A técnica a serviço
da aproximação com os doadores:
Marketing de relacionamento nos Doutores da Alegria
Por
Iêda Alcântara* e Rodrigo Alvarez**
Criar
e implantar uma organização sem fins lucrativos
não é tarefa fácil. Tarefa mais difícil,
entretanto, é mantê-la, ganhar a credibilidade da
comunidade e conquistar indivíduos e empresas que acreditem
na sua missão e que estejam dispostos a colaborar com recursos
para a sua realização.
Com
os Doutores da Alegria não aconteceu diferente. Passadas
as dificuldades iniciais, em 1994 conquistamos a Itaú Seguros
como patrocinador. A partir daí, percebemos que o trabalho
estava só começando. Como os recursos vinham quase
100% de um patrocinador, tínhamos uma situação
instável. Resolvemos, então, nos lançar na
conquista de indivíduos e empresas dispostos a investir
nos Doutores da Alegria.
Nessa
época, Wellington Nogueira, diretor executivo dos Doutores
da Alegria, dizia que "se preocupava mais em receber R$ 10
de uma pessoa do que R$ 100 mil de uma empresa, porque da empresa
é difícil esquecer, mas se não fôssemos
organizados, seria muito fácil esquecer dos indivíduos".
Então, desde 1996 criamos um estrutura responsável
por gerenciar o relacionamento com os investidores dos Doutores
da Alegria.
Hoje,
seis anos depois de muito aprendizado e de uma mistura de técnica
com intuição, percebemos a necessidade de ampliar
e reforçar os vínculos com nossa carteira de doadores
e parceiros, de forma mais profissional e organizada, estabelecendo
um novo patamar de performance das ações de relacionamento
que resulte em níveis mais altos de conhecimento, proximidade
e fidelidade dos investidores.
Para
tanto, colocamos aos nossos serviços os conceitos, metodologias
e ferramentas disponíveis do marketing de relacionamento.
Elaboramos um plano de trabalho que considera os objetivos e metas
de curto, médio e longo prazo dos Doutores da Alegria.
E
assim foi feito. Definimos nossa estratégia - aumentar
a carteira de doadores pessoa física e jurídica,
incrementar o valor médio de doação e reduzir
os cancelamentos. Considerando as nossas necessidades e recursos
disponíveis, estabelecemos claramente as etapas do trabalho.
Uma
coisa pra nós continua importante: a técnica e a
ciência são instrumentos para que nunca nos esqueçamos
daquela pessoa que nos doa R$ 10.
Vamos
partilhar com você o nosso aprendizado.
1.
Por onde começar?
O
melhor começo é sempre fazer um mapeamento da situação
atual da operação.
Avalie
e revise seus processos, o que você faz e como faz. Liste
o passo a passo da sua operação a partir do primeiro
contato com o indivíduo ou empresa potencial. Descreva
as ações previstas para cada situação
que envolva o relacionamento com o doador (ex: envio de comunicação,
cobrança, atrasos na doação, cancelamentos,
etc).
Faça
um levantamento de onde estão as informações
sobre o doador ou pessoas que se relacionam com a organização
e a qualidade destes dados. Analise o lay-out, formato, volume
e conteúdo dos campos.
Avalie
seu processo atual de captura e armazenamento de informações.
Quais dados estão sendo capturados, quem captura e em que
situação? Onde eles estão sendo guardados
e qual o nível de atualização?
Você
tem aproveitado as oportunidades em que sua organização
está em contato com públicos diversos para capturar
dados? Ainda não? Pois comece a pensar sobre isto.
Com
este diagnóstico concluído vai ser mais fácil
identificar e corrigir erros da operação e propor
alternativas para melhoria do processo.
2.
Que dados capturar e como armazená-lo?
Toda
organização tem públicos interessados na
sua existência. Isso é a base da sua sustentabilidade
financeira. Entender quem são estes públicos e quais
são seus interesses é fundamental. Lembre-se: ninguém
doa se não for solicitado!
