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Doador: características
principais e
possíveis preocupações
Rubens da Costa Santos*
Recentemente
participei da II Conferência Internacional de Captação
de Recursos promovida pela FGV/EAESP onde foram apresentados e discutidos
um interessante temário sobre a captação dos
necessários recursos em prol das organizações
do Terceiro Setor (OTS). A partir desses esforços as OTS
buscam viabilizar as ações sociais que desenvolvem
em diferentes campos e especialidades sociais. Convidado pelos organizadores
comentei as exposições em um dos módulos do
evento onde foram apresentadas as experiências e recomendações
de 3 destacados captadores de recursos junto a grandes doadores
para OTS. Resolvi preparar-me para o desafio pesquisando sobre o
assunto na literatura sobre captação de recursos,
grandes doadores e Terceiro Setor (TS). Este ensaio resulta dessa
busca.
Logo
percebi que os trabalhos disponíveis sobre esses temas ainda
são escassos e nenhum relatava um aspecto que despertou meu
interesse desde o início: características pessoais
do doador de recursos. De fato, não consegui encontrar um
único trabalho que abordasse especificamente o foco escolhido.
Os poucos autores nessa área relatam suas experiências,
estratégias e ações, geralmente bem sucedidas
de captação de grandes somas para importantes projetos
de OTS conhecidas. Oferecem uma lista de providências e atividades,
tipo receituário, para os interessados. Nesses trabalhos
localizei alguns indícios sobre as características
do doador propriamente dito.
Procurei
evitar o receituário e resolvi desafiar o cenário
padrão e elaborar algumas conjecturas. Duas razões
principais me levaram a essa decisão. Em primeiro lugar,
não sou um grande doador. Ou pelo menos não fui até
agora! De fato, minhas atividades no TS se caracterizam mais pela
minha crença e esforços de compartilhar a experiência
que venho acumulando nas áreas de marketing e planejamento
empresarial, particularmente com a realização de um
expressivo e variado conjunto de estudos sobre o comportamento do
consumidor em ampla gama de produtos e serviços. Acredito
que esse conhecimento é altamente necessário e válido
para a realidade das OTS podendo ser aplicado com os devidos ajustes
e cautelas às boas causas sociais. Por exemplo, desde os
anos 90 ajudei a criar um curso de formação gerencial
voltado profissionais para o TS, adaptei um conjunto de ações
marketing para o contexto social a partir dos conceitos e ferramental
clássicos de marketing, colaborei com Doutores da Alegria,
conhecida e premiada OTS, na criação de uma central
de doadores e ajudei o planejamento institucional de algumas OTS.
Mais recentemente participo das atividades do CETS da EAESP da Fundação
Getulio Vargas.
Em
segundo lugar, possuo reduzida e localizada experiência na
área de captação de recursos. De fato, participei
em 1997 da equipe de um interessante projeto de reciclagem profissional,
totalmente gratuito e com o patrocínio de um importante doador,
o Colégio Dante Alighieri. Esse projeto foi criado, coordenado
e implementado por uma equipe de professores e profissionais da
Fundação Instituto de Administração
da FEA/USP. Esse projeto prestou durante aquele ano o treinamento
a um expressivo número de moradores de uma importante região
da periferia de São Paulo. Apesar de ter um projeto bem arquitetado
e estruturado e, importante, com resultados concretos e altamente
favoráveis da fase piloto da proposta de treinar pessoas
desempregadas qualificando-as para atuar em áreas ou posições
em postos de trabalho demandantes, os esforços da equipe,
da qual fiz parte, foram infrutíferos. Vários meses
foram investidos para registrar a experiência, identificar
e contatar possíveis doadores para a obtenção
de recursos junto à comunidade empresarial para a continuidade
desse relevante projeto social. Infelizmente esses esforços
não surtiram o efeito desejado e o projeto foi descontinuado.
Eles demonstraram-se insuficientes para despertar o interesse de
possíveis doadores apesar dos predicados e realizações
efetivas da proposta de reciclar profissionais e a criatividade
e empenho da dedicada equipe responsável pela busca de recursos
adicionais.
