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A Exclusão Digital e as Organizações Sem Fins Lucrativos da cidade de São Paulo:

Um Estudo Exploratório

Edson Sadao*

 

Resumo: O presente artigo pretende analisar a exclusão digital em algumas organizações sem fins lucrativos da cidade de São Paulo. A exclusão digital, entre as diversas possibilidades de definição, pode ser entendida como o não acesso e o não uso da internet. As organizações sem fins lucrativos trabalham, em sua maioria, com pessoas que estão à margem da sociedade, ou seja, com uma parcela da população que está excluída socialmente. Estas organizações estão assumindo, ao longo dos anos, um papel cada vez mais relevante nas questões sociais. A exclusão digital, em boa parte dos estudos e artigos analisados, é vista como um problema, assim, por conseqüência, a inclusão digital como solução. Entretanto, pergunta-se: inclusão digital para quê? Percebe-se, num discurso dominante, que o uso das novas tecnologias, em especial a internet, é uma espécie de “passaporte” para um emprego ou mesmo para uma gestão mais eficiente das organizações. Esta perspectiva utilitarista, porém, limita uma compreensão mais ampla sobre o assunto. Pretende-se, assim, iniciar uma reflexão sobre os efeitos coletivos da tecnologia, assim como a questão substantiva sobre o acesso e uso da internet.

 

1.      Introdução

 

O tema do presente artigo é a exclusão digital que é definido, para efeitos deste estudo, como: o não acesso e não uso da internet. Busca-se uma reflexão sobre o fenômeno da exclusão digital a partir de uma pesquisa exploratória realizada entre as organizações sem fins lucrativos da cidade de São Paulo. Parte-se do referencial da exclusão social para analisar a exclusão digital, verificando-se as suas semelhanças e distinções. Além disso, almeja-se organizar algumas definições sobre as organizações sem fins lucrativos, com o intuito de analisar as organizações selecionadas nesta pesquisa.

 

A tecnologia, especialmente ao que se refere ao acesso e uso da internet, tem se apresentado, para alguns especialistas, como um meio rápido e eficiente para melhorar a gestão das organizações. Abre-se o espaço para imaginar uma nova empresa que negocia com o mundo, sem barreiras geográficas em que o tempo torna-se relativo; vislumbra-se, por outro lado, governos capazes de oferecer mais e melhores serviços aos cidadãos, de uma forma mais transparente e participativa. Verifica-se, entretanto, que uma boa parcela da população nunca utilizou um computador, quanto menos acessou a internet. Apesar da esperança gerada em torno das novas tecnologias, verifica-se que elas estão sendo aplicadas para melhorar as condições econômicas das camadas sociais mais beneficiadas pelo sistema social vigente. Em outras palavras: em geral, as tecnologias, em especial a internet, estão a serviço de uma lógica de mercado e não da solidariedade e cidadania.

 

O crescimento da internet, fato relatado na maioria dos relatórios e pesquisas, pode recair numa extrapolação ingênua de que com o atual ritmo de expansão da internet, toda a população estaria conectada até 2006. Isso é praticamente impossível: boa parte da população mundial, muito provavelmente, não terá tido acesso à alfabetização ou a linhas telefônicas. É preciso distinguir a expansão, com a massificação, assim como a democratização no acesso e uso das novas tecnologias (Lafis, 1999). Nesse sentido, Castells (1999, p. 52) ressalta: “(...) a velocidade de difusão tecnológica é seletiva tanto social quanto funcionalmente”.

 

A acentuação de um desenvolvimento desigual, com um aumento nítido na concentração de poder e renda, pode ser radicalizada ainda mais pela chamada exclusão digital. Esse é o raciocínio básico sobre a questão: sem o acesso e uso da internet, pode-se excluir ainda mais a população pobre e as camadas mais fragilizadas como os portadores de necessidades especiais, os idosos, os jovens, índios, entre outros. Entretanto, as pessoas com educação, poder aquisitivo e um bom nível sócio-cultural estariam “fora” da chamada exclusão digital? Ter dinheiro para comprar um computador e conectá-lo à internet é apenas um dos fatores que influenciam a inclusão digital, mas não é o único e, talvez, nem o mais importante.

 

Percebe-se em muitos autores ligados à Tecnologia de Informação e Comunicação (TCI) um certo fascínio com as “novas formas de pensar e fazer” a partir da tecnologia. A “sociedade do conhecimento” ou a “economia da informação” trazem a promessa, implícita ou explícita, de que resolverá os problemas da humanidade. Nesse sentido, alguns “tecnólogos” defendem que o acesso universal à internet pode garantir as melhorias nas condições sociais, a paz mundial, enfim, influenciar um rumo melhor à humanidade. Menou (1999) diz: “a fascinação pela tecnologia e pela novidade, associada com os enormes investimentos e previsões de lucros ainda maiores, contribuiu para a crença dominantemente afirmativa de que as Tecnologias de Informação e, portanto, a Internet são boas, essenciais e positivas”.

 

A perspectiva utilitarista ou instrumental da TCI reduz a compreensão do entendimento da natureza da informação, da linguagem e da comunicação, e isso, entre outras coisas, pode dificultar a reflexão sobre o processo de implantação das tecnologias nas organizações. A informação é uma representação simbólica e formal de fatos e idéias, potencialmente capaz de alterar o estado do conhecimento, ou seja, a simples transmissão de informação objetiva, preconizada pela visão dominante inspirada na engenharia, é suprimir o sentido e o significado da comunicação. O que as pessoas vêem da realidade à sua volta depende do que elas estejam preparadas para ver, e esta percepção é, em grande parte, transmitida pelos pressupostos embutidos na linguagem, um traço cultural de cada comunidade (Pitassi e Leitão, 2002).

 

A exclusão digital está inserida num contexto amplo e complexo de outras formas de exclusão social. Entender as suas relações, correlações e até mesmo algumas de suas raízes parece ser algo oportuno e necessário. Quais características diferenciam a exclusão digital das formas “tradicionais” de exclusão social? Em que medida ela se insere como problema e/ou solução? Nessa direção, a reflexão acerca de uma “inteligência coletiva”, a partir do uso de novas tecnologias, proposta por Lévy (2000) parece ser uma alternativa a ser pensada e analisada em maior profundidade.

