A Exclusão
Digital e as Organizações Sem Fins Lucrativos da cidade de
São Paulo:
Um
Estudo Exploratório
Edson Sadao*
Resumo: O presente artigo pretende analisar a exclusão digital em
algumas organizações sem fins lucrativos da cidade de São
Paulo. A exclusão digital, entre as diversas possibilidades
de definição, pode ser entendida como o não acesso e o não
uso da internet.
As organizações sem fins lucrativos trabalham, em sua maioria,
com pessoas que estão à margem da sociedade, ou seja, com
uma parcela da população que está excluída socialmente. Estas
organizações estão assumindo, ao longo dos anos, um papel
cada vez mais relevante nas questões sociais. A exclusão digital,
em boa parte dos estudos e artigos analisados, é vista como
um problema, assim, por conseqüência, a inclusão digital como
solução. Entretanto, pergunta-se: inclusão digital para quê?
Percebe-se, num discurso dominante, que o uso das novas tecnologias,
em especial a internet,
é uma espécie de “passaporte” para um emprego ou mesmo para
uma gestão mais eficiente das organizações. Esta perspectiva
utilitarista, porém, limita uma compreensão mais ampla sobre
o assunto. Pretende-se, assim, iniciar uma reflexão sobre
os efeitos coletivos da tecnologia, assim como a questão substantiva
sobre o acesso e uso da internet.
1.
Introdução
O tema do presente artigo é a exclusão
digital que é definido, para efeitos deste estudo, como: o
não acesso e não uso da internet.
Busca-se uma reflexão sobre o fenômeno da exclusão digital
a partir de uma pesquisa exploratória realizada entre as organizações
sem fins lucrativos da cidade de São Paulo. Parte-se do referencial
da exclusão social para analisar a exclusão digital, verificando-se
as suas semelhanças e distinções. Além disso, almeja-se organizar
algumas definições sobre as organizações sem fins lucrativos,
com o intuito de analisar as organizações selecionadas nesta
pesquisa.
A tecnologia, especialmente ao que
se refere ao acesso e uso da internet,
tem se apresentado, para alguns especialistas, como um meio
rápido e eficiente para melhorar a gestão das organizações.
Abre-se o espaço para imaginar uma nova empresa que negocia
com o mundo, sem barreiras geográficas em que o tempo torna-se
relativo; vislumbra-se, por outro lado, governos capazes de
oferecer mais e melhores serviços aos cidadãos, de uma forma
mais transparente e participativa. Verifica-se, entretanto,
que uma boa parcela da população nunca utilizou um computador,
quanto menos acessou a internet. Apesar da esperança gerada em torno das novas tecnologias,
verifica-se que elas estão sendo aplicadas para melhorar as
condições econômicas das camadas sociais mais beneficiadas
pelo sistema social vigente. Em outras palavras: em geral,
as tecnologias, em especial a internet, estão a serviço de uma lógica
de mercado e não da solidariedade e cidadania.
O crescimento da internet, fato relatado na maioria dos
relatórios e pesquisas, pode recair numa extrapolação ingênua
de que com o atual ritmo de expansão da internet,
toda a população estaria conectada até 2006. Isso é praticamente
impossível: boa parte da população mundial, muito provavelmente,
não terá tido acesso à alfabetização ou a linhas telefônicas.
É preciso distinguir a expansão, com a massificação, assim
como a democratização no acesso e uso das novas tecnologias
(Lafis, 1999). Nesse sentido, Castells (1999, p. 52) ressalta:
“(...) a velocidade de difusão tecnológica é seletiva tanto
social quanto funcionalmente”.
A acentuação de um desenvolvimento
desigual, com um aumento nítido na concentração de poder e
renda, pode ser radicalizada ainda mais pela chamada exclusão
digital. Esse é o raciocínio básico sobre a questão: sem o
acesso e uso da internet, pode-se excluir ainda mais a população pobre e as camadas
mais fragilizadas como os portadores de necessidades especiais,
os idosos, os jovens, índios, entre outros. Entretanto, as
pessoas com educação, poder aquisitivo e um bom nível sócio-cultural
estariam “fora” da chamada exclusão digital? Ter dinheiro
para comprar um computador e conectá-lo à internet é apenas um dos fatores que influenciam
a inclusão digital, mas não é o único e, talvez, nem o mais
importante.
Percebe-se em muitos autores ligados
à Tecnologia de Informação e Comunicação (TCI) um certo fascínio
com as “novas formas de pensar e fazer” a partir da tecnologia.
A “sociedade do conhecimento” ou a “economia da informação”
trazem a promessa, implícita ou explícita, de que resolverá
os problemas da humanidade. Nesse sentido, alguns “tecnólogos”
defendem que o acesso universal à internet pode garantir as melhorias nas condições sociais, a paz mundial,
enfim, influenciar um rumo melhor à humanidade. Menou (1999)
diz: “a fascinação pela tecnologia e pela novidade, associada
com os enormes investimentos e previsões de lucros ainda maiores,
contribuiu para a crença dominantemente afirmativa de que
as Tecnologias de Informação e, portanto, a Internet são boas, essenciais e positivas”.
A perspectiva utilitarista ou instrumental
da TCI reduz a compreensão do entendimento da natureza da
informação, da linguagem e da comunicação, e isso, entre outras
coisas, pode dificultar a reflexão sobre o processo de implantação
das tecnologias nas organizações. A informação é uma representação
simbólica e formal de fatos e idéias, potencialmente capaz
de alterar o estado do conhecimento, ou seja, a simples transmissão
de informação objetiva, preconizada pela visão dominante inspirada
na engenharia, é suprimir o sentido e o significado da comunicação.
O que as pessoas vêem da realidade à sua volta depende do
que elas estejam preparadas para ver, e esta percepção é,
em grande parte, transmitida pelos pressupostos embutidos
na linguagem, um traço cultural de cada comunidade (Pitassi
e Leitão, 2002).
A exclusão digital está inserida
num contexto amplo e complexo de outras formas de exclusão
social. Entender as suas relações, correlações e até mesmo
algumas de suas raízes parece ser algo oportuno e necessário.
Quais características diferenciam a exclusão digital das formas
“tradicionais” de exclusão social? Em que medida ela se insere
como problema e/ou solução? Nessa direção, a reflexão acerca
de uma “inteligência coletiva”, a partir do uso de novas tecnologias,
proposta por Lévy (2000) parece ser uma alternativa a ser
pensada e analisada em maior profundidade.
