logoeditverde.GIF (6053 bytes)
Opinião

Artigos ou entrevistas com profissionais
de destaque na área

página inicial


Entrevista: Cleodon Silva

Cleodon Silva é técnico metalúrgico, fundador e atual coordenador do Instituto Lidas. Atuou durante 20 anos no movimento sindical - coordenou a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo/capital, foi dirigente da CUT Metropolitana e da CUT estadual/SP. Atualmente é profissional em geoprocessamento e em tecnologias de informações.

Cleodon está desenvolvendo uma experiência inédita, na qual utiliza técnicas de geoprocessamento e novas ferramentas da informática para viabilizar o fortalecimento da sociedade civil e uma melhor apropriação da cidade por parte dos cidadãos. O grande diferencial de seu trabalho, além da utilização de ferramentas modernas de informática, é sua proposta de uma nova divisão territorial da cidade de São Paulo. Segundo Cleodon, a atual divisão territorial da cidade de São Paulo em distritos não viabiliza uma apropriação do espaço pela população local, servindo de referência apenas para técnicos e estudiosos. Assim sendo, Cleodon foi um dos responsáveis pela proposta de criação das unidades de planejamento participativo.

Na entrevista que se segue você terá mais informações sobre como surgiu e o que é a unidade de planejamento participativo e como Cleodon Silva, com o apoio de uma organização não lucrativa (Casa dos Meninos), está implantando tal idéia e dando os primeiros passos no sentido de viabilizar uma melhor compreensão e apropriação do espaço pela população local.

Revista IntegrAção: Como surgiu a idéia das Unidades De Planejamento Participativo?

Cleodon Silva: Em 1995 a prefeitura de Belo Horizonte, com o apoio das equipes técnicas da Secretaria Municipal do Planejamento e da PUC/MG, desenvolveu o Índice de Qualidade de Vida (IQVU) para a cidade de Belo Horizonte. Foi neste trabalho (ver em: http://www.pbh.gov.br/smpl/iqvu/) que conheci o conceito de Unidade de Planejamento desenvolvido para BH naquele contexto. O que me chamou atenção foi o tamanho médio das áreas das unidades definidas.

Em 1992 acabava de ser aprovada na cidade de São Paulo a nova territorialização, que definia os distritos administrativos (ver em: http://www.lidas.org.br/novasp/index.html). Eu observei que o tamanho médio das áreas dos distritos era bem maior do que havia sido proposto em Belo Horizonte.

Em 1993, foi realizada a pesquisa Perfil da Criança e do Adolescente na Cidade de São Paulo (http://www.lidas.org.br/perfil/index.html), que utilizou como referência territorial a nova divisão distrital (uma vez que, os distritos já nasceram com consistência censitária correspondentes aos limites utilizados no censo de 1990). Todas as vezes que apresentei esta pesquisa em reuniões do movimento sindical ou popular, encontrei muitas dificuldades. Apesar da consistência dos dados e da precisão territorial percebia que os dados não eram tomados como suporte para elaboração de políticas e de planos de ação, porque ficavam distante da noção de localidade do cidadão comum. O sentimento de pertencimento fica numa área menor que o distrito, restringi-se a área de consumo cotidiano.

Naquele momento minhas reflexões se debatiam na busca de uma área que fosse referência concreta do pertencimento tipo: "Este é o meu pedaço!". Ao mesmo tempo, que fosse uma área de consistência censitária, quer dizer uma área que correspondesse a um conjunto de setores censitários (ver: http://www.lidas.org.br/upp/setcen.html).

Estas reflexões juntamente com minha luta de organização do movimento sindical e popular pela base colocavam a seguinte questão: como "produzir" uma área com bases censitárias que fornecesse suporte para um planejamento local elaborado, com uma efetiva participação dos sujeitos sociais imbuídos de sentimentos de pertencimento e de propriedade local?

A primeira parte do desafio foi basicamente resolvida pela pesquisa de origem e destino de 1997 do Metrô de São Paulo, uma ferramenta preciosa para o planejamento urbano (ver metodologia em: http://www.lidas.org.br/upp/metro/metro.htm). A área da pesquisa foi definida respeitando os limites dos setores censitários e dos distritos administrativos. Na capital foram definidas 270 áreas da pesquisa. Esta divisão aproveita todo o estudo que embasou a constituição dos distritos, supera os limites intraurbanos da cidade e acrescenta valor na medida que produz os conhecimentos sobre o tipo e o modo como a população se desloca entre estas áreas. Podemos afirmar que cada uma destas áreas mantém os principais elementos da heterogeneidade socioeconômica da região metropolitana e se aproximam sobremaneira da noção de localidade do cidadão comum.