 

Opta-se estudar os efeitos da exclusão/inclusão digital nas organizações sem fins lucrativos por alguns motivos: trata-se de um conjunto de organizações na sociedade que trabalha, em geral, com questões de interesse coletivo e social; são essas as organizações que lidam com um público potencialmente excluído (social, econômico, político, etc.) e que se estiverem excluídas podem gerar uma cadeia ainda maior de exclusão; estas mesmas organizações são as que têm sido valorizadas, às vezes de forma exagerada, na ação social, tanto por parte do Estado, como pelas empresas, mas que nem sempre recebem os recursos e atenção devida; elas representam uma boa parcela da chamada sociedade civil, inclusive quanto aos anseios, desejos e necessidades; apesar de um aumento na visibilidade das mesmas, poucos estudos e pesquisas acadêmicas, especialmente no Brasil, foram realizados.

 


2. Exclusão social – algumas considerações

 

O crescimento dos sem-teto e a ampliação da pobreza urbana suscitaram a discussão sobre exclusão social na Europa. A falta de emprego e de perspectivas a médio e longo prazos, principalmente das minorias étnicas e imigrantes, causavam um sentimento de revolta na população em geral (Rogers, 1995). O esforço para definir o que é exclusão social, termo que, em geral, é utilizado de forma indiscriminada e aberta a múltiplas interpretações, faz-se necessário para uma maior clareza da sua extensão e a sua importância no contexto atual. Para Paugam, autor citado no livro de Pedro Demo (1998, p. 37), por exemplo: “(...) a exclusão social não passaria de um ‘conceito-horizonte’, que aglutina um tipo de preocupação social atual, sem maiores rigores analíticos”.

 

O termo exclusão pode levar ao raciocínio do “estar fora”, assim como o termo inclusão, o antônimo de exclusão, a idéia de “estar dentro”. Essa visão dualista, simplificada do termo exclusão, todavia, é muito mais complexa. Ninguém está totalmente fora ou dentro, são múltiplas as possibilidades; a própria relação dialética, defendida por alguns autores, que vêem na exclusão uma forma de inclusão e vice-versa. A tentativa de isolar alguma forma de exclusão é, com efeito, uma maneira de buscar o entendimento de determinadas situações, mas ao mesmo tempo, limita-se a possibilidade de uma compreensão dinâmica do que é ou não é exclusão. Demo (1998, p. 105), por exemplo, ressalta a sua visão dialética da exclusão social: “quem não consegue entender que a exclusão é uma forma de inclusão, ou seja, uma maneira de exercer uma função dialética no sistema, não percebeu ainda o que significa dialética na história. O que mais a exclusão social escancara é a luta desigual, a concentração de privilégios, a repartição injusta dos espólios de uma sociedade falida”.

 

Dupas (2000, p. 20), nessa mesma direção, chama a atenção para o processo dinâmico entre exclusão e inclusão, argumentando que um indivíduo pode estar excluído em algumas dessas categorias e incluído em outras. Por exemplo: um indivíduo pode estar excluído do mercado formal de trabalho mas não da possibilidade de garantir a sua sobrevivência no mercado informal; ou ainda, excluir-se de algo por estar incluído em outro: se um jovem começa a trabalhar cedo demais, provavelmente irá excluir-se da possibilidade de uma formação que lhe dê direito a concorrer às melhores vagas no mercado.

 

Há uma certa dificuldade em saber, com exatidão, o que é exclusão social. Entretanto, é possível contar os excluídos? Ainda nesse sentido: é interessante saber o número de excluídos? Há diversos critérios para tentar contar os excluídos, por exemplo: renda per capita, IDH (índice de desenvolvimento humano), número de desempregados de longa duração, entre outros. Ou seja, dependendo do critério, pode-se incluir ou excluir milhares de pessoas. Convém, porém, considerar a reflexão de Rosanvallon (1998, p. 154) que pondera o seguinte: “não é importante ‘contar’ os excluídos. Isso não permite tê-los como objeto de ação social. O importante é, em primeiro lugar, analisar adequadamente as trajetórias que conduzem às situações de exclusão, que resultam sempre de um processo particular”. Se as pessoas tiveram caminhos diferentes para chegar ao estado de exclusão social, é natural que tenham perspectivas distintas para saírem dessa condição.

 

De acordo com Castel (1998), a exclusão seria imóvel, ao denotar estados de privação, enquanto que o conceito de desafiliação procura valorizar os processos que geram aquela situação, designando um percurso, não só uma ruptura. Castel (1998, p. 568-569), além disso, reconhece que não há uma separação entre os que estão dentro ou estão fora e, além disso, alerta para uma possível “gangrena” e uma desestabilização da sociedade, ou seja, para ele, a exclusão social é uma questão de todos: “(...) não há ‘in’ e ‘out’, mas um continuum de posições que coexistem no mesmo conjunto e se ‘contaminam’ umas às outras. Continua o

autor: “(...) a exclusão não é uma ausência de relação social, mas um conjunto de relações sociais particulares da sociedade tomada como um todo”. Em suma, é preciso analisar os processos e as relações de exclusão e não apenas o fato em si, ou seja, a dinâmica pela qual as pessoas foram levadas à esse estado.

 

A associação entre pobreza e exclusão social, ainda que pertinente, pode induzir a uma conclusão precipitada de que é uma relação única, exclusiva e inquestionável. Que a pobreza e as condições precárias de vida acentuam os problemas sociais, não há dúvida, isso não quer dizer, contudo, que a exclusão social se limita a isso. Com as transformações do mercado e a precarização nos empregos formais, por exemplo, boa parte das pessoas que não são pobres está excluída das oportunidades de emprego disponíveis. Há outros exemplos: pessoas que perderam as suas famílias, ou seja, excluídas da convivência familiar; imigrantes que não falam a língua local e não conseguem se estabelecer na comunidade; pessoas que têm renda, mas que são excluídas do consumo de produtos e serviços de luxo, entre outros.

 

A exclusão social não se restringe à questão da igualdade de renda, trabalho, direitos e deveres, mas também do respeito às diferenças no modo de vida, na cultura de um povo, diversidade política e religiosa, etc. Nesse sentido, pode-se utilizar a teoria dos grupos, conforme citação de Jordan no livro de Pedro Demo (1998, p. 41): “o que é necessário é uma teoria que explique como grupos se organizam, e, acima de tudo, como pessoas com poucos recursos, ou enfrentando altos riscos, alcançam êxito em tais interações sociais. Em outras palavras, uma teoria da pobreza e da exclusão social é necessariamente uma teoria econômica de grupos exclusivos (como pessoas interagem em relação com seus riscos econômicos, capacidades e recursos).”

