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O
Terceiro Setor na Agenda Política
*Luiz Carlos Merege
Todos que se
interessam pelo destino de nosso país e sabem da importância
da consciência política, não permanecem indiferentes
frente às propostas dos candidatos a presidência da
república que, em última instância, refletem
ideologias e valores que irão influenciar nosso modo de vida.
As lideranças
e o público interessado no terceiro setor têm, por
natureza, à vontade de mudar o nosso país e daí
o interesse em se envolver nas campanhas e tomar uma posição
frente às propostas apresentadas.
A partir do
momento que o terceiro setor foi conceituado e sua importância
foi revelada nos números, a visão bi-setorial da sociedade
moderna deu lugar a uma concepção tri-setorial, onde
Estado, setor privado e o terceiro setor passam a inspirar e a desafiar
nossa imaginação em termos da concepção
de novos modelos de desenvolvimento social, econômico e ambiental.
Para o nosso
país essa mudança assume importância fundamental,
já que ao se reconhecer o papel estratégico do terceiro
setor para o desenvolvimento sustentável e a sua finalidade
pública voltada para a resolução de problemas
sociais, pode-se se supor que ele seja considerado como área
de atuação relevante para os programas governamentais.
A leitura dos
programas dos candidatos nos indica que as duas coligações
partidárias fazem considerações ao terceiro
setor, embora em graus diferentes. Isto se constitui em um grande
avanço, pois nos programas de governo nas eleições
de 1994 e 1998 praticamente não havia referência ao
terceiro setor. Nota-se, entretanto, que o terceiro setor é
citado, mas ainda não é incluído em uma análise
sistêmica da sociedade, isto é, dentro de uma concepção
tri-setorial, onde o modelo de desenvolvimento seria apoiado no
tripé econômico, político e social, representado
pelos três setores.
O programa que
mais se aproxima desta análise sistêmica é o
programa do PT. O programa do candidato Serra faz referências
ao setor, mas como um braço auxiliar de políticas
setoriais, dentro de parcerias que o Estado poderia estabelecer
com as organizações da sociedade civil para concentrar
esforços na resolução de problemas específicos,
como por exemplo, o analfabetismo.
O programa do
PT, ao colocar o social como eixo principal do processo de desenvolvimento,
reconhece a importância do terceiro setor para a implementação
de seu modelo. A primeira frase da introdução do programa
revela esta preocupação ao afirmar que: "para
mudar o rumo do Brasil será necessário um esforço
conjunto e articulado da sociedade e do Estado" e que isto
só será possível através de um novo
contrato social (ponto 2 da Introdução). A citação
mais explícita sobre a importância do terceiro setor
aparece no capítulo dedicado à inclusão social
onde se afirma que: "A imensa dívida social acumulada
ao longo da história do País pode ser saldada também
com a ajuda de organizações que fazem parte do chamado
Terceiro Setor e dos investimentos sociais das empresas socialmente
responsáveis."
O potencial
que o terceiro setor apresenta para desempenhar e mesmo liderar
mudanças significativas em nossa sociedade pode ser considerado
como uma importante variável para a formulação
de políticas públicas. Citaria o grande potencial
de geração de empregos que o terceiro setor apresenta,
por ser mão de obra intensivo: o setor necessita de pessoas
cuidando de pessoas. Além de contribuir para a resolução
de nossos graves problemas sociais o setor se apresenta como força
potencial de combate ao desemprego na era pós-industrial.
Também se destaca por ser o embrião de uma nova economia
social, que tem como valores fundamentais a justiça econômica
e a solidariedade. Outra característica importante do setor
diz respeito a sua capilaridade, ou seja, está presente em
todas as comunidades, quer naquelas das periferias das grandes cidades
ou nas minúsculas vilas de nosso interior. Além destas
características, o terceiro setor é hoje reconhecido
por sua eficiência e eficácia na aplicação
de recursos, o que tem motivado organismos de ajuda multilaterais
e governos a intensificarem a formação de parcerias
com as organizações da sociedade civil, com a finalidade
de maximizar o uso de recursos públicos.
O terceiro setor
começou a fazer parte da agenda política, o que foi
formalizado através da criação pelo PT do Conselho
de Desenvolvimento Econômico e Social, constituído
por representantes dos três setores. Sem dúvida alguma
devemos considerar como um grande avanço este novo fato nestas
eleições, que significa o reconhecimento definitivo
do terceiro setor como ator indispensável na solução
dos graves problemas sociais de nosso país e a adoção
de uma nova visão sistêmica de nossa sociedade.
* Luiz Carlos
Merege é professor titular, doutor pela Maxwell School
of Citizenship and Public Affairs da Universidade de Syracuse, coordenador
do curso de Administração para Organizações
do Terceiro Setor e do Centro de Estudos do Terceiro Setor - CETS
da FGV/EAESP. E-mail: merege@fgvsp.br
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