar
consideravelmente a formação de parcerias e a busca por recursos
para sustentabilidade financeira do programa.
Determinação
do potencial de mercado
Após terminada a etapa de
identificação das necessidades de cada um dos grupos de interesse,
o próximo passo é avaliar se o serviço que oferecemos está
adequado à expectativas dos nossos stakeholders.
Em alguns casos, pode ser
necessário efetuar ajustes para melhorar a adequação do nosso
trabalho às expectativas das pessoas que queremos ter como
parceiras. Em outros casos, isso pode não ser necessário.
Às vezes a adequação não é
possível em função de alguma limitação que temos. Nestes casos, é
importante ter clareza de como isso irá impactar as parcerias que
desenvolvemos.
Uma vez que tenhamos clareza do
que os parceiros querem e do que podemos oferecer, podemos iniciar
a etapa de determinação do potencial do mercado. O principal
objetivo é avaliar QUANTAS pessoas ou empresas têm potencial para
se tornarem nossas parceiras.
Para ilustrar esta situação, vamos
imaginar que nossa organização trabalhe com jovens de baixa renda,
de 15 a 21 anos de idade, residentes na cidade de Florianópolis,
que estejam cursando o ensino médio, com interesse em participar
de cursos profissionalizantes de computação gráfica de segunda a
sexta-feira, no período da tarde e que têm como principal objetivo
conseguir uma nova colocação profissional.
Com todas estas informações em
mãos, não será difícil calcularmos quantos jovens existem neste
município que atendem às exigências acima e, se pudermos
configurar um curso que se adeque a estas necessidades, teremos
certeza de que haverá alunos suficientes para preencher todas as
vagas.
O mesmo vale para o plano de
captação de recursos. Uma vez feita a lista dos possíveis
parceiros, podemos começar a buscar informações sobre o que pensam
sobre investimento social e o que esperam das parcerias que
realizam. Com esta informação, podemos avaliar se a nossa proposta
de parceria atende a estas necessidades e, conseqüentemente, não
será difícil medirmos quantas são as empresas com bom potencial de
se tornarem nossas parceiras na condução de um projeto social
qualquer.
Conclusões
Para cada grupo de pessoas com as
quais interage, a organização deve desenvolver ações diferentes e
linhas de comunicação diferentes. Isso é trabalhoso, sem dúvida,
mas pode garantir o sucesso do seu negócio e a continuidade das
parcerias desenvolvidas por um prazo mais longo, uma vez que todos
os envolvidos sentem-se satisfeitos com o que recebem da
organização.
As necessidades e expectativas de
cada um destes grupos variam e é importante que cada um deles
sinta que suas necessidades e expectativas estão sendo
satisfeitas.
Desta forma, é preciso dividir
estas pessoas em grupos através dos quais seja possível
identificar características de comportamento comuns e
características de comportamentos divergentes.
Algumas características são
facilmente diferenciadas, mas existem outras mais difíceis de
classificar. Para criar estas segmentações, podemos usar vários
métodos diferentes – colocando-nos em seu lugar, observando seu
comportamento ou perguntando diretamente a eles o que esperam.
Uma vez feitas as classificações,
devemos verificar como podemos adequar nossos serviços para
atender da melhor maneira possível às expectativas apresentadas.
Quanto maior for a possibilidade de ajuste dos serviços prestados
às necessidades do público alvo, maior será a garantia de sucesso
do trabalho que a organização desenvolve.
Finalmente, tendo um grande
conhecimento do mercado, poderemos medir qual é a demanda que
existe de cada um dos stakeholders pelos serviços que prestamos e
poderemos avaliar qual é o potencial do mercado onde estamos
atuando.
*
Andrea Goldschmidt é administradora de empresas pela EAESP-
FGV e atua como captadora de recursos desde 1999. Também
é professora de Marketing e Captação de Recursos
na ESPM e na FACAMP e colaboradora do Centro de Estudos do Terceiro
Setor (CETS FGV/EAESP).
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