Opta-se estudar os efeitos da exclusão/inclusão
digital nas organizações sem fins lucrativos por alguns motivos:
trata-se de um conjunto de organizações na sociedade que trabalha,
em geral, com questões de interesse coletivo e social; são
essas as organizações que lidam com um público potencialmente
excluído (social, econômico, político, etc.) e que se estiverem
excluídas podem gerar uma cadeia ainda maior de exclusão;
estas mesmas organizações são as que têm sido valorizadas,
às vezes de forma exagerada, na ação social, tanto por parte
do Estado, como pelas empresas, mas que nem sempre recebem
os recursos e atenção devida; elas representam uma boa parcela
da chamada sociedade civil, inclusive quanto aos anseios,
desejos e necessidades; apesar de um aumento na visibilidade
das mesmas, poucos estudos e pesquisas acadêmicas, especialmente
no Brasil, foram realizados.
2. Exclusão
social – algumas considerações
O crescimento dos sem-teto e a ampliação
da pobreza urbana suscitaram a discussão sobre exclusão social
na Europa. A falta de emprego e de perspectivas a médio e
longo prazos, principalmente das minorias étnicas e imigrantes,
causavam um sentimento de revolta na população em geral (Rogers,
1995). O esforço para definir o que é exclusão social, termo
que, em geral, é utilizado de forma indiscriminada e aberta
a múltiplas interpretações, faz-se necessário para uma maior
clareza da sua extensão e a sua importância no contexto atual.
Para Paugam, autor citado no livro de Pedro Demo (1998, p.
37), por exemplo: “(...) a exclusão social não passaria de
um ‘conceito-horizonte’, que aglutina um tipo de preocupação
social atual, sem maiores rigores analíticos”.
O termo exclusão pode levar ao raciocínio
do “estar fora”, assim como o termo inclusão, o antônimo de
exclusão, a idéia de “estar dentro”. Essa visão dualista,
simplificada do termo exclusão, todavia, é muito mais complexa.
Ninguém está totalmente fora ou dentro, são múltiplas as possibilidades;
a própria relação dialética, defendida por alguns autores,
que vêem na exclusão uma forma de inclusão e vice-versa. A
tentativa de isolar alguma forma de exclusão é, com efeito,
uma maneira de buscar o entendimento de determinadas situações,
mas ao mesmo tempo, limita-se a possibilidade de uma compreensão
dinâmica do que é ou não é exclusão. Demo (1998, p. 105),
por exemplo, ressalta a sua visão dialética da exclusão social:
“quem não consegue entender que a exclusão é uma forma de
inclusão, ou seja, uma maneira de exercer uma função dialética
no sistema, não percebeu ainda o que significa dialética na
história. O que mais a exclusão social escancara é a luta
desigual, a concentração de privilégios, a repartição injusta
dos espólios de uma sociedade falida”.
Dupas (2000, p. 20), nessa mesma
direção, chama a atenção para o processo dinâmico entre exclusão
e inclusão, argumentando que um indivíduo pode estar excluído
em algumas dessas categorias e incluído em outras. Por exemplo:
um indivíduo pode estar excluído do mercado formal de trabalho
mas não da possibilidade de garantir a sua sobrevivência no
mercado informal; ou ainda, excluir-se de algo por estar incluído
em outro: se um jovem começa a trabalhar cedo demais, provavelmente
irá excluir-se da possibilidade de uma formação que lhe dê
direito a concorrer às melhores vagas no mercado.
Há uma certa dificuldade em saber,
com exatidão, o que é exclusão social. Entretanto, é possível
contar os excluídos? Ainda nesse sentido: é interessante saber
o número de excluídos? Há diversos critérios para tentar contar
os excluídos, por exemplo: renda per capita, IDH (índice de desenvolvimento
humano), número de desempregados de longa duração, entre outros.
Ou seja, dependendo do critério, pode-se incluir ou excluir
milhares de pessoas. Convém, porém, considerar a reflexão
de Rosanvallon (1998, p. 154) que pondera o seguinte: “não
é importante ‘contar’ os excluídos. Isso não permite tê-los
como objeto de ação social. O importante é, em primeiro lugar,
analisar adequadamente as trajetórias que conduzem às situações
de exclusão, que resultam sempre de um processo particular”.
Se as pessoas tiveram caminhos diferentes para chegar ao estado
de exclusão social, é natural que tenham perspectivas distintas
para saírem dessa condição.
De acordo com Castel (1998), a exclusão
seria imóvel, ao denotar estados de privação, enquanto que
o conceito de desafiliação procura valorizar os processos
que geram aquela situação, designando um percurso, não só
uma ruptura. Castel (1998, p. 568-569), além disso, reconhece
que não há uma separação entre os que estão dentro ou estão
fora e, além disso, alerta para uma possível “gangrena” e
uma desestabilização da sociedade, ou seja, para ele, a exclusão
social é uma questão de todos: “(...) não há ‘in’
e ‘out’, mas um continuum de posições que coexistem no mesmo conjunto e se ‘contaminam’
umas às outras. Continua o
autor: “(...) a exclusão não é uma
ausência de relação social, mas um conjunto de relações sociais
particulares da sociedade tomada como um todo”. Em suma, é
preciso analisar os processos e as relações de exclusão e
não apenas o fato em si, ou seja, a dinâmica pela qual as
pessoas foram levadas à esse estado.
A associação entre pobreza e exclusão
social, ainda que pertinente, pode induzir a uma conclusão
precipitada de que é uma relação única, exclusiva e inquestionável.
Que a pobreza e as condições precárias de vida acentuam os
problemas sociais, não há dúvida, isso não quer dizer, contudo,
que a exclusão social se limita a isso. Com as transformações
do mercado e a precarização nos empregos formais, por exemplo,
boa parte das pessoas que não são pobres está excluída das
oportunidades de emprego disponíveis. Há outros exemplos:
pessoas que perderam as suas famílias, ou seja, excluídas
da convivência familiar; imigrantes que não falam a língua
local e não conseguem se estabelecer na comunidade; pessoas
que têm renda, mas que são excluídas do consumo de produtos
e serviços de luxo, entre outros.
A exclusão social não se restringe
à questão da igualdade de renda, trabalho, direitos e deveres,
mas também do respeito às diferenças no modo de vida, na cultura
de um povo, diversidade política e religiosa, etc. Nesse sentido,
pode-se utilizar a teoria dos grupos, conforme citação de
Jordan no livro de Pedro Demo (1998, p. 41): “o que é necessário
é uma teoria que explique como grupos se organizam, e, acima
de tudo, como pessoas com poucos recursos, ou enfrentando
altos riscos, alcançam êxito em tais interações sociais. Em
outras palavras, uma teoria da pobreza e da exclusão social
é necessariamente uma teoria econômica de grupos exclusivos
(como pessoas interagem em relação com seus riscos econômicos,
capacidades e recursos).”