 

3. A exclusão digital

 

O termo exclusão digital (digital divide) tem a sua origem em meados da década de 1990 com a publicação de um artigo de Jonathan Webber e Amy Harmon no jornal Los Angeles Times em 1995, de acordo com Larry Irving da Irvinfo.com; Andy Carvin da Benton Foundation diz que no início de 1996 houve uma declaração do então presidente dos EUA Bill Clinton e do vice-presidente Al Gore em que ambos citam o termo digital divide num discurso realizado em Knoxville, Tennessee.

 

De acordo com a OCDE (2001), a exclusão digital refere-se à distância entre indivíduos, famílias, empresas e regiões geográficas em diferentes níveis sócio-econômicos com respeito, simultaneamente, às suas oportunidades de acesso às tecnologias de informação e comunicação (TCI’s) e o uso da internet para uma ampla variedade de ações e atividades. Há outras formas para definir a exclusão digital: uma delas remete à distância entre os que estão fazendo uso das novas tecnologias e os que não estão, de acordo com Robert Anthony (2000) e Wallys W. Conhaim (2000); de acordo com John N. Berry III (2000), refere-se ao abismo de informações existente entre os que têm acesso às novas tecnologias e os que estão alijados desse processo. Para Silveira (2001, p. 18): “a exclusão digital ocorre ao se privar as pessoas de três instrumentos básicos: o computador, a linha telefônica e o provedor de acesso.” O autor ressalta que a exclusão digital não é mera conseqüência da exclusão social.

 

De fato, a exclusão digital não é uma conseqüência direta da exclusão social, apesar do fato de estar excluído socialmente em termos de renda, educação e emprego, entre outros, acaba interferindo negativamente na exclusão digital. Faz-se, assim, necessária uma distinção entre as duas formas de exclusão, pois há uma certa semelhança entre elas: a exclusão digital não está restrita ao fator renda (apesar de ser limitada por ela), algumas pessoas, ainda que com renda compatível para o acesso e uso da internet, por exemplo, não faz uso das novas tecnologias por opção ou até mesmo por desconhecimento e repulsa (Lenhart, 2000); a questão geracional (Tapscott, 1999) é um fator que interfere no processo de inclusão/exclusão digital. Percebe-se que entre os mais jovens a absorção da TCI é muito mais rápida se comparada com as camadas da população com mais idade; a educação é um dos fatores limitantes ao acesso e uso das novas tecnologias (OCDE, 2001), não saber ler em inglês, por exemplo, impede o uso de boa parte das informações presentes na internet (OCDE, 2001); a exclusão digital está diretamente ligada à infra-estrutura de comunicação, como por exemplo, telefone, provedores, aparelhos, etc., em outras palavras, pode-se ter as condições e a predisposição para o uso das novas tecnologias, mas sem uma infra-estrutura mínima não há como ter acesso e muito menos o uso das novas tecnologias (Lafis, 1999). Em suma, múltiplos fatores, em variados contextos, impedem ou dificultam o processo de inclusão digital.

 

Por outro lado, a exclusão digital é tratada de forma semelhante à exclusão social, havendo inclusive uma associação entre elas: muitos projetos e iniciativas de inclusão digital defendem uma perspectiva de capacitação técnica para aumentar o poder de competitividade das pessoas por um emprego - percebe-se que uma forma de inclusão baseada na lógica de mercado, ou seja, a tecnologia sendo utilizada para um aperfeiçoamento profissional. Fala-se também num processo de alfabetização digital, em bases semelhantes ao processo de combate ao analfabetismo. Os discursos e análises relativas ao tema recaem, quase sempre, na questão da pobreza e da miséria, ou seja, da mesma forma como na exclusão social, busca-se explicar o fenômeno da exclusão digital baseada na falta de renda; esquecem-se, porém, os componentes culturais e sociais, focando-se demasiadamente no fato em si, e não no processo e na dinâmica que excluem as pessoas e as organizações no acesso e uso das tecnologias. Como conseqüência quase que imediata, almeja-se saber “quantos são os que estão excluídos do mundo digital”, o que ocorre em boa parte das análises de pobreza e exclusão social, porém a dificuldade no critério, assim como a própria necessidade de se contar ou dimensionar a exclusão digital ainda estão sendo debatidos.

 

Há uma certa predominância em olhar a questão da exclusão digital como problema, ou seja, a inclusão digital como solução. Vale, porém, uma reflexão semelhante ao que o economista Amartya Sen (2001) faz da desigualdade (o autor faz uma pergunta central: igualdade de quê): inclusão digital para quê? Numa perspectiva capitalista e dos seus valores e princípios que são dominantes na atualidade, vê-se na exclusão digital um problema de inclusão social via mercado, pois sem estar incluído digitalmente, fica ainda mais difícil conseguir um emprego ou até mesmo manter-se empregado. Cria-se, assim, uma expectativa de que ao fazer um curso de informática ou atualizar-se em ferramentas tecnológicas, haverá uma oportunidade de emprego em troca. Essa é uma promessa no mínimo perigosa e até mesmo irresponsável, pois quem pode garantir que uma capacitação em tecnologia seja um passaporte para o mundo do trabalho?

 

Castel (1998) faz a ressalva de que devido ao crescente número de desempregados e conseqüente precarização do mercado de trabalho é possível que haja uma situação de não-empregabilidade dos qualificados. Para o autor, o aumento de escolaridade e a capacitação não são garantias de emprego. Demo (1998, p. 103) reforça a crítica ao discurso da empregabilidade: “(...) uma preparação melhor para o trabalho e mesmo permanente para o emprego acaba facilitando a informatização, com conseqüente redução da presença física do trabalhador e barateamento do custo dos mais especializados”. Em que pesem os argumentos de que as novas tecnologias vêm abrindo novas oportunidades de trabalho, é preciso perceber que o volume de empregos formais disponível é menor que o número de pessoas que querem entrar no mercado.

