Planejamento estratégico para captação de
recursos
Andrea
Goldschmidt*
A
estruturação de um plano estratégico para
captação de recursos é, atualmente, um dos
maiores desafios das organizações sem fins lucrativos
brasileiras.
A maior
parte dos empreendimentos sociais surge dos ideais de um empreendedor
que, notando uma necessidade em uma determinada comunidade, começa
a mobilizar recursos para criar um projeto social que resolva
ou, pelo menos, minimize aquele problema.
Imagine
só, com tantos problemas que existem no Brasil, como é
difícil escolher uma única causa social que o motive
o suficiente para resolver lutar por ela de forma voluntária!
Quando
esta decisão é tomada, é natural imaginar,
que o empreendedor esteja muito envolvido com este tema e que
acredite que sua ação pode fazer uma grande diferença
para aquela comunidade.
Se
ele está tão convencido disso, é natural
pensar que não deve ser difícil motivar outras pessoas
a se envolverem com a mesma causa e encontrar parceiros que estejam
interessados em apoiar este projeto (e, acredite, realmente não
é!). Então a captação de recursos
deveria ser uma coisa super simples, quase uma conseqüência
natural da estruturação de um projeto social.
Por
que, então, as organizações têm tanta
dificuldade em captar os recursos necessários à
realização das suas atividades?
Como
tornar a captação de recursos uma atividade simples
Quem
não se lembra da história da “Alice no País
das Maravilhas” que, quando se viu perdida numa encruzilhada,
perguntou para o coelho que estrada deveria tomar? O coelho quis
saber para onde ela queria ir e ela disse que não sabia.
A resposta natural do coelho foi: “Então, qualquer
estrada serve!”
Na
captação de recursos, vale o mesmo princípio.
Se não sabemos onde queremos chegar, será difícil
decidirmos quem são os parceiros mais adequados, que métodos
de captação serão mais eficientes, etc.
Por
isso, a forma mais segura de tornar a captação de
recursos uma atividade simples é fazer um planejamento
estratégico do seu projeto social.
Como
fazer o planejamento estratégico do seu projeto social?
Basicamente,
o planejamento estratégico é um levantamento organizado
de informações que ajudará a definir os caminhos
a serem seguidos.
O ideal
é que a organização comece pelo detalhamento
do seu projeto social respondendo às seguintes questões:
À
medida que o plano vai sendo detalhado, fica mais fácil
perceber onde estão as oportunidades de captação
de recursos, quem são os parceiros mais adequados para
cada uma das necessidades que a organização tem,
quem são as pessoas mais adequadas para apresentar o projeto
para cada um dos potenciais parceiros, em que época devemos
iniciar a captação, etc.
O planejamento
estratégico deve ser feito anualmente. Esta será
uma ótima oportunidade para avaliar o que a organização
conseguiu realizar naquele ano, o que mudou no mercado, que caminhos
deram melhores resultados e que caminhos não levaram a
lugar nenhum.
A revisão
anual do plano é uma ferramenta de grande utilidade para
a avaliação das estratégias escolhidas para
captação de recursos.
O primeiro
passo
É
difícil dar o primeiro passo.
A maior
parte dos empreendedores sociais tem uma tendência natural
de concentrarem seus esforços na prestação
de serviços e acabam não conseguindo dedicar-se
às tarefas administrativas que, normalmente, são
vistas como “chatas”.
Além
disso, todos sabemos que as organizações sem fins
lucrativos não têm uma estrutura administrativa grande
e, desta forma, estamos sempre sobrecarregados com as atividades
do dia-a-dia.
É
natural que os gestores tenham muita dificuldade de dedicar alguns
dias para discutir com a equipe os rumos que o projeto deve tomar
(e isso realmente toma vários dias!).
Isso
faz com que o planejamento estratégico muitas vezes seja
visto como “perda de tempo” e que acabe sendo prorrogado
e esquecido.
Mas
imagine quanto tempo a Alice poderia gastar experimentando vários
caminhos diferentes sem saber direito para onde queria ir. E quantos
recursos seriam desperdiçados nestas tentativas...
É
a mesma coisa que acontece com tantos bons projetos: por não
saberem direito que objetivos têm, que estratégias
de atuação são mais adequadas, desperdiçam
recursos fazendo várias tentativas diferentes e, como conseqüência,
acabam desmotivando seus parceiros que não conseguem ver
com clareza como os recursos que doam para sua organização
estão sendo revertidos em benefícios para a comunidade
e para a solução de um problema no qual eles também
acreditam e no qual querem investir.
Doar
dinheiro é bom. Muitas pessoas e muitas empresas querem
ter este prazer, mas cada vez mais, os parceiros se preocupam
com o retorno que este investimento terá para a comunidade
e querem doar os recursos para organizações que
consigam provar que o utilizam da maneira mais eficiente.
Lembre-se
que existem cerca de 220.000 organizações sem fins
lucrativos no Brasil e que, de certa forma, estamos concorrendo
com outras organizações na busca de recursos. Quem
for mais eficiente, tem maior probabilidade de ter parceiros mais
fiéis!
Alguns
dias de planejamento estratégico podem fazer muita diferença
neste processo e, acredite, além de facilitar muito a captação
de recursos e a manutenção de parceiros estratégicos,
também trará para você e para a sua equipe
uma satisfação maior no trabalho quando puderem
saber como cada uma das atividades que vocês desenvolvem
no dia-a-dia está contribuindo para o atingimento das metas
estipuladas.
*
Andrea Goldschmidt é administradora de empresas pela EAESP-
FGV e atua como captadora de recursos desde 1999. Também
é professora de Marketing e Captação de Recursos
na ESPM e na FACAMP e colaboradora do Centro de Estudos do Terceiro
Setor (CETS FGV/EAESP).