3. A exclusão digital
O termo exclusão digital (digital divide) tem a sua origem em meados
da década de 1990 com a publicação de um artigo de Jonathan
Webber e Amy Harmon no jornal Los Angeles Times em 1995, de
acordo com Larry Irving da Irvinfo.com; Andy Carvin da Benton
Foundation diz que no início de 1996 houve uma declaração
do então presidente dos EUA Bill Clinton e do vice-presidente
Al Gore em que ambos citam o termo digital
divide num discurso realizado em Knoxville, Tennessee.
De acordo com a OCDE (2001), a exclusão
digital refere-se à distância entre indivíduos, famílias,
empresas e regiões geográficas em diferentes níveis sócio-econômicos
com respeito, simultaneamente, às suas oportunidades de acesso
às tecnologias de informação e comunicação (TCI’s) e o uso
da internet para
uma ampla variedade de ações e atividades. Há outras formas
para definir a exclusão digital: uma delas remete à distância
entre os que estão fazendo uso das novas tecnologias e os
que não estão, de acordo com Robert Anthony
(2000) e Wallys W. Conhaim
(2000); de acordo com John N. Berry
III (2000), refere-se ao abismo de informações
existente entre os que têm acesso às novas tecnologias e os
que estão alijados desse processo. Para Silveira (2001, p.
18): “a exclusão digital ocorre ao se privar as pessoas de
três instrumentos básicos: o computador, a linha telefônica
e o provedor de acesso.” O autor ressalta que a exclusão digital
não é mera conseqüência da exclusão social.
De fato, a exclusão digital não é
uma conseqüência direta da exclusão social, apesar do fato
de estar excluído socialmente em termos de renda, educação
e emprego, entre outros, acaba interferindo negativamente
na exclusão digital. Faz-se, assim, necessária uma distinção
entre as duas formas de exclusão, pois há uma certa semelhança
entre elas: a exclusão digital não está restrita ao fator
renda (apesar de ser limitada por ela), algumas pessoas, ainda
que com renda compatível para o acesso e uso da internet, por exemplo, não faz uso das
novas tecnologias por opção ou até mesmo por desconhecimento
e repulsa (Lenhart, 2000); a questão geracional (Tapscott,
1999) é um fator que interfere no processo de inclusão/exclusão
digital. Percebe-se que entre os mais jovens a absorção da
TCI é muito mais rápida se comparada com as camadas da população
com mais idade; a educação é um dos fatores limitantes ao
acesso e uso das novas tecnologias (OCDE, 2001), não saber
ler em inglês, por exemplo, impede o uso de boa parte das
informações presentes na internet (OCDE, 2001); a exclusão digital está diretamente ligada
à infra-estrutura de comunicação, como por exemplo, telefone,
provedores, aparelhos, etc., em outras palavras, pode-se ter
as condições e a predisposição para o uso das novas tecnologias,
mas sem uma infra-estrutura mínima não há como ter acesso
e muito menos o uso das novas tecnologias (Lafis, 1999). Em
suma, múltiplos fatores, em variados contextos, impedem ou
dificultam o processo de inclusão digital.
Por outro lado, a exclusão digital
é tratada de forma semelhante à exclusão social, havendo inclusive
uma associação entre elas: muitos projetos e iniciativas de
inclusão digital defendem uma perspectiva de capacitação técnica
para aumentar o poder de competitividade das pessoas por um
emprego - percebe-se que uma forma de inclusão baseada na
lógica de mercado, ou seja, a tecnologia sendo utilizada para
um aperfeiçoamento profissional. Fala-se também num processo
de alfabetização digital, em bases semelhantes ao processo
de combate ao analfabetismo. Os discursos e análises relativas
ao tema recaem, quase sempre, na questão da pobreza e da miséria,
ou seja, da mesma forma como na exclusão social, busca-se
explicar o fenômeno da exclusão digital baseada na falta de
renda; esquecem-se, porém, os componentes culturais e sociais,
focando-se demasiadamente no fato em si, e não no processo
e na dinâmica que excluem as pessoas e as organizações no
acesso e uso das tecnologias. Como conseqüência quase que
imediata, almeja-se saber “quantos são os que estão excluídos
do mundo digital”, o que ocorre em boa parte das análises
de pobreza e exclusão social, porém a dificuldade no critério,
assim como a própria necessidade de se contar ou dimensionar
a exclusão digital ainda estão sendo debatidos.
Há uma certa predominância em olhar
a questão da exclusão digital como problema, ou seja, a inclusão
digital como solução. Vale, porém, uma reflexão semelhante
ao que o economista Amartya Sen (2001) faz da desigualdade
(o autor faz uma pergunta central: igualdade de quê): inclusão
digital para quê? Numa perspectiva capitalista e dos seus
valores e princípios que são dominantes na atualidade, vê-se
na exclusão digital um problema de inclusão social via mercado,
pois sem estar incluído digitalmente, fica ainda mais difícil
conseguir um emprego ou até mesmo manter-se empregado. Cria-se,
assim, uma expectativa de que ao fazer um curso de informática
ou atualizar-se em ferramentas tecnológicas, haverá uma oportunidade
de emprego em troca. Essa é uma promessa no mínimo perigosa
e até mesmo irresponsável, pois quem pode garantir que uma
capacitação em tecnologia seja um passaporte para o mundo
do trabalho?
Castel
(1998) faz a ressalva de que devido ao crescente número de
desempregados e conseqüente precarização do mercado de trabalho
é possível que haja uma situação de não-empregabilidade dos
qualificados. Para o autor, o aumento de escolaridade e a
capacitação não são garantias de emprego. Demo (1998, p. 103)
reforça a crítica ao discurso da empregabilidade: “(...) uma
preparação melhor para o trabalho e mesmo permanente para
o emprego acaba facilitando a informatização, com conseqüente
redução da presença física do trabalhador e barateamento do
custo dos mais especializados”. Em que pesem os argumentos
de que as novas tecnologias vêm abrindo novas oportunidades
de trabalho, é preciso perceber que o volume de empregos formais
disponível é menor que o número de pessoas que querem entrar
no mercado.
A revolução da tecnologia e a sua presença em todas as esferas de atividade
humana, por um lado, não implica que novas formas e processos
sociais sejam conseqüências da transformação tecnológica.
Segundo Castells (1999, p. 25): “é claro que a tecnologia
não determina a sociedade. Nem a sociedade escreve o curso
da transformação tecnológica, uma vez que muitos fatores,
inclusive criatividade e iniciativa empreendedora, intervém
no processo de descoberta científica, inovação tecnológica
e aplicações sociais, de forma que o resultado depende de
um complexo padrão interativo.” Dowbor (2000, p. 10), fala
sobre um momento de incertezas em relação às novas tecnologias
de comunicação e informação: “O que é visível nesta transformação,
é sem dúvida apenas a ponta do iceberg.