Assim,
ao preparar-me para participar da referida conferência, escolhi
pesquisar aspectos da captação de recursos sob a ótica
do doador. Procurei responder as seguintes questões centrais
e especulativas sobre as atitudes e comportamentais do grande doador:
a) Quem é o grande doador e quais seriam suas características
pessoais marcantes? e
b) Quais seriam suas preocupações centrais na ante-sala
da decisão de uma grande doação?
Este
ensaio levanta possibilidades de respostas para essas questões
estratégicas tanto de interesse de OTS como de doadores.
Todavia, alerto o leitor desde já que este ensaio é
especulativo. Ele apresenta cenários possíveis elaborados
apoiados nas pesquisas feitas por este pesquisador. Assim, trata-se
de uma ficção, uma versão de respostas possíveis
às questões colocadas.
A
primeira questão busca esclarecer quem é o grande
doador. Para fins deste ensaio um grande doador é uma pessoa
sensível, inteligente, com ideais e motivações
humanitárias, com recursos (aqui entendidos no sentido amplo,
podendo envolver desde o mais tradicional recurso financeiro até
outras opções materiais, mentais e de tempo), que
reconhece ter chegado o tempo de assumir sua parte frente aos enormes
desafios sociais presentes na sociedade brasileira. Certamente esse
doador tem intenções e receios próprios.
É
bem possível que quatro premissas orientem o processo decisório
de uma pessoa que planeja doar, ou não, para uma causa social.
Elas serão apresentadas a seguir. A primeira premissa refere-se
ao número de alternativas a serem analisadas. Assume-se como
certo imaginar que esse número seja pequeno, bem reduzido.
É pouco provável ou mesmo impraticável que
um doador avalie todas ou quase todas alternativas possíveis
de doação. Tudo indica que o doador considere apenas
um conjunto bem selecionado de alternativas, algo como 5 ou 6 possibilidades
muito bem escolhidas de doação, para atender seu desejo
de contribuir para o bem social. Uma decorrência imediata
dessa premissa para as OTSs é conhecer quais os critérios
de escolha adotados pelo doador na seleção. Assim,
quais seriam essas poucas boas causas que despertam o interesse
do doador? Algumas pistas plausíveis podem ser consideradas.
Naturalmente o doador poderá já estar interessado
e participando de uma forma ou outra em alguma(s) área(s)
ou projeto(s) sociais. Neste ensaio especula-se que o indivíduo
revela em suas ações sociais cotidianas interesse
e prioridade maiores para esse ou aquele projeto ou área
social. Outras ações sociais serão preteridas
pelo doador potencial ou receberão dele prioridade e atenção
menores.
A
questão que se coloca para a OTS é descobrir e acompanhar
as ações cotidianas de seus doadores atuais e potenciais.
Possivelmente nesse elenco está aquela causa que receberá
prioridades e atenções maiores do grande doador. Mais
ainda é bem possível que, ao analisar o valor total
das doações feitas por uma pessoa e a participação
relativa de cada uma delas em relação ao total, apareça(m)
naturalmente aquela(s) pouca(s) merecedora(s) da preferência
maior do doador.
A
segunda premissa é que poucas alternativas serão consideradas
e uma ou mais serão escolhidas pelo doador. Mas, quais? Ademais
nada assegura que apenas uma receba a doação e novamente
surge a questão: Quais seriam aquelas causas que apresentam
chance maior de receber doações? Nesse contexto conhecer
as motivações e as doações realizadas
pelo indivíduo torna-se de elevada relevância para
qualquer OTS.
A
terceira premissa resultante da pesquisa e especulação
feitas para este ensaio, refere-se à necessidade de entendimento
das motivações que levam o possível doador
à ação. É possível que o doador
tome a decisão só ou não. No caso de não
tomar a decisão só poderá consultar outros
e ouvir, por exemplo, as opiniões de outros conhecidos, amigos,
familiares ou, até mesmo, de outros profissionais. Sendo
uma decisão compartilhada a questão que surge para
a OTS é a necessidade de conhecer quem será consultado
e o papel desempenhado por cada convidado para essa tarefa. Para
uma OTS surge o desafio de incluir em seu banco dados sobre o perfil
dos doadores e de cada um dos membros do grupo que poderá
estar sendo envolvido na tomada de decisão. Certamente um
desafio nada trivial!