 

A revolução da tecnologia e a sua presença em todas as esferas de atividade humana, por um lado, não implica que novas formas e processos sociais sejam conseqüências da transformação tecnológica. Segundo Castells (1999, p. 25): “é claro que a tecnologia não determina a sociedade. Nem a sociedade escreve o curso da transformação tecnológica, uma vez que muitos fatores, inclusive criatividade e iniciativa empreendedora, intervém no processo de descoberta científica, inovação tecnológica e aplicações sociais, de forma que o resultado depende de um complexo padrão interativo.” Dowbor (2000, p. 10), fala sobre um momento de incertezas em relação às novas tecnologias de comunicação e informação: “O que é visível nesta transformação, é sem dúvida apenas a ponta do iceberg. Estamos vivendo os primeiros momentos de um processo que já podemos identificar como extremamente profundo nas suas repercussões, mas cujas formas ainda mal vislumbramos. O essencial, para nós, é deixar claro que a revolução radical nas formas como a humanidade desenvolve, organiza, comunica e utiliza o conhecimento implica numa transformação das próprias bases da sociedade, inclusive do que chamamos de modo de produção”.

 

Dowbor (2000, p. 15) cita um estudo do World Information Report da Unesco: “A falta de acesso democrático à informação significativa implica na dificuldade do cidadão exercer os direitos humanos de forma geral. Neste sentido o acesso à informação deve ser universal, público e gratuito. A cultura é um bem universal, essencial da nossa humanidade”. A partir disso, verifica-se a possibilidade de construção de uma inteligência coletiva, que é definida por Lévy (2000, p. 28): “é uma inteligência distribuída por toda a parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva de competências.” O autor complementa a sua definição, ressaltando o que ela não é: “não se deve, sobretudo, confundi-la com projetos ‘totalitários’ de subordinação dos indivíduos a comunidades transcendentes e fetichizadas.”

 

3.1 – Uma breve discussão sobre acesso e uso das novas tecnologias

 

A questão relacionada ao acesso é mais simples se comparado ao uso. Uma linha telefônica, um computador e um provedor, por exemplo, são elementos suficientes para acessar a internet. A questão do uso, entretanto, pode ser bem mais complexo: pode-se usar a internet para diversão, trocar mensagens e pesquisar; o uso da internet pode ir além – pode-se usá-la para formar ou reforçar uma rede entre organizações, fortalecer campanhas, disseminar novos conhecimentos, ou seja, o uso da internet com fins coletivos tem um potencial para a construção de uma inteligência coletiva. O exemplo dos “funcionamentos” de Amartya Sen (2001, p.15), definidos como: “estados e ações que uma pessoa consegue realizar vivendo de algum modo”, ou seja, os diferentes usos do mesmo objeto servem como um meio para reflexão no caso das tecnologias.

 

Toma-se o exemplo das rádios comunitárias para ilustrar a questão do uso das tecnologias. As rádios comunitárias inserem em sua programação a música Rap, popular entre os jovens das periferias. Este tipo de música que, em geral, traz algum tipo de protesto social, não faz parte da programação das rádios comerciais. O Rap não seria tocado, muito provavelmente, em uma escala mais abrangente se não fossem as rádios comunitárias. As músicas internacionais, por outro lado, em geral, não fazem parte do repertório das rádios comunitárias.

 

O aparato tecnológico utilizado pelas rádios comunitárias é praticamente o mesmo dos empreendimentos comerciais, o que muda, são os fins e de como os ingredientes tecnológicos são utilizados. As comunidades pobres e da periferia querem, assim como qualquer outro cidadão, ter acesso aos meios de comunicação, assim como às informações e de algo que tenha sentido e que faça parte das suas vidas. A internet, que é um meio de comunicação e informação, pode ser entendida como um direito e não apenas como algo meramente instrumental e utilitarista.

 

3.2 Alguns números sobre a exclusão digital

 

Os números, dados e estatísticas, por si sós, podem escamotear uma realidade, mais do que esclarecer. Entretanto, no caso da exclusão digital, apresentam-se alguns números que podem ser úteis no sentido de um diagnóstico. Os números a seguir denunciam uma situação assimétrica de acesso às novas tecnologias; ressalta-se, além disso, que ao se considerar simultaneamente o uso das mesmas, a situação para a maioria das pessoas nos países pobres pode ser ainda mais desigual.

 

Segundo a OCDE, os 24 países mais ricos do mundo, apesar de abrigarem apenas 15% da população mundial, concentram 71% de todas as linhas telefônicas. Alguns dados e informações que ilustram a dimensão da exclusão digital na América Latina: enquanto nos Estados Unidos cada 682 habitantes entre mil possuem telefone fixo, no Haiti este número é de apenas 8 e no Uruguai 271. A média na América Latina é de 131 aparelhos. A língua também é um obstáculo para o uso da Internet. Mais da metade – 52% – das páginas disponíveis estão em inglês, enquanto apenas 5,69% estão em espanhol e 2,81% em português. Um mesmo computador é, em média, utilizado por 5 a 10 pessoas. O alto preço impede um número maior de máquinas. Enquanto um norte-americano compra um aparelho com o salário referente a duas semanas de trabalho, o equatoriano leva seis meses (Léon, 2001).

 

No Brasil, segundo o IBGE, em 2000 havia de 10 a 20 usuários de informática a cada 100 mil habitantes. A região sudeste concentra 58% dos provedores de acesso, sendo que 12% estão na cidade de São Paulo e 8% na cidade do Rio de Janeiro. Apenas 6% dos municípios brasileiros (5.500 ao todo), pouco mais de 300 cidades, têm uma infra-estrutura mínima necessária para que possam ser instalados serviços locais de acesso à internet.


O telefone é um meio de comunicação que está ao alcance, segundo a ONU, de pouco mais de 20% da população mundial e isso nunca foi tratado como um problema. A “exclusão telefônica”, ao contrário da digital, não teve uma repercussão. Talvez porque o telefone, público ou privado, fixo ou celular, seja visto como uma espécie de privilégio e não sob o ponto de vista do direito ao acesso a comunicação. Entretanto, a falta de infra-estrutura nas telecomunicações faz parte dos limitadores para a expansão da internet, especialmente nos países pobres e em desenvolvimento.