Estamos vivendo os primeiros momentos de um processo que já
podemos identificar como extremamente profundo nas suas repercussões,
mas cujas formas ainda mal vislumbramos. O essencial, para
nós, é deixar claro que a revolução radical nas formas como
a humanidade desenvolve, organiza, comunica e utiliza o conhecimento
implica numa transformação das próprias bases da sociedade,
inclusive do que chamamos de modo de produção”.
Dowbor (2000, p. 15) cita um estudo
do World Information
Report da Unesco: “A falta de acesso democrático à informação
significativa implica na dificuldade do cidadão exercer os
direitos humanos de forma geral. Neste sentido o acesso à
informação deve ser universal, público e gratuito. A cultura
é um bem universal, essencial da nossa humanidade”. A partir
disso, verifica-se a possibilidade de construção de uma inteligência
coletiva, que é definida por Lévy (2000, p. 28): “é uma inteligência
distribuída por toda a parte, incessantemente valorizada,
coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva
de competências.” O autor complementa a sua definição, ressaltando
o que ela não é: “não se deve, sobretudo, confundi-la com
projetos ‘totalitários’ de subordinação dos indivíduos a comunidades
transcendentes e fetichizadas.”
3.1 – Uma
breve discussão sobre acesso e uso das novas tecnologias
A questão relacionada ao acesso é
mais simples se comparado ao uso. Uma linha telefônica, um
computador e um provedor, por exemplo, são elementos suficientes
para acessar a internet. A questão do uso, entretanto,
pode ser bem mais complexo: pode-se usar a internet
para diversão, trocar mensagens e pesquisar; o uso da internet pode ir além – pode-se usá-la para formar ou reforçar uma
rede entre organizações, fortalecer campanhas, disseminar
novos conhecimentos, ou seja, o uso da internet
com fins coletivos tem um potencial para a construção de uma
inteligência coletiva. O exemplo dos “funcionamentos” de Amartya
Sen (2001, p.15), definidos como: “estados e ações que uma
pessoa consegue realizar vivendo de algum modo”, ou seja,
os diferentes usos do mesmo objeto servem como um meio para
reflexão no caso das tecnologias.
Toma-se o exemplo das rádios comunitárias
para ilustrar a questão do uso das tecnologias. As rádios
comunitárias inserem em sua programação a música Rap, popular
entre os jovens das periferias. Este tipo de música que, em
geral, traz algum tipo de protesto social, não faz parte da
programação das rádios comerciais. O Rap não seria tocado,
muito provavelmente, em uma escala mais abrangente se não
fossem as rádios comunitárias. As músicas internacionais,
por outro lado, em geral, não fazem parte do repertório das
rádios comunitárias.
O aparato tecnológico utilizado pelas
rádios comunitárias é praticamente o mesmo dos empreendimentos
comerciais, o que muda, são os fins e de como os ingredientes
tecnológicos são utilizados. As comunidades pobres e da periferia
querem, assim como qualquer outro cidadão, ter acesso aos
meios de comunicação, assim como às informações e de algo
que tenha sentido e que faça parte das suas vidas. A internet, que é um meio de comunicação
e informação, pode ser entendida como um direito e não apenas
como algo meramente instrumental e utilitarista.
3.2 Alguns números sobre a exclusão digital
Os números, dados e estatísticas,
por si sós, podem escamotear uma realidade, mais do que esclarecer.
Entretanto, no caso da exclusão digital, apresentam-se alguns
números que podem ser úteis no sentido de um diagnóstico.
Os números a seguir denunciam uma situação assimétrica de
acesso às novas tecnologias; ressalta-se, além disso, que
ao se considerar simultaneamente o uso das mesmas, a situação
para a maioria das pessoas nos países pobres pode ser ainda
mais desigual.
Segundo a OCDE, os 24 países mais
ricos do mundo, apesar de abrigarem apenas 15% da população
mundial, concentram 71% de todas as linhas telefônicas. Alguns
dados e informações que ilustram a dimensão da exclusão digital
na América Latina: enquanto nos Estados Unidos cada 682 habitantes
entre mil possuem telefone fixo, no Haiti este número é de
apenas 8 e no Uruguai 271. A média na América Latina é de
131 aparelhos. A língua também é um obstáculo para o uso da
Internet. Mais da
metade – 52% – das páginas disponíveis estão em inglês, enquanto
apenas 5,69% estão em espanhol e 2,81% em português. Um mesmo
computador é, em média, utilizado por 5 a 10 pessoas. O alto
preço impede um número maior de máquinas. Enquanto um norte-americano
compra um aparelho com o salário referente a duas semanas
de trabalho, o equatoriano leva seis meses (Léon, 2001).
No Brasil, segundo o IBGE, em 2000
havia de 10 a 20 usuários de informática a cada 100 mil habitantes.
A região sudeste concentra 58% dos provedores de acesso, sendo
que 12% estão na cidade de São Paulo e 8% na cidade do Rio
de Janeiro. Apenas 6% dos municípios brasileiros (5.500 ao
todo), pouco mais de 300 cidades, têm uma infra-estrutura
mínima necessária para que possam ser instalados serviços
locais de acesso à internet.
O telefone é um meio de comunicação que está ao alcance, segundo
a ONU, de pouco mais de 20% da população mundial e isso nunca
foi tratado como um problema. A “exclusão telefônica”, ao
contrário da digital, não teve uma repercussão. Talvez porque
o telefone, público ou privado, fixo ou celular, seja visto
como uma espécie de privilégio e não sob o ponto de vista
do direito ao acesso a comunicação. Entretanto, a falta de
infra-estrutura nas telecomunicações faz parte dos limitadores
para a expansão da internet, especialmente nos países pobres
e em desenvolvimento.
4.
As organizações sem fins lucrativos
Há diversos termos para referir-se
às organizações sem fins lucrativos: organizações não governamentais,
organizações da sociedade civil, entidades sociais ou filantrópicas,
organizações voluntárias privadas, etc. Cada qual destaca
algum aspecto, como por exemplo: que elas não fazem parte
do Estado, ou que se baseiam em trabalho voluntário, ou ainda
que a sua origem é na sociedade civil, ou até mesmo que o
seu caráter é filantrópico e assistencial. Isso reflete, em
certa medida, um desacordo sobre o que é exatamente uma organização
que não faz parte do Estado ou do mercado, 1º e 2º setores,
respectivamente, e que não segue, pelo menos em tese, as lógicas
governamentais e empresariais.