Para propiciar o início do diálogo com os sujeitos sociais de uma destas áreas seria necessária a organização dos dados de uma forma que possibilitasse uma rápida visualização, ou seja, uma identificação territorial dos mesmos. Com o nosso domínio das tecnologias do georeferenciamento dos dados em bases cartográficas digitais e com algumas referências teóricas (ver: http://www.lidas.org.br/upp/refere.html) pudemos elaborar uma coletânea com dados disponíveis da região e iniciar um diálogo.

Revista IntegrAção: Como iniciou o projeto piloto da UPP 254?

Cleodon Silva: Iniciamos nossa intervenção na comunidade em dezembro de 1999. Ano pré-eleitoral e nesse momento já existiam os pré-candidatos a prefeitura da capital paulista. Mesmo conscientes de que dificilmente os pré-candidatos atenderiam nosso chamado fizemos questão de convidá-los e convidamos também os presidentes dos partidos políticos que nas eleições de 1996 obtiveram mais de mil votos na UPP-254, com o intuito de fornecer a todos a coletânea com os dados da região.

Esta decisão foi importante para deixar bem claro nossa determinação de trabalhar com todos, independentemente de sua filiação partidária, como também deixar claro que nossa iniciativa não era "invenção de político" em véspera de eleição.

Apresentamos o perfil da região e a coletânea com os principais elementos espaciais básicos: empresas, entidades e escolas. Foi apresentada a pesquisa 'Origem e Destino' e outros dados de interesse para os presentes. Como prevíamos as atividades no mês de dezembro já concorriam com as festas de final de ano e a presença foi pouca, porém cumpriu o objetivo de iniciar os entendimentos e construir uma agenda comum.

No segundo seminário, em fevereiro de 2000, já foi possível estabelecer alguns objetivos comuns. Pelos dados da pesquisa 'Origem e Destino' verificamos a existência de 22 mil jovens entre 7 e 21 anos. Pelo banco de dados fornecido pela Secretaria do Estado da Educação verificamos que, mesmo sendo praticamente igual o número de escolas municipais e estaduais, o número de vagas nas escolas estaduais era bem menor que o número de alunos das oitavas séries das escolas municipais. Este gargalo foi identificado como um nódulo que provoca um período fora da escola para muitos jovens da região, se constituindo num forte celeiro para o crime organizado. Naquele momento estávamos com a informação de que em um levantamento da evasão escolar feito numa das escolas municipais foram encontrados 25 jovens presos por furtos, que significa um por cento do efetivo da escola. Estas constatações e a presença majoritária de professores influíram para que os primeiros objetivos comuns se dessem na área da educação priorizando a intervenção entre os jovens das oitavas séries.

Coincidentemente, neste período a Casa dos Meninos recebeu um convite da Fundação Vitae para apresentar um projeto que priorizasse os jovens entre 14 e 17 anos e que contasse com uma parceria de uma ou mais escolas públicas da região. Mesmo com as dificuldades do período de férias, conseguimos estabelecer um processo de construção coletiva do projeto a ser enviado à Fundação. O objetivo foi a implantação de um centro de informática com os seguintes objetivos:

  • proporcionar às crianças e adolescentes de baixa renda conhecimento de novas tecnologias e ciências que lhes permitam a apropriação de espaços e serviços públicos e de bens culturais. Dominar sistemas de informação em geral e aos destinados aos jovens em sua cidade e, principalmente, em seu território, para que estes conhecimentos lhes sirvam como ponto de partida para sua inserção social consciente, crítica e integrada na comunidade.
  • construir um Sistema de Informação integrado com a Internet que preste serviços efetivos à juventude tornando-se uma referência no seu cotidiano.

A forma como foi construído o projeto permitiu sentirmos segurança para começar implantação independentemente da aprovação dos recursos da Fundação Vitae (meses depois saberíamos que nosso projeto não seria contemplado pela Vitae). A Casa dos Meninos juntamente com o Instituto Lidas, tomou a iniciativa de iniciar com oito jovens um curso de Informática e Cidadania, com o compromisso por parte dos jovens de que no início das aulas (março de 2000) eles iniciariam a reprodução deste curso para os jovens indicados pelas escolas participantes. Em abril, se iniciou o curso com 40 jovens, oito escolas indicaram cinco jovens. Os microcomputadores necessários ao curso foram encontrados no período ocioso dos laboratórios das escolas (inicialmente de três escolas participantes) e alguns micros na Casa dos Meninos.

