Coaching Social
Desenvolvendo Lideranças Sociais Autoconscientes
Para um Mundo em Transformação
Fábio Novo e Inês Amaro*
I
- Uma Nova Visão de Desenvolvimento
A complexidade e
a simultaneidade de tendências nos campos econômico, político,
social e cultural, em esferas mundial e local, parece-nos uma das
marcas mais fortes de nosso tempo.
Co-existem
cooperação e competição, criação e destruição, expressões da mais
alta civilização, desenvolvimento e progresso e da mais cruel
barbárie. Os acontecimentos podem nos soar antagônicos e paradoxais.
Ao lado da crescente exclusão e aumento das desigualdades sociais,
não somente dentro dos países, mas entre países, emergem novas
propostas e práticas de modelos de desenvolvimento sustentável, com
uma gestão focada nas dimensões econômica, social e ambiental de
forma mais equilibrada. Essas novas concepções a respeito do
desenvolvimento inserem-se entre essas tantas projeções da vontade
humana, num campo de forças sociais dinâmico e em conflito, à
respeito de como conduzir/recriar/garantir nossa vida no planeta. ,
Há um espaço,
criado e conquistado, ocupado por novos atores sociais,
protagonistas de práticas e/ou intenções que revelam o desejo por
viver novos valores, desejo esse nem sempre desprovido de suas
próprias contradições e muitas vezes também prisioneiro de velhos
hábitos. Outras vozes ecoam, novas experiências acontecem ao lado de
práticas tradicionais; renovação e conservadorismo convivem
nas pessoas, nos grupos e nas organizações.
Falar de novos
padrões de desenvolvimento hoje faz sentido mesmo nos contextos onde
a competição destrutiva foi historicamente a base principal de
sustentação de um modelo produtivo. As redes de cooperação aparecem
como via de sobrevivência dos negócios, para organizações e mercados
de todos os tipos.
Neste cenário, o
conceito de desenvolvimento local suscita discussões, reflexões e
novas práticas e posturas em todo o mundo. O local (re)surge
impulsionado pela globalização, apontando para um novo papel a ser
desempenhado pelos territórios locais, a partir de suas
potencialidades e identidades.
O nível local
congrega uma comunidade de atores públicos e privados, que oferece
um potencial de recursos humanos, financeiros, infra-estruturas
educativas e institucionais, na qual a mobilização e a valorização
geram idéias e projetos de desenvolvimento.
O local serve de
inspiração para (re) orientar a ação de um conjunto de atores
sociais que encontram nele o espaço para desenvolver novos arranjos
socioeconômicos, focados na busca da sustentabilidade, a partir de
estratégias alternativas de desenvolvimento produtivo do território,
construindo espaços de formulação e gestão de políticas públicas,
desenvolvendo uma cidadania mais participativa e a reconstrução do
tecido social sob novas bases.
O desenvolvimento
local é um processo em que o social se integra ao econômico.
Busca-se a melhoria da qualidade de vida da população, maior
participação nas estruturas de poder, ação política com autonomia e
independência, compreensão do meio ambiente como um ativo de
desenvolvimento e novos paradigmas éticos que apontem para modelos
sustentáveis, que contribuam para o desenvolvimento humano.
II - Desenvolvimento e Mudanças
Conforme Augusto de Franco,
desenvolvimento é movimento sinérgico, é resultado de
congruências dinâmicas, construídas e reconstruídas continuamente
com o meio. Como sistema é complexo e não pode ser determinado por
um ou outro fator isoladamente. Cada novo elemento cultural nasce em
virtude de uma identidade conformada por uma mudança social, isto é,
por uma mudança no padrão de relações que até então se conservava –
de uma mudança, vale dizer, do modo de adaptação.