Numa tentativa de compreender as
organizações sem fins lucrativos, diz-se que são as que têm
recursos privados para fins públicos, diferente das empresas
que têm recursos privados para fins privados e dos governos
que têm recursos públicos para fins públicos. Sabe-se, entretanto,
que a maioria das organizações sem fins lucrativos, especialmente
no caso brasileiro, recebem recursos públicos, ou seja, a
definição apresentada não corresponde à realidade dessas organizações.
Há outras definições possíveis, mas verifica-se que todas
elas têm as suas limitações teóricas e que o seu debate está
longe de um fim.
No Brasil o termo “ONG” é o mais
“popular” para denominar as organizações sem fins lucrativos,
apesar de não ser um conceito universal e consensual. De acordo
com Tenório (1999, p. 11), as organizações não-governamentais:
“(...) caracterizam-se por serem organizações sem fins lucrativos,
autônomas, isto é, sem vínculo com o governo, voltadas para
o atendimento das necessidades de organizações de base popular,
complementando a ação do Estado. Têm suas ações financiadas
por agências de cooperação internacional, em função de projetos
a serem desenvolvidos, e contam com trabalho voluntário. Atuam
através da promoção social, visando a contribuir para um processo
de desenvolvimento que supõe transformações estruturais da
sociedade. Sua sobrevivência independe de mecanismos de mercado
ou da existência de lucro.”
Na América latina as ONG’s surgem
com muita força nas décadas de 1960 e 1970. Apoiadas por diferentes
agências internacionais, elas apareciam como força política
de oposição ao autoritarismo, defendendo assim a democracia
e favorecendo a participação dos excluídos com uma total autonomia
com relação ao Estado e fazendo uma política inovadora vinculada
aos movimentos sociais emergentes como os da mulher, os de
direitos humanos, ecologia, associações de bairros e outros.
(Thompson in Ioschpe, 1997). No Brasil,
o termo “ONG” surge na década de 1970, com uma ênfase inicial
de cunho político centrado no discurso da esquerda (Fernandes
in Ioschpe,1997). Atualmente o termo ganhou nova conotação
passando a se intitular também de “organizações da sociedade
civil”, OSC’s, se distinguindo não apenas do Estado mas também
do mercado, apresentando-se agora como uma espaço próprio
de participação de todos atores sociais, nas mais diversas
causas coletivas.
Há um discurso (questionável) de
que as organizações sem fins lucrativos sejam mais eficientes
que o Estado, assim como assumindo um papel cada vez mais
relevante no trato das questões sociais. Entretanto, Benevides
(2001, p. 6) ressalta a importância do Estado no cumprimento
da sua função social: “É importante deixar claro que a participação
cidadã em entidades da sociedade civil não significa aceitar
a diminuição do papel do Estado – este continua sendo o grande
responsável pelo desenvolvimento nacional com a garantia efetiva
dos direitos dos cidadãos.”
Dowbor (1996, p.8) faz um comentário
acerca do espaço ocupado pelas organizações sem fins lucrativos:
“(...) Outro espaço que está surgindo com força é o espaço
do conhecimento comunitário. Trata-se de uma área até hoje
fundamentalmente trabalhada pelas Organizações Não Governamentais
de diversos tipos, organizações religiosas e outras, cuja
importância tem sido sistematicamente subestimada. Não se
trata de aprovar ou não este tipo de iniciativas, e sim de
constatar que se elas se desenvolvem com tanto dinamismo,
é que há um vazio não preenchido.”
5.
A exclusão
digital nas organizações sem fins lucrativos de São Paulo:
um estudo exploratório
O universo da pesquisa refere-se
às organizações sem fins lucrativos, sediadas na cidade de
São Paulo. As organizações sem fins lucrativos pesquisadas
caracterizam-se pela sua diversidade em termos de ação, atuação,
porte organizacional, fontes de recursos, estratégia de trabalho,
entre outros. Para os fins desta pesquisa, busca-se compreender
a exclusão digital nas organizações sem fins lucrativos, ou
seja, não se quer, assim, aprofundar o tipo de organização
em si; busca-se compreender os efeitos das novas tecnologias
nestas organizações.
A pesquisa foi planejada, numa primeira
etapa, em dois passos principais: num primeiro momento foi
montado um banco de dados a partir de 8 diferentes bancos
de dados. As fontes consultadas foram: RITS, Rede de Informações
do Terceiro Setor; ABONG, Associação Brasileira de ONG’s;
CVSP, Centro de Voluntariado de São Paulo; PMSP, Prefeitura
Municipal de São Paulo; catálogo de entidades sociais da Tertio
Millenium; e os sites
www.filantropia.org; www.terceirosetor.org.br e www.meioambiente.org.br.
Ao todo, foram localizados pouco mais de 1.700 organizações,
sendo que algumas delas estavam presentes em mais de um banco
de dados (314, correspondendo à aproximadamente 18,5% do total),
esse foi o indício de articulação utilizado para escolher
as organizações a serem pesquisadas (ainda que modesto, estar
presente em mais de um banco de dados, foi um critério objetivo
encontrado para iniciar o trabalho).
|
Presença nos bancos
|
Nº de organizações
|
Percentual
|
|
|
6
|
3
|
0,18%
|
Universo
das organizações selecionadas |
|
5
|
5
|
0,29%
|
|
4
|
32
|
1,87%
|
|
3
|
77
|
4,49%
|
|
2
|
196
|
11,44%
|
|
1
|
1401
|
81,74%
|
|
|
TOTAL
|
1714
|
100,00%
|
|
Quadro 1 – presença das organizações nos bancos de dados
consultados
Na própria formação do banco de dados,
algumas informações foram obtidas: 40,2% (688) destas organizações
têm e-mail e 19,45% (333) têm sites; 41,7% captam recursos pela internet e apenas 25,2% captam ou promovem
o voluntariado nos seus sites.
Para verificar a utilização dos sites
visitou-se os 333 localizados. Além disso, de acordo com os
dados analisados, há indícios de que usar a internet
facilita a comunicação das organizações sem fins lucrativos
com outras organizações, ou seja, a internet
é um meio que pode ser utilizado para a articulação, pois
há uma tendência entre aparecer nos diversos bancos de dados
e utilização da internet; por outro lado, não há relação entre a data da criação das
ONG's com o uso da internet.
Estas informações estão muito próximas à realidade verificada
entre as organizações sem fins lucrativos da América Latina.
Para as organizações que possuem site
próprio a presença na web é importante para fortalecer sua representatividade
pública e aprimorar as relações externas. A Internet não é a ferramenta tecnológica
mais utilizada, mas sim o e-mail.