 

4. As organizações sem fins lucrativos

 

Há diversos termos para referir-se às organizações sem fins lucrativos: organizações não governamentais, organizações da sociedade civil, entidades sociais ou filantrópicas, organizações voluntárias privadas, etc. Cada qual destaca algum aspecto, como por exemplo: que elas não fazem parte do Estado, ou que se baseiam em trabalho voluntário, ou ainda que a sua origem é na sociedade civil, ou até mesmo que o seu caráter é filantrópico e assistencial. Isso reflete, em certa medida, um desacordo sobre o que é exatamente uma organização que não faz parte do Estado ou do mercado, 1º e 2º setores, respectivamente, e que não segue, pelo menos em tese, as lógicas governamentais e empresariais.

 

Numa tentativa de compreender as organizações sem fins lucrativos, diz-se que são as que têm recursos privados para fins públicos, diferente das empresas que têm recursos privados para fins privados e dos governos que têm recursos públicos para fins públicos. Sabe-se, entretanto, que a maioria das organizações sem fins lucrativos, especialmente no caso brasileiro, recebem recursos públicos, ou seja, a definição apresentada não corresponde à realidade dessas organizações. Há outras definições possíveis, mas verifica-se que todas elas têm as suas limitações teóricas e que o seu debate está longe de um fim.

 

No Brasil o termo “ONG” é o mais “popular” para denominar as organizações sem fins lucrativos, apesar de não ser um conceito universal e consensual. De acordo com Tenório (1999, p. 11), as organizações não-governamentais: “(...) caracterizam-se por serem organizações sem fins lucrativos, autônomas, isto é, sem vínculo com o governo, voltadas para o atendimento das necessidades de organizações de base popular, complementando a ação do Estado. Têm suas ações financiadas por agências de cooperação internacional, em função de projetos a serem desenvolvidos, e contam com trabalho voluntário. Atuam através da promoção social, visando a contribuir para um processo de desenvolvimento que supõe transformações estruturais da sociedade. Sua sobrevivência independe de mecanismos de mercado ou da existência de lucro.”

 

Na América latina as ONG’s surgem com muita força nas décadas de 1960 e 1970. Apoiadas por diferentes agências internacionais, elas apareciam como força política de oposição ao autoritarismo, defendendo assim a democracia e favorecendo a participação dos excluídos com uma total autonomia com relação ao Estado e fazendo uma política inovadora vinculada aos movimentos sociais emergentes como os da mulher, os de direitos humanos, ecologia, associações de bairros e outros. (Thompson in Ioschpe, 1997). No Brasil, o termo “ONG” surge na década de 1970, com uma ênfase inicial de cunho político centrado no discurso da esquerda (Fernandes in Ioschpe,1997). Atualmente o termo ganhou nova conotação passando a se intitular também de “organizações da sociedade civil”, OSC’s, se distinguindo não apenas do Estado mas também do mercado, apresentando-se agora como uma espaço próprio de participação de todos atores sociais, nas mais diversas causas coletivas.

 

Há um discurso (questionável) de que as organizações sem fins lucrativos sejam mais eficientes que o Estado, assim como assumindo um papel cada vez mais relevante no trato das questões sociais. Entretanto, Benevides (2001, p. 6) ressalta a importância do Estado no cumprimento da sua função social: “É importante deixar claro que a participação cidadã em entidades da sociedade civil não significa aceitar a diminuição do papel do Estado – este continua sendo o grande responsável pelo desenvolvimento nacional com a garantia efetiva dos direitos dos cidadãos.”

 

Dowbor (1996, p.8) faz um comentário acerca do espaço ocupado pelas organizações sem fins lucrativos: “(...) Outro espaço que está surgindo com força é o espaço do conhecimento comunitário. Trata-se de uma área até hoje fundamentalmente trabalhada pelas Organizações Não Governamentais de diversos tipos, organizações religiosas e outras, cuja importância tem sido sistematicamente subestimada. Não se trata de aprovar ou não este tipo de iniciativas, e sim de constatar que se elas se desenvolvem com tanto dinamismo, é que há um vazio não preenchido.”

 

5.      A exclusão digital nas organizações sem fins lucrativos de São Paulo: um estudo exploratório

 

O universo da pesquisa refere-se às organizações sem fins lucrativos, sediadas na cidade de São Paulo. As organizações sem fins lucrativos pesquisadas caracterizam-se pela sua diversidade em termos de ação, atuação, porte organizacional, fontes de recursos, estratégia de trabalho, entre outros. Para os fins desta pesquisa, busca-se compreender a exclusão digital nas organizações sem fins lucrativos, ou seja, não se quer, assim, aprofundar o tipo de organização em si; busca-se compreender os efeitos das novas tecnologias nestas organizações.

 

A pesquisa foi planejada, numa primeira etapa, em dois passos principais: num primeiro momento foi montado um banco de dados a partir de 8 diferentes bancos de dados. As fontes consultadas foram: RITS, Rede de Informações do Terceiro Setor; ABONG, Associação Brasileira de ONG’s; CVSP, Centro de Voluntariado de São Paulo; PMSP, Prefeitura Municipal de São Paulo; catálogo de entidades sociais da Tertio Millenium; e os sites www.filantropia.org; www.terceirosetor.org.br e www.meioambiente.org.br. Ao todo, foram localizados pouco mais de 1.700 organizações, sendo que algumas delas estavam presentes em mais de um banco de dados (314, correspondendo à aproximadamente 18,5% do total), esse foi o indício de articulação utilizado para escolher as organizações a serem pesquisadas (ainda que modesto, estar presente em mais de um banco de dados, foi um critério objetivo encontrado para iniciar o trabalho).

 


Presença nos bancos

Nº de organizações

Percentual

 

6

3

0,18%

Universo das organizações selecionadas

5

5

0,29%

4

32

1,87%

3

77

4,49%

2

196

11,44%

1

1401

81,74%

 

TOTAL

1714

100,00%

 

Quadro 1 – presença das organizações nos bancos de dados consultados

 

Na própria formação do banco de dados, algumas informações foram obtidas: 40,2% (688) destas organizações têm e-mail e 19,45% (333) têm sites; 41,7% captam recursos pela internet e apenas 25,2% captam ou promovem o voluntariado nos seus sites. Para verificar a utilização dos sites visitou-se os 333 localizados. Além disso, de acordo com os dados analisados, há indícios de que usar a internet facilita a comunicação das organizações sem fins lucrativos com outras organizações, ou seja, a internet é um meio que pode ser utilizado para a articulação, pois há uma tendência entre aparecer nos diversos bancos de dados e utilização da internet; por outro lado, não há relação entre a data da criação das ONG's com o uso da internet. Estas informações estão muito próximas à realidade verificada entre as organizações sem fins lucrativos da América Latina. Para as organizações que possuem site próprio a presença na web é importante para fortalecer sua representatividade pública e aprimorar as relações externas. A Internet não é a ferramenta tecnológica mais utilizada, mas sim o e-mail. Ele permite uma forma eficaz de comunicar as principais atividades da organização e é considerado um instrumento útil na troca de experiências para atuação em rede (Léon, 2001).