Conforme o mesmo autor, um novo
ciclo de desenvolvimento exige uma profunda revisão das relações
entre o Estado, a sociedade civil e o setor privado. No Brasil, o
desenvolvimento local ganha força na década de 90, quando são
exercitadas diversas experiências, apoiadas por organismos
internacionais como o BIRD, BID, UNESCO e UNICEF e por uma sociedade
civil mais protagonista que passa a desencadear iniciativas locais
para enfrentamento dos problemas econômicos, sociais e ambientais.
Ao mesmo tempo, a valorização,
profissionalização e /ou ampliação de práticas nas empresas,
denominadas filantropia estratégica, responsabilidade social,
investimento social corporativo, ética nos negócios e
cidadania empresarial, revelam um novo papel das empresas
privadas no desenvolvimento local, superando a idéia tradicional da
geração de riquezas, empregos e pagamento de impostos. O processo de
concentração de capitais e formação de megacorporações mundiais,
processo esse que concentra poder econômico e político em grandes
organizações privadas, exige maior equilíbrio entre liberdade de
ação e responsabilidade das mesmas em relação ao sistema social mais
amplo onde operam.
Mudanças importantes também
acontecem na sociedade civil com a emergência de novos atores
sociais e a conformação de um "terceiro setor", formado por
movimentos sociais e organizações da sociedade civil, sem fins
lucrativos e com gestão privada de fins públicos, estabelecendo
novos canais de articulação entre Estado e sociedade civil, voltados
ao atendimento de necessidades sociais e/ou defesa de direitos
sociais e da cidadania.
Configura-se um espaço público, em
que agentes públicos, privados ou híbridos se relacionam se
interpenetram e se condicionam, de maneira que é difícil definir
seus limites (Fernandes, 1994). A recriação desse espaço público
comum é cada vez mais necessária para superar a segregação, a
fragmentação e a exclusão.
III- Capital Social e Cooperação
O desenvolvimento
local é um processo orgânico, um fenômeno humano, que envolve
valores e comportamentos e suscita práticas e atitudes inovadoras,
espírito empreendedor. Convoca à adoção de parcerias para mobilizar
os recursos e as energias, seguindo as características e capacidade
de cada economia e comunidade local.
Os conceitos de
empoderamento e fortalecimento da comunidade são essenciais para a
compreensão do desenvolvimento local ou endógeno. Valores como
autonomia, cidadania, democracia, dignidade da pessoa humana,
solidariedade, eqüidade e respeito ao meio ambiente, assim como
controle social e transparência são a base fundamental da nova
gestão. O desenvolvimento local, mais do que produção e acesso a
bens e serviços, deve provocar o empoderamento das comunidades.
Os instrumentos,
são, sobretudo, processos de articulação e capacitação voltados a
criação de ambientes inovadores, laços de cooperação, identidades e
redes de cooperação interinstitucional.Um dos principais eixos do
desenvolvimento local, além do desenvolvimento produtivo do
território e a gestão participativa é o capital humano e social.
O capital social,
conforme Augusto de Franco, é definido como o somatório de recursos
inscritos nos modos de organização da vida social de uma população.
É um bem coletivo que garante o respeito de normas de confiança
mútua e de comportamento social em vigor. Contempla tanto
associações horizontais entre pessoas (redes sociais), redes
horizontais e redes verticais entre pessoas e organizações (e os
comportamentos entre e dentro das organizações) e ambiente social
e político em que se situa a estrutura social (normas, as formas
de governo, o regime político, a eficácia social do o sistema
judiciário, o respeito das liberdades civis e políticas, a forma de
organização e as instituições sociais ).
Do ponto de vista do Capital Social,
segundo o mesmo autor, a cooperação é o primeiro fator para a
criação de um ambiente favorável ao desenvolvimento. A cooperação
faz as pessoas permanecerem juntas, inclusive em empresas. Para que
o Capital Social possa ser gerado, acumulado e reproduzido, é
necessário que as pessoas se conectem umas com as outras segundo um
padrão horizontal de organização, que gere interdependência.
Portanto, a capacidade de estabelecer ligações entre os seus membros
dá a medida da conectividade interna de uma organização social e
essa conectividade horizontal e interdependência conduzem à
autonomia das pessoas e não à subordinação.