Ele permite uma forma eficaz de comunicar as principais atividades
da organização e é considerado um instrumento útil na troca
de experiências para atuação em rede (Léon, 2001).
Para um aprofundamento das informações
mencionadas elaborou-se dois questionários: um para aquelas
que têm maior facilidade no acesso e uso da internet
e um outro para as que não têm acesso às novas tecnologias
ou têm um acesso, mas com uso precário. Considera-se “uso
precário” o não uso de computadores, internet, e-mail ou site institucional.
Nestes questionários procurou-se identificar 3 aspectos principais:
a) sobre a organização, b) sobre o acesso e uso da internet e c) a governança destas organizações.
As principais informações obtidas foram:
1. Entre as organizações sem fins
lucrativos pesquisadas, as que têm acesso à internet
(conjunto de 57 organizações) são maiores em termos de recursos
orçamentários, mão-de-obra voluntária, número de pessoas atendidas
se comparadas com as que não têm acesso ou um uso precário
das tecnologias (conjunto de 18 organizações). Isso, de certa
forma, era esperado, pois a dimensão organizacional é um dos
fatores que influencia o acesso e uso de novas tecnologias.
Entretanto, as organizações sem acesso ou uso precário têm
um maior índice de certificados de utilidade pública que as
organizações com acesso, 83,33% a 71,93%, respectivamente,
ao contrário do que se imaginava inicialmente. As organizações
que responderam à pesquisa foram:
A) Organizações sem acesso, sem uso
ou uso precário:
|
1.
Associação Esportiva
da Divisão de Reabilitação do Hospital das Clínicas
2.
Centro de Estudos
e Assistência à Família - CEAF
3.
Resgate Voluntário
4.
Centro de Convivência
Jardim Ubirajara
5.
Movimento Pró-idosos
MOPI
6.
Centro Educacional
e Profissional Vinícius
7.
Creche Pedro Apóstolo
8.
A.A.E.B. - Associação
de Amigos dos Excepcionais do Brooklin
9.
Casa José Coltro
10.
Acorde - Associação
Comunitária Jardim Independência
|
11.
APADE - Associação
de Pais e Amigos de Portadores de Deficiência
12.
ARCO Associação
Beneficente
13.
Associação Lar Cristo
Rei Menino
14.
Centro Social São
José
15.
Movimento de Apoio
à Integração Social
16.
Coordenação Regional
das Obras de Promoção Humana – CROPH
17.
Associação SOS Saúde
Mental de São Paulo
18.
Centro de Assistência
Social e Promocional de Vila Alpina
|
B) Organizações com acesso e uso
|
1.
5 Elementos – Instituto
de Educação e pesquisa Ambiental
2.
A Alternativa Associação
de Assistência ao Excepcional
3.
Abrigo dos Velhinhos
Frederico Ozanam
4.
Ação da Cidadania
São Paulo S/C
5.
ADefAV Associação
para Deficientes da Áudio Visão
6.
ARCA BRASIL- Assoc.
Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal
7.
Arrastão Movimento
de Promoção Humana
8.
ASCCI - Ação Solidária
Contra o Câncer Infantil
9.
Associação dos Cavaleiros
da Soberana Ordem de Malta de SP e Brasil Meridional
10.
Associação Arte
Despertar
11.
Associação Brasileira
de Pedestres - ABRASPE
12.
Associação Brasileira
dos Familiares e Amigos dos Portadores da Síndrome de
Rubinstein-Taybi
13.
Associação Brasileira
para o Desenvolvimento de Lideranças
14.
Associação Carpe
Diem
15.
Associação Cristã
de Casais – Vila Acalanto
16.
Associação de Apoio
à Crianças com Câncer
17.
Associação de Apoio
a meninas e Meninos da Região Sé
18.
Associação Educacional
Labor
19.
Associação Instrutora
da Juventude Feminina – Instituto Sedes Sapientiae –
Clínica Psicológica
20.
Associação Pró-Excepcionais
Kodomo-no-sono
21.
Associação Rodrigo
Mendes
22.
Banco de Alimentos
– Sociedade Civil sem fins lucrativos
23.
Carminha Associação
para Reabilitação do Excepcional
24.
Centro Brasileiro
de Análise e Planejamento - CEBRAP
25.
Centro de Assistência
e Promoção Social Nosso Lar
26.
Centro de Voluntariado
de São Paulo
27.
Centro dos Hemofílicos
do Estado de São Paulo
|
28.
Centro Social Brooklin
Paulista
29.
Centro Social de
Parelheiros
30.
Centro Social Nossa
Senhora do Bom Parto
31.
Centro Social Nossa
Senhora do Rosário
32.
CIAM Centro Israelita
de Assistência ao Menor
33.
Cooperativa Educacional
e Assistencial Casa do Zezinho
34.
Divisão de Medicina
de Reabilitação
35.
Doutores da Alegria
– Arte, Formação e Desenvolvimento
36.
Fraternidade Irmã
Clara
37.
Fundação Francisca
Franco
38.
Fundação Julita
39.
Fundação Victor
Civita
40.
Instituição Paulista
Adventista de Educação e Assistência Social
41.
Instituto Beneficente
Cultural José Kentenich
42.
Instituto de Apoio
à Criança e ao Adolescente com Doenças Renais - ICRIM
43.
Instituto Iniciação
Formação e Capacitação Profissional Daniel Comboni
44.
ISSP - Centro Juvenil
Salesiano Dom Bosco
45.
Lar mãe do Divino
Amor
46.
Legião da Boa Vontade
47.
MAESP - Movimento
de Assistência aos Encarcerados Estado de SP
48.
Moradia Associação
Civil – Casa Taiguara
49.
Movimento de Prevenção
aos Riscos Urbanos
50.
Movimento Voto Consciente
51.
Núcleo Assistencial
Afrânio Hingel Pinto - Casa do Amparo
52.
Programa Social
Gotas de Flor com Amor
53.
Projeto Quixote
54.
Promove Ação Sócio
Cultural
55.
Província Franciscana
da Imaculada Conceição do Brasil
56.
Seara Bendita Instituição
Espírita
57.
Sociedade Cultural
Missões Quilombo
|
2. Entre as organizações sem acesso
ou com um uso precário, não possuem computadores 22%, o mesmo
índice para os que não têm acesso à internet;
33% não utilizam e-mail
e 78% não têm sites.
O principal motivo para o não uso das tecnologias é, segundo
as organizações pesquisadas, o custo e a falta de pessoal
qualificado para trabalhar. É muito provável que o motivo
apresentado seja na realidade um indício de desinformação,
principalmente se considerarmos que há diversos serviços gratuitos
de e-mail e site no mercado.