Uma
quarta premissa refere-se ao que chamarei de ciclo de desenvolvimento
do doador. Sim, assume-se neste ensaio que o doador passe por fases
de um ciclo evolutivo: começa pequeno e, à medida
que entende e se encanta com a causa social, evolui no ciclo passando
a doar recursos mais expressivos para a OTS. Sendo plausível
essa premissa, nenhum doador começa sua carreira fazendo
uma doação expressiva. Os autores consultados para
este ensaio revelam claramente que um grande doador deve ser cultivado
pela organização que o acolhe. Ele surge doando recursos
em doses menores e valores de menor monta. Com isso, se aproxima
da OTS, conhece sua proposta social. Num momento seguinte essa pessoa
poderá dedicar-se mais intensamente para a causa seja com
a doação de recursos mais expressivos seja como um
voluntário mais presente, atuante e envolvido com a causa.
Isto é feito de forma cadenciada e progressiva, nunca de
uma só vez ou de forma abrupta ou inesperada.
Nesse
contexto, é quase certo que em todas causas sociais estejam
voluntários e doadores pequenos, que progressivamente poderão
tornar-se mais atuantes e importantes para a organização.
Num estágio avançado uns poucos membros desse grupo
poderão tornar-se doadores expressivos, oferecendo recursos
relevantes para a causa social. Nesse contexto, é bem possível
que muitas organizações desconheçam essas possibilidades
e pouco façam para conhecer seus voluntários e doadores
atuais embora já possuam em seu quadro de doadores aqueles
poucos que, num futuro próximo, possivelmente poderão
tornar-se ainda mais capazes e propensos para doar somas mais expressivas
para os projetos desenvolvidos pela organização.
Apresentadas
as quatro premissas, nesta segunda parte serão apontadas
sete possíveis preocupações do grande doador.
Esse conjunto contém aspectos ou preocupações
identificados na pesquisa empreendida que merecem a atenção
tanto de potenciais doadores como das organizações
que buscam despertar o interesse de possíveis doadores para
desenvolver suas ações sociais.
A
primeira preocupação chama a atenção
para as partes interessadas que algumas alternativas poderão
ser desconsideradas pelo doador por fugirem da política de
doações ou do perfil de interesses do mesmo. Essa
questão é particularmente relevante se o doador em
consideração for uma empresa ou fundação.
Assim sendo, a parte interessada deverá empreender esforços
específicos para identificar de antemão com quem estará
falando. Em se tratando de um empresário, por exemplo, a
OTS interessada deverá identificar se ele ou sua empresa
possuem uma política de investimentos sociais e quais os
possíveis impactos e restrições dessa política.
Uma
segunda preocupação do doador potencial refere-se
à questão do reconhecimento público da causa
e sua organização social. Algumas alternativas poderão
ser eliminadas pelo doador potencial por não serem devidamente
reconhecidas pelos poderes públicos. Assim sendo, a OTS interessada
deverá buscar as certificações junto às
autoridades públicas ou conquistar diferenciais relevantes
perante outras boas causas sociais que disputam os mesmos recursos.
Uma
terceira vertente de preocupação do doador potencial
quanto ao beneficiário direto do valor em questão.
Por exemplo, o doador poderá demonstrar interesse em saber
quem será o beneficiário direto da doação
e conhecer quais outras possibilidades ou alternativas existem para
atender esse beneficiário potencial. A OTS atenta para essa
questão poderá estar preparada e apresentar as alternativas
disponíveis para os beneficiários potenciais da ação
social que deseja empreender e realçar os pontos vantajosos
que possui em relação a cada uma das alternativas.
Duas possibilidades decorrem dessa questão:
a) quanto da doação irá direto para a ação
social? Ou seja, quanto vai para a ação principal
e quanto irá para a administração desse projeto
social? Imagina-se que um doador potencial poderá desinteressar-se
por uma causa em que grande parte do valor solicitado financiará
a parte administrativa da ação social ao invés
de ser alocado diretamente em benefício da ação
social propriamente dita e
b) como o valor será utilizado? Se o valor solicitado destinar-se,
por exemplo, para a divulgação da causa social é
uma coisa e outra coisa, completamente diferente, seria se o recurso
fosse beneficiar diretamente a ação social. É
o caso de obtenção de recursos para uma financiar
a campanha de comunicação, por exemplo. Se fosse consultado
por um doador potencial sobre essa questão não hesitaria
em dar minha opinião pessoal: não dê o todo
solicitado. Quando muito recomendaria que doasse apenas parte do
valor solicitado e com ressalvas sobre a aplicação
desses recursos. Essas ressalvas seriam colocadas para garantir
a prestação do serviço social propriamente
dito!