A
palavra de ordem então é aprender mais sobre
os doadores e doadores potenciais. Para tanto é preciso
capturar e armazenar dados sobre eles.
Que
dados? Aqueles que fazem diferença e que são relevantes
no seu relacionamento com o doador. Procure ser objetivo e padronize
o máximo possível a entrada do dado através
de perguntas fechadas. Revise a sua ficha de cadastro ou filiação,
aquela impressa em seu material de divulgação, e
não se esqueça de treinar todas as pessoas responsáveis
pela captura da informação, tendo sempre em mente
que se "entra lixo, sai lixo".
Outro
ponto importante e que vale ser ressaltado. A gente fala com pessoas
e não com empresas! Tenha sempre o cuidado de capturar
o nome dos decisores e influenciadores no caso de doadores pessoa
jurídica.
Além dos dados cadastrais do doador, considere a necessidade
de armazenamento do histórico de contatos e participações
em campanhas de marketing e principalmente o histórico
de doações, os chamados dados transacionais (valor,
periodicidade, forma de pagamento, etc).
Portanto,
guarde as transações, doação por doação,
com a data, valor e doador devidamente identificados, além
da data de filiação (doador desde...) e de cancelamento,
se for o caso.
A
qualidade e integridade da informação são
fundamentais neste processo, programe rotinas e ações
para tratamento, atualização e enriquecimento dos
dados.
Marketing
de relacionamento pressupõe o suporte de um "marketing
database", um banco de dados que possibilita o armazenamento
e acesso mais flexível ao dado.
Comece
pequeno, você está aprendendo! O Access será
sempre uma ótima opção inicial. Maiores investimentos
em tecnologia só deverão ser considerados e passam
a ser rentáveis após resultados concretos e permanentes.
Se você não tiver familiaridade com o computador,
peça ajuda a um voluntário. Montar um banco de dados
não é tarefa difícil para um programador,
mas lembre-se antes de definir os dados a serem incluídos.
Se
sua organização ainda não tem computador,
faça uma ficha de cadastro e guarde-as. No futuro, quando
você adquirir um, terá apenas que digitá-las.
Mas não adie muito, seu trabalho de análise fica
comprometido se você não tiver um computador.
3.
Dado capturado. O que é que eu faço agora?
É
hora de transformar dado em informação, conhecimento
e inteligência a ser utilizada em benefício da sua
organização. Aqui se inicia o processo de conhecimento
da sua carteira de doadores - a análise do seu banco de
dados.
Os
doadores não são todos iguais e, portanto, merecem
tratamentos diferentes! Utilize o banco de dados para reconhecer
as diferenças e estabelecer relacionamentos personalizados,
rentáveis e de longo prazo. Por outro lado, doadores costumam
compartilhar características semelhantes. Segmente a sua
carteira considerando estas semelhanças.
Você
vai precisar identificar na sua organização, ou
recrutar voluntários, ou contratar, se for o caso, profissional
com capacidade para analisar dados, identificar problemas e oportunidades
e propor ações de marketing que resultem em conquista
de novos doadores e retenção ou fidelização
dos atuais.
A
análise das doações é fundamental
para a classificação da sua base de doadores através
do cálculo de alguns indicadores de performance. Nunca
se esqueça da seguinte lição: o seu melhor
doador será sempre aquele que doou mais recentemente, que
doa com freqüência e que doa valores mais altos.
Analise
sua operação! Calcule a taxa de retenção,
por segmento, ou seja, o percentual de doadores que permaneceram
doando um, dois, três ou mais anos após a filiação.
Este índice é fundamental para medir a efetividade
do seu relacionamento e da sua capacidade de ampliar e manter
a sua carteira.