3. Percebe-se uma maior valorização
da internet entre
as organizações com acesso. Há, contudo, uma percepção de
que a internet é fundamental também entre as
organizações sem acesso ou uso precário. O valor percebido
pelas organizações pode estar influenciado pelo “bombardeio”
publicitário e artigos que abordam as tecnologias como algo
importante e que trazem benefícios a quem as utiliza.
|
A internet é:
|
Com acesso
|
Sem acesso ou uso precário
|
|
Fundamental
|
N = 45 (79%)
|
N = 10 (61%)
|
|
Importante,
mas não essencial
|
N = 11 (19%)
|
N = 7 (33,5%)
|
|
Pouco
importante
|
0%
|
N =1 (5,5%)
|
|
Sem
resposta
|
N = 1 (2%)
|
0%
|
Quadro 3
– Percepção sobre o uso da internet
4. As organizações sem acesso ou
uso precário pesquisadas demonstram uma percepção de que estão
defasadas em relação às novas tecnologias, principalmente
computadores e internet, pois 94,5% (18 das 19 organizações
participantes da pesquisa) dizem estarem pouco ou parcialmente
atualizadas. Inversamente, as organizações que têm acesso
pesquisadas, percebem-se atualizadas: 95% (54 de 57 organizações)
estão plenamente ou parcialmente atualizadas.
|
O gestor
e a sua organização estão:
|
Com acesso
|
Sem acesso ou uso precário
|
|
Plenamente
atualizados
|
N = 17 (30%)
|
N = 1 (5,5%)
|
|
Parcialmente
atualizados
|
N = 37 (65%)
|
N = 9 (50%)
|
|
Pouco
atualizados
|
N = 3 (5%)
|
N = 8 (44,5%)
|
Quadro 4
– Percepção sobre a atualização em relação às novas tecnologias
5. Há uma maior diversidade de parcerias,
convênios e alianças entre as organizações com acesso. Por
outro lado, percebe-se uma certa tendência, entre as organizações
sem acesso ou uso precário, de parceria com o governo. Sob
a ótica da “inteligência coletiva”, percebe-se que o uso da
internet pode influenciar
positivamente a construção de conhecimentos e troca de informações,
ou seja, existe um potencial para que as organizações sem
fins lucrativos possam crescer a partir dos seus conhecimentos
e experiências, trazendo, assim, benefícios contínuos que
podem ser compartilhados entre elas.
|
Mantém
convênios, parcerias e alianças com*
|
Com acesso
|
Sem acesso ou uso precário
|
|
Organizações
da mesma área
|
N = 39 (68,4%)
|
N = 6 (31,6%)
|
|
Fundações
|
N = 31 (54,4%)
|
N = 9 (47,4%)
|
|
Governo
|
N = 38 (63,2%)
|
N = 14 (73,7%)
|
|
Organizações
internacionais
|
N = 29 (51,0%)
|
N = 4 (21,0%)
|
|
Empresas
|
N = 39 (68,4%)
|
N = 6 (31,6%)
|
|
Não
tem
|
N = 1 (1,7%)
|
N = 1 (5,2%)
|
Quadro 5
– Convênios, parcerias e alianças
* pergunta com possibilidade de múltiplas escolhas
6. Com relação à qualidade no relacionamento
das organizações sem fins lucrativos com seus parceiros, verifica-se,
entre as organizações pesquisadas, que existe um certo descontentamento
das organizações sem acesso ou uso precário, enquanto que,
ao contrário, as organizações com acesso demonstram estar
mais satisfeitas nessa relação, conforme quadro abaixo:
|
Qualidade
na relação com os apoiadores*
|
Com acesso
|
Sem acesso ou uso precário
|
|
Excelente,
com processo participativo
|
N = 25 (43,9%)
|
N = 5 (26,3%)
|
|
Bom,
com algumas restrições
|
N = 30 (52,6%)
|
N = 7 (36,8%)
|
|
Bom,
mas apenas formal
|
N = 5 (8,8%)
|
N = 4 (21,0%)
|
|
Poderia
ser melhor, sofre imposições
|
N = 4 (7,0%)
|
N = 3 (15,8%)
|
|
Ruim,
aquém das expectativas
|
0,0%
|
N = 1 (5,2%)
|
Quadro 6
– Qualidade na relação com os apoiadores
* pergunta com possibilidade de múltiplas
escolhas
7. As organizações com acesso pesquisadas
consideram-se mais atualizadas, o inverso acontece com as
que não têm acesso ou uso precário, conforme quadro abaixo:
|
Quanto
ao conhecimento e atualização na área de atuação*
|
Com acesso
|
Sem acesso ou uso precário
|
|
Está
atualizada, colabora com outras organizações
|
N = 35 (61,4%)
|
N = 6 (31,6%)
|
|
Está
atualizada, pois participa de eventos na área
|
N = 27 (47,4%)
|
N = 7 (36,8%)
|
|
Está
atualizada, mas poderia estar melhor
|
N = 15 (26,3%)
|
N = 12 (63,1%)
|
|
Em
termos, não há regularidade
|
N = 4 (7,0%)
|
N = 2 (10,5%)
|
|
Não,
pois as informações são restritas
|
0,0%
|
0,0%
|
|
Não,
pois há grandes dificuldades no dia a dia
|
N = 1 (1,7%)
|
N = 3 (15,8%)
|
Quadro 7
– Conhecimento e atualização na área de atuação
* pergunta com possibilidade de múltiplas
escolhas
8. A maioria das organizações têm dificuldades na captação de recursos.
Entretanto, as organizações sem acesso ou uso precário pesquisadas
têm mais dificuldades na captação de recursos. A dificuldade
no acesso e no uso das novas tecnologias, pode aumentar a
possibilidade de que as organizações sem fins lucrativos sejam
preteridas na captação de recursos. A falta de informação
de onde, como e com quem captar recursos pode dificultar ainda
mais esse aspecto que é fundamental para esse tipo de organização.
|
Quanto
à captação de recursos
|
Com acesso
|
Sem acesso ou uso precário
|
|
Tem
uma certa facilidade para obter os recursos
|
N = 1 (1,7%)
|
0,0%
|
|
Tem
uma certa dificuldade, mas consegue captar
|
N = 27 (47,4%)
|
N = 4 (21,0%)
|
|
Enfrenta
grandes desafios na captação de recursos
|
N = 28 (49,1%)
|
N = 14 (79,0%)
|
Quadro 8
– Captação de recursos
9. Há uma tendência de reconhecimento em relação ao trabalho realizado
entre as organizações com acesso à internet.