Uma
quarta área de preocupação é especular
se uma doação desse tipo não poderia vir a
trazer problemas futuros para o doador. Um doador não terá
dúvidas em dar prioridade menor, senão nula, para
participar de uma causa social que possa vir a colidir com seus
interesses enquanto doador, como cidadão ou empresário
responsável. Afinal, quem em sã consciência
estaria disposto a ajudar uma causa que venha a atacar ou prejudicar
a empresa ou o doador num segundo momento?
A
quinta preocupação envolve um ponto crucial da causa
social: ela é causa de um indivíduo único,
de um só empreendedor social ou de um grupo? Causas de um
único empreendedor social poderão provocar um certo
estremecimento no doador potencial. Se fosse minha decisão
não hesitaria em evitar causas de um só empreendedor
social e sairia em busca de outras a serem realizadas por grupos
bem articulados e preparados. Sendo empreendimento de um só
certamente buscaria evitar a criação de uma nítida
relação pessoal ou empresarial com essa causa. É
claro que existem exceções e causas belíssimas
sendo empreendidas com sucesso por um só indivíduo.
Minha regra pessoal é de me envolver com causas sociais articuladas
por vários profissionais, preferencialmente tendo um grupo
especialista, multi-disciplinar e bem preparado e articulado!
A
sexta preocupação da lista remete à necessária
avaliação das possíveis repercussões
da doação. Nesse sentido cabe indagar e esclarecer
quais as possíveis repercussões imediatas e de longo
prazo da doação tanto social como de públicos
de interesse do doador ou empresário. Entre os públicos
de interesse a serem avaliados estariam, por exemplo, os seguintes:
funcionários, clientes, investidores, fornecedores, aliados,
revendedores e intermediários, ex-funcionários da
organização e outras comunidades relevantes para o
doador. Identificar as possíveis reações e
repercussões, tanto de curto como de longo prazo, em cada
um desses grupos de interesse é de extrema relevância.
Ainda mais se forem detectados possíveis interfaces ou áreas
de conflito em um ou mais desses grupos. Novamente o bom senso indica
que nenhum doador potencial poderia interessar-se em a continuar
a avaliação de uma possibilidade de doação
se existissem reações potencialmente negativas ou
prejudiciais junto a um ou mais desses importantes grupos.
Uma
sétima, mas não menos importante reflexão,
refere-se ao estudo avaliar outras possibilidades de doação.
É o caso dos insumos, equipamentos ou outras alternativas
de doação. Por exemplo, doar um tempo pessoal para
a causa social, como voluntário. Ou até mesmo um esforço
pessoal para auxiliar a OTS na captação de recursos
para uma determinada causa social. Mais recentemente em nosso contexto
muitos empresários socialmente responsáveis estão
descobrindo o potencial e os benefícios associados com a
participação dos funcionários nas causas sociais.
Existem indícios que essas participações contribuem
tanto para as causas sociais como para os próprios profissionais
no desempenho de suas atividades nas empresas.
Bem,
foram essas as especulações feitas sobre as características
marcantes e possíveis preocupações de grande
doador. Ao rever o ensaio percebo claramente que o conjunto foi
forte o suficiente para me motivar a preparar este ensaio. Nesta
conclusão convido o leitor(a) interessado(a) nessas questões
que entre em contato comigo ou através da editoria deste
jornal digital e encaminhe suas críticas, opiniões
ou sugestões para o aprimoramento das especulações
aqui apresentadas!
*
Rubens da Costa Santos é PhD em Marketing pela Univ. of Texas
at Austin, Professor e Consultor de Marketing da FGV-EAESP e Membro
Pesquisador do CETS - Centro de Estudos do Terceiro Setor da FGV-EAESP.
Email: rcsantos@fgvsp.br
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