 

Para um aprofundamento das informações mencionadas elaborou-se dois questionários: um para aquelas que têm maior facilidade no acesso e uso da internet e um outro para as que não têm acesso às novas tecnologias ou têm um acesso, mas com uso precário. Considera-se “uso precário” o não uso de computadores, internet, e-mail ou site institucional. Nestes questionários procurou-se identificar 3 aspectos principais: a) sobre a organização, b) sobre o acesso e uso da internet e c) a governança destas organizações. As principais informações obtidas foram:

 

1. Entre as organizações sem fins lucrativos pesquisadas, as que têm acesso à internet (conjunto de 57 organizações) são maiores em termos de recursos orçamentários, mão-de-obra voluntária, número de pessoas atendidas se comparadas com as que não têm acesso ou um uso precário das tecnologias (conjunto de 18 organizações). Isso, de certa forma, era esperado, pois a dimensão organizacional é um dos fatores que influencia o acesso e uso de novas tecnologias. Entretanto, as organizações sem acesso ou uso precário têm um maior índice de certificados de utilidade pública que as organizações com acesso, 83,33% a 71,93%, respectivamente, ao contrário do que se imaginava inicialmente. As organizações que responderam à pesquisa foram:

 

A) Organizações sem acesso, sem uso ou uso precário:

 

1.       Associação Esportiva da Divisão de Reabilitação do Hospital das Clínicas

2.       Centro de Estudos e Assistência à Família - CEAF

3.       Resgate Voluntário

4.       Centro de Convivência Jardim Ubirajara

5.       Movimento Pró-idosos MOPI

6.       Centro Educacional e Profissional Vinícius

7.       Creche Pedro Apóstolo

8.       A.A.E.B. - Associação de Amigos dos Excepcionais do Brooklin

9.       Casa José Coltro

10.   Acorde - Associação Comunitária Jardim Independência

11.   APADE - Associação de Pais e Amigos de Portadores de Deficiência

12.   ARCO Associação Beneficente

13.   Associação Lar Cristo Rei Menino

14.   Centro Social São José

15.   Movimento de Apoio à Integração Social

16.   Coordenação Regional das Obras de Promoção Humana – CROPH

17.   Associação SOS Saúde Mental de São Paulo

18.   Centro de Assistência Social e Promocional de Vila Alpina

 

B) Organizações com acesso e uso

 

1.       5 Elementos – Instituto de Educação e pesquisa Ambiental

2.       A Alternativa Associação de Assistência ao Excepcional

3.       Abrigo dos Velhinhos Frederico Ozanam

4.       Ação da Cidadania São Paulo S/C

5.       ADefAV Associação para Deficientes da Áudio Visão

6.       ARCA BRASIL- Assoc. Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal

7.       Arrastão Movimento de Promoção Humana

8.       ASCCI - Ação Solidária Contra o Câncer Infantil

9.       Associação dos Cavaleiros da Soberana Ordem de Malta de SP e Brasil Meridional

10.   Associação Arte Despertar

11.   Associação Brasileira de Pedestres - ABRASPE

12.   Associação Brasileira dos Familiares e Amigos dos Portadores da Síndrome de Rubinstein-Taybi

13.   Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças

14.   Associação Carpe Diem

15.   Associação Cristã de Casais – Vila Acalanto

16.   Associação de Apoio à Crianças com Câncer

17.   Associação de Apoio a meninas e Meninos da Região Sé

18.   Associação Educacional Labor

19.   Associação Instrutora da Juventude Feminina – Instituto Sedes Sapientiae – Clínica Psicológica

20.   Associação Pró-Excepcionais Kodomo-no-sono

21.   Associação Rodrigo Mendes

22.   Banco de Alimentos – Sociedade Civil sem fins lucrativos

23.   Carminha Associação para Reabilitação do Excepcional

24.   Centro Brasileiro de Análise e Planejamento - CEBRAP

25.   Centro de Assistência e Promoção Social Nosso Lar

26.   Centro de Voluntariado de São Paulo

27.   Centro dos Hemofílicos do Estado de São Paulo

28.   Centro Social Brooklin Paulista

29.   Centro Social de Parelheiros

30.   Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto

31.   Centro Social Nossa Senhora do Rosário

32.   CIAM Centro Israelita de Assistência ao Menor

33.   Cooperativa Educacional e Assistencial Casa do Zezinho

34.   Divisão de Medicina de Reabilitação

35.   Doutores da Alegria – Arte, Formação e Desenvolvimento

36.   Fraternidade Irmã Clara

37.   Fundação Francisca Franco

38.   Fundação Julita

39.   Fundação Victor Civita

40.   Instituição Paulista Adventista de Educação e Assistência Social

41.   Instituto Beneficente Cultural José Kentenich

42.   Instituto de Apoio à Criança e ao Adolescente com Doenças Renais - ICRIM

43.   Instituto Iniciação Formação e Capacitação Profissional Daniel Comboni

44.   ISSP - Centro Juvenil Salesiano Dom Bosco

45.   Lar mãe do Divino Amor

46.   Legião da Boa Vontade

47.   MAESP - Movimento de Assistência aos Encarcerados Estado de SP

48.   Moradia Associação Civil – Casa Taiguara

49.   Movimento de Prevenção aos Riscos Urbanos

50.   Movimento Voto Consciente

51.   Núcleo Assistencial Afrânio Hingel Pinto - Casa do Amparo

52.   Programa Social Gotas de Flor com Amor

53.   Projeto Quixote

54.   Promove Ação Sócio Cultural

55.   Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

56.   Seara Bendita Instituição Espírita

57.   Sociedade Cultural Missões Quilombo

 

2. Entre as organizações sem acesso ou com um uso precário, não possuem computadores 22%, o mesmo índice para os que não têm acesso à internet; 33% não utilizam e-mail e 78% não têm sites. O principal motivo para o não uso das tecnologias é, segundo as organizações pesquisadas, o custo e a falta de pessoal qualificado para trabalhar. É muito provável que o motivo apresentado seja na realidade um indício de desinformação, principalmente se considerarmos que há diversos serviços gratuitos de e-mail e site no mercado.