Em síntese, em quatro meses a movimentação desses 48 jovens, juntamente com algumas entidades sociais e com diretores e alguns professores das escolas participantes, possibilitou a produção de relações que aos poucos foram se tornando mais efetivas, permitindo a aproximação de outros sujeitos sociais.

No ano de 2000, várias iniciativas tais como: o lançamento de um exemplar do jornal RETRATO DA UPP; a elaboração e execução de dois projetos premiados pelo Clik Educação e pelo Centro de Voluntariado de São Paulo; assim como, a realização de um significativo evento cultural Cultura no Feirão: 12 Horas de Alegria, que aproximou mais entidades e ampliou a divulgação da proposta na região.

Revista IntegrAção: Como vocês se organizaram?

Cleodon Silva: Esta é a parte mais difícil de explicar. Não temos sede, não temos telefone, não temos funcionários, não temos CNPJ, enfim não existimos institucionalmente. Mais ainda, não temos coordenador! Não temos votação!! Não temos uma maioria subordinando uma minoria! Não temos programa político!!!

No artigo que escrevi para o jornal Retrato da UPP utilizei duas metáforas. A primeira o vôo das andorinhas que numa revoada mantém uma harmonia de conjunto. A segunda, foi a da construção de um grande espelho sobre a UPP-254 onde todos pudessem se projetar e no mesmo momento que se dá à projeção individual é possível enxergar o conjunto e pelo movimento do conjunto o indivíduo se autodetermina na complexidade do todo. Estou em busca de fundamentos teóricos para esta utopia. Tenho me aproximado de algumas leituras que tratam da teoria da complexidade e cada vez mais aumenta minha disposição nesta direção onde tenho tentado tirar conseqüência prática destes novos conhecimentos.

Revista IntegrAção: Na prática, como funciona esta metáfora do "grande espelho"?

Cleodon Silva: Um exemplo seria o evento Cultura no Feirão: 12 Horas de Alegria, que foi uma expressão coletiva de várias entidades da UPP-254 onde pela primeira vez todos puderam se enxergar simultaneamente nos seus afazeres. Este evento abriu a possibilidade de todos se enxergarem ao mesmo tempo numa atividade que simultaneamente expunha as características individuais de todos e as relações estabelecidas, num fazer individual e coletivo, independente e interdependentes, visualizados por todos a todo tempo.

Pense junto comigo. Nós temos 22 escolas na UPP-254 pelo último cadastro da Secretaria de Estado da Educação, 8 municipais, 7 estaduais e 7 privadas. Quantos grupos de teatros nós temos neste universo? Quais as peças em exibição? Qual o conteúdo passado por estas peças? Quantos jovens estão envolvidos nesta expressão cultural? O conhecimento desta realidade e a possibilidade de um contato direto e reto com um ou com todos os grupos de teatros da UPP-254 nos dá a possibilidade de diálogo com um setor da juventude dinâmico agentes na comunidade com um nível de relações acima da média. Mais ainda, quantos professores acompanham esta atividade? Quem são e onde estão?

As atividades culturais, esportivas e de lazer são importantíssimas para aproximar e aquecer as amizades e promover o conhecimento mútuo - elas são atividades que "espelham" as pessoas e as práticas existentes no território. No entanto, não são suficientes e, espontaneamente, não criam um espaço comum de sedimentação das informações e saberes coletivos produzidos pelas relações no território. Vejamos o exemplo do evento Cultura no Feirão: 12 horas de alegria, durante a organização do evento foram solicitados várias competências, informações e conhecimentos sobre a região. Todas as atividades foram distribuídas entre os participantes. Hoje se fôssemos realizar o mesmo evento ou algo semelhante não teria registros dos caminhos utilizados e dos conhecimentos e informações requeridas para a realização do mesmo. De lá para cá várias pessoas saíram da região, entidades mudaram suas diretorias enfim teríamos que realizar o mesmo esforço.

Não existe um esforço coletivo organizado para sedimentar as informações e experiências coletivas para que sejam apropriadas a qualquer momento de forma universal. Este "esforço coletivo" não institucionalizado é o sonho que pretendemos "sonhar com todos".

Eu considero essencial a construção deste "espelho". A minha busca é procurar o que estou chamando de 'elementos espelhantes' onde todos possam estar enxergando todos a todo o momento.

Revista IntegrAção: Quais as condições estratégicas que propiciaram o início da experiência piloto da UPP 254?