Doadores
geram retornos diferentes, certo? Calcule então o LTV (life
time value), ou seja, o valor do doador ao longo da sua vida na
instituição. Este valor é fundamental para
definir o quanto investir na aquisição de prospects
com o mesmo perfil dos seus melhores doadores, na retenção
e ativação dos atuais e recuperação
dos inativos.
Gere
relatório analítico periódico que permita
detectar alterações de perfil ou de comportamento
da sua carteira de doadores. A variação dos indicadores
mercadológicos (valor médio da doação,
freqüência média das doações,
número total de doadores ativos, etc) ao longo do tempo
indicará acertos e erros em sua política de relacionamento
e conquista de novos doadores.
4. Como montar um programa de relacionamento?
Certamente
você já está se relacionando com seu doador,
mesmo que esteja simplesmente enviando um boleto bancário
ao final de cada mês.
Mas,
com banco de dados implantado e carteira devidamente analisada
e segmentada, não poderia haver melhor momento para você
rever e implantar uma nova estratégia de relacionamento,
contínua e eficiente, com sua base de doadores.
Defina
a freqüência e tipo de comunicação, por
categoria de doadores. Faça um planejamento e elabore um
cronograma de atividades que assegure o controle e envio da comunicação
nos prazos previstos. Isto é tarefa do dia a dia que exige
uma equipe bem treinada e compromissada com o resultado final.
Escolha o canal com melhor custo x benefício para se relacionar
com cada segmento e em cada situação:
Mesmo
depois de tudo isto alguns doadores vão cancelar ou simplesmente
parar de doar. Procure sempre saber o motivo do cancelamento,
capture esta informação e guarde-a de forma padronizada
para que você possa tabular e analisar o resultado. E lembre-se,
nem tudo está perdido, ele já foi sensibilizado
um dia pela sua missão. Programe um contato futuro, considerando
a situação atual do doador.
6.
Como ter certeza que estou no caminho certo?
Os
recursos geralmente são escassos, principalmente se tratando
de organizações do terceiro setor. O desafio é
aumentar as taxas de respostas das campanhas de marketing e reduzir
custos. Como fazer isto? Identificando com o maior grau possível
de precisão o seu problema/oportunidade e o público
que você deseja atingir.
Crie
o seu histórico de campanhas. Vai ser assim, testando e
analisando o resultado das suas ações e o perfil
dos respondedores, aprimorando a sua operação e
focando no público com maior probabilidade de retorno que
você vai maximizar os seus recursos.
À
medida que os resultados forem aparecendo você se sentirá
mais à vontade para destinar um percentual da receita incremental
obtida para suportar e ampliar a sua operação.
E
mais uma vez, não descuide do seu dado. Ele é seu
patrimônio e fator preponderante do sucesso da sua operação!
É
assim que nós, dos Doutores da Alegria, estamos implantando
e orientando o Programa de Relacionamento com a nossa base de
doadores, com a convicção de que estamos iniciando
um processo, e não um projeto, que exigirá empenho
e compromisso de toda a organização!
* Iêda Alcântara é
consultora de marketing de relacionamento e database marketing,
tendo atuado por 6 anos como gerente de projetos da Datasearch
- Grupo Ogilvy atendendo empresas de grande porte dos mais diversos
segmentos de mercado. Tem, também, atuação
na estruturação e gerenciamento de bancos de dados
para marketing; análise de dados mercadológicos;
definição de estratégias de conquista, retenção,
ativação e recuperação de clientes;
planejamento e implantação de campanhas mercadológicas
e programas de relacionamento/fidelidade.
**
Rodrigo Gonçalves Alvarez é coordenador do
departamento de Captação de Recursos dos Doutores
da Alegria desde 1996, onde desenvolve estratégias em busca
da sustentabilidade financeira do programa. É diretor de
Desenvolvimento Associativo da ABCR (Associação
Brasileira deCaptação de Recursos) e sócio
diretor da Três Consultoria e Treinamento, empresa de consultoria
especializada em apoiar organizações do Terceiro
Setor na construção de sua sustentabilidade financeira.