 

3. Percebe-se uma maior valorização da internet entre as organizações com acesso. Há, contudo, uma percepção de que a internet é fundamental também entre as organizações sem acesso ou uso precário. O valor percebido pelas organizações pode estar influenciado pelo “bombardeio” publicitário e artigos que abordam as tecnologias como algo importante e que trazem benefícios a quem as utiliza.

 

A internet é:

Com acesso

Sem acesso ou uso precário

Fundamental

N = 45 (79%)

N = 10 (61%)

Importante, mas não essencial

N = 11 (19%)

N = 7 (33,5%)

Pouco importante

0%

N =1 (5,5%)

Sem resposta

N = 1 (2%)

0%

Quadro 3 – Percepção sobre o uso da internet

 

4. As organizações sem acesso ou uso precário pesquisadas demonstram uma percepção de que estão defasadas em relação às novas tecnologias, principalmente computadores e internet, pois 94,5% (18 das 19 organizações participantes da pesquisa) dizem estarem pouco ou parcialmente atualizadas. Inversamente, as organizações que têm acesso pesquisadas, percebem-se atualizadas: 95% (54 de 57 organizações) estão plenamente ou parcialmente atualizadas.

 

O gestor e a sua organização estão:

Com acesso

Sem acesso ou uso precário

Plenamente atualizados

N = 17 (30%)

 N = 1 (5,5%)

Parcialmente atualizados

N = 37 (65%)

N = 9 (50%)

Pouco atualizados

N = 3 (5%)

N = 8 (44,5%)

Quadro 4 – Percepção sobre a atualização em relação às novas tecnologias

 

5. Há uma maior diversidade de parcerias, convênios e alianças entre as organizações com acesso. Por outro lado, percebe-se uma certa tendência, entre as organizações sem acesso ou uso precário, de parceria com o governo. Sob a ótica da “inteligência coletiva”, percebe-se que o uso da internet pode influenciar positivamente a construção de conhecimentos e troca de informações, ou seja, existe um potencial para que as organizações sem fins lucrativos possam crescer a partir dos seus conhecimentos e experiências, trazendo, assim, benefícios contínuos que podem ser compartilhados entre elas.

 

Mantém convênios, parcerias e alianças com*

Com acesso

Sem acesso ou uso precário

Organizações da mesma área

N = 39 (68,4%)

N = 6 (31,6%)

Fundações

N = 31 (54,4%)

N = 9 (47,4%)

Governo

N = 38 (63,2%)

N = 14 (73,7%)

Organizações internacionais

N = 29 (51,0%)

N = 4 (21,0%)

Empresas

N = 39 (68,4%)

N = 6 (31,6%)

Não tem

N = 1 (1,7%)

N = 1 (5,2%)

Quadro 5 – Convênios, parcerias e alianças                          * pergunta com possibilidade de múltiplas escolhas

 

6. Com relação à qualidade no relacionamento das organizações sem fins lucrativos com seus parceiros, verifica-se, entre as organizações pesquisadas, que existe um certo descontentamento das organizações sem acesso ou uso precário, enquanto que, ao contrário, as organizações com acesso demonstram estar mais satisfeitas nessa relação, conforme quadro abaixo:

 

Qualidade na relação com os apoiadores*

Com acesso

Sem acesso ou uso precário

Excelente, com processo participativo

N = 25 (43,9%)

N = 5 (26,3%)

Bom, com algumas restrições

N = 30 (52,6%)

N = 7 (36,8%)

Bom, mas apenas formal

N = 5 (8,8%)

N = 4 (21,0%)

Poderia ser melhor, sofre imposições

N = 4 (7,0%)

N = 3 (15,8%)

Ruim, aquém das expectativas

0,0%

N = 1 (5,2%)

Quadro 6 – Qualidade na relação com os apoiadores                        * pergunta com possibilidade de múltiplas escolhas

 

7. As organizações com acesso pesquisadas consideram-se mais atualizadas, o inverso acontece com as que não têm acesso ou uso precário, conforme quadro abaixo:

 

Quanto ao conhecimento e atualização na área de atuação*

Com acesso

Sem acesso ou uso precário

Está atualizada, colabora com outras organizações

N = 35 (61,4%)

N = 6 (31,6%)

Está atualizada, pois participa de eventos na área

N = 27 (47,4%)

N = 7 (36,8%)

Está atualizada, mas poderia estar melhor

N = 15 (26,3%)

N = 12 (63,1%)

Em termos, não há regularidade

N = 4 (7,0%)

N = 2 (10,5%)

Não, pois as informações são restritas

0,0%

0,0%

Não, pois há grandes dificuldades no dia a dia

N = 1 (1,7%)

N = 3 (15,8%)

Quadro 7 – Conhecimento e atualização na área de atuação             * pergunta com possibilidade de múltiplas escolhas

 

8. A maioria das organizações têm dificuldades na captação de recursos. Entretanto, as organizações sem acesso ou uso precário pesquisadas têm mais dificuldades na captação de recursos. A dificuldade no acesso e no uso das novas tecnologias, pode aumentar a possibilidade de que as organizações sem fins lucrativos sejam preteridas na captação de recursos. A falta de informação de onde, como e com quem captar recursos pode dificultar ainda mais esse aspecto que é fundamental para esse tipo de organização.

 

Quanto à captação de recursos

Com acesso

Sem acesso ou uso precário

Tem uma certa facilidade para obter os recursos

N = 1 (1,7%)

0,0%

Tem uma certa dificuldade, mas consegue captar

N = 27 (47,4%)

N = 4  (21,0%)

Enfrenta grandes desafios na captação de recursos

N = 28 (49,1%)

N = 14 (79,0%)

Quadro 8 – Captação de recursos

 

9. Há uma tendência de reconhecimento em relação ao trabalho realizado entre as organizações com acesso à internet. Destaca-se o reconhecimento local entre as organizações sem acesso ou uso precário. Pode-se argumentar que uma organização de pequeno porte, que tenha uma atuação local, não necessite das tecnologias de comunicação e informação. Porém, as organizações sem fins lucrativos, assim como outras organizações, necessitam de atualização permanente e que, além disso, o fato de ser conhecida/reconhecida, pode facilitar um processo dinâmico e permanente de desenvolvimento a partir do melhor conhecimento da sua área de atuação.