Cleodon Silva: Algumas condições foram necessárias para dar início a experiência piloto (ver: htp://www.lidas.org.br/upp/index.html). A condição mais importante foi encontrar uma entidade comprometida com a transformação social que reunisse algumas condições bastante singulares, entre elas a confiança e a ousadia em levantar uma bandeira audaciosa. A Casa dos Meninos (ver: http://www.lidas.org.br/cm) foi a entidade que pela sua destemida busca de romper com as práticas sociais isoladas das entidades sociais, escolas e empresas encontrou nas nossas formulações iniciais a possibilidade de juntos construirmos um caminho onde a soma dos nossos esforços produzisse um resultado bem maior que a simples somatória das partes.
Para que isto fosse possível foram estabelecidos alguns princípios que norteariam nossa prática a partir do primeiro passo: nossas atividades são independentes de todos os partidos, igrejas ou qualquer organização corporativa; assumimos o compromisso de criar uma base comum de informações e saberes e estabelecer relações entre todos os sujeitos sociais da UPP-254 sem nenhuma restrição de classe social, de credos religiosos, de filiação partidária, de gênero, de cor ou de opção sexual; e, também, assumimos o compromisso de universalizar a base comum de informações e saberes, construída coletivamente.

Outras condições favoreceram a iniciativa, entre elas o fato da diretoria da entidade ser constituída majoritariamente de mulheres, donas de casa, sem pretensões explícitas de carreirismo político ou de constituição de trampolim para ascensão social, e também a inexistência de currais eleitorais de políticos ou de partidos políticos com forte atuação na entidade.

Revista IntegrAção: A implementação da UPP contou com a participação estratégica da Casa do Meninos, uma organização não-governamental. Mas será que não existem outros atores que poderiam tornar-se parceiros, como, por exemplo, uma entidade pública ou uma fundação empresarial?

Cleodon Silva: Devo salientar que este caminho ninguém faz sozinho - ele só pode ser feito por um coletivo. Acredito que podem ser vários os caminhos para iniciar um processo semelhante. Algum esforço inicial tem que ser feito. O mais importante não é o fazer e sim o como fazer. Veja a ironia do nosso começo. Quando apareceu a possibilidade de um financiamento por parte da Fundação Vitae aqueceu os ânimos dos participantes. Qual foi nossa postura diante desta expectativa? Iniciar o projeto mesmo com a possibilidade de não ser contemplado com o financiamento. Dois anos depois nosso projeto está em pé! Temos uma rede de computadores constituindo uma intranet na Casa dos Meninos, desenvolvemos uma ferramenta que, utilizando a internet, coloca todos os sujeitos sociais em reunião permanente na UPP. Enfim, às vezes tenho vontade de agradecer o não financiamento da Fundação Vitae naquele momento. Não é nenhuma questão de soberba ou preconceito, pois não conseguimos isto sozinhos, tivemos o apoio das empresas Dixtal, Proceda, Bayer, Bochs e Lilly que de diversas formas nos apoiaram neste processo. No entanto, o mais importante é a produção do espaço para se pensar JUNTO. Criando uma BASE COMUM DE CONHECIMENTO CIDADÃO. Eu acredito que é possível tanto uma entidade, um governo ou uma empresa iniciar este processo, mas ele só crescerá se for apropriado pôr todos. Qualquer tentativa de controle é morte certa neste processo.

Revista IntegrAção: A inovação deste projeto é sem dúvida a apropriação deste espaço territorial, UPP. Por que vocês escolheram atuar com informática e será que não poderiam ter desenvolvido esta atividade com outros grupos sociais?

Cleodon Silva: Acho que pode ser desenvolvido por qualquer grupo social que se aproprie destas concepções e metodologias. No entanto, neste momento histórico privilegiamos os jovens entre 15 e 21 anos. Estes jovens, majoritariamente localizados na periferia da cidade, filhos legítimos dos construtores desta metrópole, estão ávidos pelos seus espaços, ávidos por sair da exclusão a que foram submetidos e ávidos por dominar novas tecnologias. Nos próximos 10 anos a maioria adulta da população será formada por estes jovens de hoje. No entanto, apesar do nosso foco não negamos a iniciativa de outros grupos sociais.

Revista IntegrAção: Por último você considera esta apropriação da UPP viável a outras UPPs? Em quais regiões de São Paulo este tipo de projeto seria mais urgente?

Cleodon Silva: Acho perfeitamente viável. Este processo já tem início na Capela do Socorro por iniciativa do governo local e, na zona norte, nós estamos discutindo com a Fundação Gol de Letras a possibilidade de iniciarmos este processo.

Revista IntegrAção: Você está aberto a novos parceiros em outras UPPs para iniciar um projeto como este?

Cleodon Silva: Não falo somente por mim neste momento, mas por toda equipe do Instituto Lidas, que está aberta a novos parceiros.


indicebaixo.GIF (7256 bytes)

volta.GIF (382 bytes)