Destaca-se o reconhecimento local entre as organizações sem
acesso ou uso precário. Pode-se argumentar que uma organização
de pequeno porte, que tenha uma atuação local, não necessite
das tecnologias de comunicação e informação. Porém, as organizações
sem fins lucrativos, assim como outras organizações, necessitam
de atualização permanente e que, além disso, o fato de ser
conhecida/reconhecida, pode facilitar um processo dinâmico
e permanente de desenvolvimento a partir do melhor conhecimento
da sua área de atuação.
|
A organização
é conhecida/reconhecida*
|
Com acesso
|
Sem acesso ou uso precário
|
|
Em
nível internacional
|
N = 24 (42,1%)
|
N = 2 (10,5%)
|
|
Em
nível nacional
|
N = 28 (49,1%)
|
N = 7 (36,8%)
|
|
Pela
comunidade local
|
N = 27 (47,4%)
|
N = 17 (89,5%)
|
|
É pouco
conhecida/reconhecida
|
N = 10 (17,5%)
|
N = 1 (5,3%)
|
|
Não
é conhecida/reconhecida
|
N = 2 (3,5%)
|
N = 1 (5,3%)
|
Quadro 9
– Conhecimento e reconhecimento
* pergunta com possibilidade de múltiplas
escolhas
6.
Considerações
finais
A tecnologia pode estar a serviço
de uma razão substantiva, permitindo dessa forma, um melhor
aproveitamento do conhecimento acumulado pela humanidade.
É preciso, entretanto, relembrar o óbvio: a mesma tecnologia
que pode ser utilizada para promover o bem-estar social, pode
estar a serviço das organizações criminosas, como a máfia,
o narcotráfico, o contrabando, entre outras. A tecnologia
em si não é boa nem má, muito menos neutra. Os usos e as suas
dinâmicas, especialmente quanto ao seu aspecto coletivo, devem
ser um motivo de reflexão permanente.
Castells (1999, p. 26) relembra o
processo histórico das tecnologias e a sua influência na sociedade:
“(...) a habilidade ou inabilidade de as sociedades dominarem
a tecnologia e, em especial, aquelas tecnologias que são estrategicamente
decisivas em cada período histórico, traça o seu destino a
ponto de podermos dizer que, embora não determine a evolução
histórica e a transformação social, a tecnologia (ou a sua
falta) incorpora a capacidade de transformação das sociedades,
bem como os usos que as sociedades, sempre em um processo
conflituoso, decidem dar ao seu potencial tecnológico”. De
fato, as ONG’s no Brasil, por exemplo, ficaram de “fora” nas
principais discussões e decisões sobre o FUST, Fundo de Universalização
dos Serviços de Telecomunicações, e foram vistas apenas como
meras executoras de tarefas. Essa situação é apenas uma ilustração
de um processo que é conflituoso e que está apenas no seu
início.
De acordo com Pitassi e Leitão (2002,
p. 1): “(...) a tecnologia não é capaz de determinar nada
por si só, pois é utilizada dentro de um contexto político-ideológico
mais amplo”. O a priori tecnológico é um a priori político na medida em que a transformação
da natureza tem como conseqüência a do homem, e em que “as
criações derivadas do homem” brotam de uma totalidade social
e a ela retornam. Pode-se insistir que o universo tecnológico
é indiferente perante os fins políticos. Um computador com
acesso à internet,
por exemplo, pode estar a serviço de terroristas, assim como
em benefício de uma campanha de combate ao analfabetismo.
No entanto, se a técnica se transforma na forma predominante
da produção material, define então uma cultura inteira; e
projeta uma totalidade histórica, ou seja, um “mundo” (Habermans,1968).
A visão reificante da TCI não tem,
a rigor, nada de novo. Os usos e aplicações da TCI quase sempre
servem para ampliar as atuais formas de dominação e de submissão
do ser humano à lógica produtivista e ao consumismo. Há que
se desmitificar o conjunto de crenças e valores que visam
à manutenção de uma ordem social dominada pelo economicismo,
o uso funcional e utilitário das tecnologias, findando a ilusão
de um progresso técnico inevitável. De acordo com a sociologia
crítica das organizações, há um enfoque na distorção e no
estreitamento do discurso histórico provocados pela unificação
de interesses e segmentos sociais e pela absoluta dominação
da racionalidade instrumental. As questões práticas da vida
organizacional são transformadas em questões técnicas, e a
tecnologia, então, passa a ser um meio de controle (Pitassi
e Leitão, 2002).
Contraditoriamente, a alta fragmentação
nas ações e sobreposição de esforços, baixo nível técnico
na gestão administrativa, recursos limitados e escassos, a
dificuldade na formação de redes e modelos colaborativos entre
as organizações sem fins lucrativos e o desequilíbrio e concentração
de recursos em poucas organizações pode ser acentuado ainda
mais com a inclusão digital, pois é provável que a concentração
de recursos, poder e informação, presentes na lógica de mercado
e exacerbado pelo acesso e uso das novas tecnologias, seja
uma dinâmica em curso entre as organizações sem fins lucrativos.
Segundo Castells (1999, p. 386): “as pessoas moldam a tecnologia
para adaptá-la a suas necessidades.” Continua o autor: “A
comunicação mediada por computadores (CMC) não substitui outros
meios de comunicação nem cria novas redes: reforça os padrões
sociais existentes.” Finaliza o autor: “(...) seu impacto
cultural mais importante poderia ser o reforço potencial das
redes sociais culturalmente dominantes...”
Segundo Castells (1999, p. 23): “os
movimentos sociais tendem a ser fragmentados, locais, com
objetivo único e efêmeros, encolhidos em seus mundos interiores
ou brilhando apenas um instante em um símbolo da mídia.” Complementa
o autor: “(...) a fragmentação social se propaga, à medida
que as identidades tornam-se mais específicas e cada vez mais
difíceis de compartilhar.” Nesse sentido, a “inteligência
coletiva” proposta por Lévy (2000) entre as organizações sem
fins lucrativos é, com efeito, apenas uma utopia, mas que,
ao mesmo tempo, acende e alimenta a esperança de que a solidariedade
praticada por essas organizações possa ser disseminada também
entre elas, ou seja, que o trabalho destas organizações esteja
cada vez mais a serviço de uma causa mais ampla na direção
de uma transformação social, de valores e conceitos e não
apenas de um resultado pontual e particular.
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| *
Edson Sadao Iizuka, mestrando em administração
pública e governo na FGV-EAESP, pesquisa o assunto da
exclusão digital em organizações sem fins lucrativos desde
2000. Interessou-se pelo tema no período que trabalhou
no Centro de Voluntariado de SP e, desde então, vem pesquisando
e debatendo esse assunto em seminários, palestras e eventos.
É professor da FECAP-SP e consultor em empresas, governo
e terceiro setor. |