 

A organização é conhecida/reconhecida*

Com acesso

Sem acesso ou uso precário

Em nível internacional

N = 24 (42,1%)

N = 2 (10,5%)

Em nível nacional

N = 28 (49,1%)

N = 7 (36,8%)

Pela comunidade local

N = 27 (47,4%)

N = 17 (89,5%)

É pouco conhecida/reconhecida

N = 10 (17,5%)

N = 1 (5,3%)

Não é conhecida/reconhecida

N = 2 (3,5%)

N = 1 (5,3%)

Quadro 9 – Conhecimento e reconhecimento                        * pergunta com possibilidade de múltiplas escolhas

 

6.      Considerações finais

 

A tecnologia pode estar a serviço de uma razão substantiva, permitindo dessa forma, um melhor aproveitamento do conhecimento acumulado pela humanidade. É preciso, entretanto, relembrar o óbvio: a mesma tecnologia que pode ser utilizada para promover o bem-estar social, pode estar a serviço das organizações criminosas, como a máfia, o narcotráfico, o contrabando, entre outras. A tecnologia em si não é boa nem má, muito menos neutra. Os usos e as suas dinâmicas, especialmente quanto ao seu aspecto coletivo, devem ser um motivo de reflexão permanente.

 

Castells (1999, p. 26) relembra o processo histórico das tecnologias e a sua influência na sociedade: “(...) a habilidade ou inabilidade de as sociedades dominarem a tecnologia e, em especial, aquelas tecnologias que são estrategicamente decisivas em cada período histórico, traça o seu destino a ponto de podermos dizer que, embora não determine a evolução histórica e a transformação social, a tecnologia (ou a sua falta) incorpora a capacidade de transformação das sociedades, bem como os usos que as sociedades, sempre em um processo conflituoso, decidem dar ao seu potencial tecnológico”. De fato, as ONG’s no Brasil, por exemplo, ficaram de “fora” nas principais discussões e decisões sobre o FUST, Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações, e foram vistas apenas como meras executoras de tarefas. Essa situação é apenas uma ilustração de um processo que é conflituoso e que está apenas no seu início.

 

De acordo com Pitassi e Leitão (2002, p. 1): “(...) a tecnologia não é capaz de determinar nada por si só, pois é utilizada dentro de um contexto político-ideológico mais amplo”. O a priori tecnológico é um a priori político na medida em que a transformação da natureza tem como conseqüência a do homem, e em que “as criações derivadas do homem” brotam de uma totalidade social e a ela retornam. Pode-se insistir que o universo tecnológico é indiferente perante os fins políticos. Um computador com acesso à internet, por exemplo, pode estar a serviço de terroristas, assim como em benefício de uma campanha de combate ao analfabetismo. No entanto, se a técnica se transforma na forma predominante da produção material, define então uma cultura inteira; e projeta uma totalidade histórica, ou seja, um “mundo” (Habermans,1968).

 

A visão reificante da TCI não tem, a rigor, nada de novo. Os usos e aplicações da TCI quase sempre servem para ampliar as atuais formas de dominação e de submissão do ser humano à lógica produtivista e ao consumismo. Há que se desmitificar o conjunto de crenças e valores que visam à manutenção de uma ordem social dominada pelo economicismo, o uso funcional e utilitário das tecnologias, findando a ilusão de um progresso técnico inevitável. De acordo com a sociologia crítica das organizações, há um enfoque na distorção e no estreitamento do discurso histórico provocados pela unificação de interesses e segmentos sociais e pela absoluta dominação da racionalidade instrumental. As questões práticas da vida organizacional são transformadas em questões técnicas, e a tecnologia, então, passa a ser um meio de controle (Pitassi e Leitão, 2002).

 

Contraditoriamente, a alta fragmentação nas ações e sobreposição de esforços, baixo nível técnico na gestão administrativa, recursos limitados e escassos, a dificuldade na formação de redes e modelos colaborativos entre as organizações sem fins lucrativos e o desequilíbrio e concentração de recursos em poucas organizações pode ser acentuado ainda mais com a inclusão digital, pois é provável que a concentração de recursos, poder e informação, presentes na lógica de mercado e exacerbado pelo acesso e uso das novas tecnologias, seja uma dinâmica em curso entre as organizações sem fins lucrativos. Segundo Castells (1999, p. 386): “as pessoas moldam a tecnologia para adaptá-la a suas necessidades.” Continua o autor: “A comunicação mediada por computadores (CMC) não substitui outros meios de comunicação nem cria novas redes: reforça os padrões sociais existentes.” Finaliza o autor: “(...) seu impacto cultural mais importante poderia ser o reforço potencial das redes sociais culturalmente dominantes...”

 

Segundo Castells (1999, p. 23): “os movimentos sociais tendem a ser fragmentados, locais, com objetivo único e efêmeros, encolhidos em seus mundos interiores ou brilhando apenas um instante em um símbolo da mídia.” Complementa o autor: “(...) a fragmentação social se propaga, à medida que as identidades tornam-se mais específicas e cada vez mais difíceis de compartilhar.” Nesse sentido, a “inteligência coletiva” proposta por Lévy (2000) entre as organizações sem fins lucrativos é, com efeito, apenas uma utopia, mas que, ao mesmo tempo, acende e alimenta a esperança de que a solidariedade praticada por essas organizações possa ser disseminada também entre elas, ou seja, que o trabalho destas organizações esteja cada vez mais a serviço de uma causa mais ampla na direção de uma transformação social, de valores e conceitos e não apenas de um resultado pontual e particular.

 

6. Referências bibliográficas

 

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* Edson Sadao Iizuka, mestrando em administração pública e governo na FGV-EAESP, pesquisa o assunto da exclusão digital em organizações sem fins lucrativos desde 2000. Interessou-se pelo tema no período que trabalhou no Centro de Voluntariado de SP e, desde então, vem pesquisando e debatendo esse assunto em seminários, palestras e eventos. É professor da FECAP-SP e consultor em empresas, governo e terceiro setor.

 


 

 

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