Além disso, é necessário que as
pessoas compartilhem valores e objetivos comuns, ou seja, que tenham
um projeto comum. Não se pode criar um clima favorável ao
desenvolvimento se as pessoas não participam voluntariamente de
ações conjuntas. E isso elas só farão na medida que compreendam que
estão compartilhando um (mesmo) projeto.
A participação leva à
descentralização e ao aparecimento de múltiplos líderes, cria uma
rica diversidade de iniciativas e de pessoas dispostas a assumir
responsabilidades. Projeto comum, conectividade horizontal e
interdependência levam, juntas, à constituição “rede’. Portanto, do
ponto de vista do Capital Social, a rede é o segundo fator para a
criação de um ambiente interno favorável ao desenvolvimento.
Cooperação e rede estão intimamente imbricados: redes só se formam
com base na cooperação; o exercício da cooperação leva as pessoas a
se relacionarem segundo um padrão de rede.
O Capital Humano é também fator
decisivo para o desenvolvimento - é a capacidade das pessoas de
fazer coisas novas e se mobilizarem para adquirir os conhecimentos
necessários, capazes de permitir a materialização do desejo, a
realização do sonho e a viabilização da visão. Ora, isso tem um
nome: chama-se ‘empreendedorismo’. Portanto, para se ter um ambiente
favorável ao desenvolvimento precisamos ter, também, um ambiente
favorável à inovação, com liberdade para criar e ousadia de
inventar.
Assim, do ponto de vista do
desenvolvimento social e humano sustentável, criar um ambiente
favorável ao desenvolvimento é começar investindo no Capital Social
e no Capital Humano. Sem a base de confiança fornecida pela
cooperação ampliada, acumulada e reproduzida socialmente e sem
empreendedorismo, dificilmente conseguiremos promover o
desenvolvimento, como mostram numerosas evidências registradas em
todas as partes do mundo.
IV-
O Desenvolvimento de Lideranças Sociais
A promoção do desenvolvimento local
é desencadeada pela atuação ativa e comprometida de lideranças
representativas das diferentes esferas do Estado, do mercado e da
sociedade civil, seja através de suas organizações, associações ou
movimentos coletivos.
O fortalecimento do capital social e
humano de uma dada comunidade está relacionado à presença de
lideranças articuladas, de forma que seu desempenho mobilize outros
atores locais e potencialize iniciativas sociais de desenvolvimento.
Com a necessidade de capacitação de empreendedores sociais, diversas
escolas de desenvolvimento humano, social e de gestão organizacional
em atuação conjunta com organizações do terceiro setor têm se
dedicado a pesquisar modelos que integrem perspectivas teóricas e
aplicações práticas num mesmo programa formativo, e oferecendo não
só habilitação técnica em gestão como treinamento, suporte pessoal,
bolsas de auxílio, networking e financiamento para os projetos.
Estes modelos de trabalho
fundamentam-se na constatação de que o empreendedor é um dos
principais vetores dentro do processo de transformação social e que,
devidamente capacitado e instrumentalizado, impactará socialmente
sua comunidade com mais eficiência, cumprindo o importante papel de
catalisador de recursos e multiplicador de ações e resultados.
Esta forma de ver, pensar e intervir
para o desenvolvimento social tem se mostrado eficaz e já são muitos
os “cases” de sucesso que nos servem de referência e inspiração,
comprovando que esta estratégia pode e deve continuar a ser
utilizada. Destacam-se aqui o belo trabalho realizado pela Ashoka e
Fundação Artemísia.
É a partir desta percepção que surge
a nova proposta do Coaching Social, que não só
reconhece e aplaude esta direção, como se propõe a potencializá-la,
na medida em que trabalha para ampliar a consciência e a qualidade
da ação do empreendedor e de sua organização. Na prática, o
processo do coaching facilita o complexo processo de auto
conhecimento e auto desenvolvimento pelo qual o líder e o seu grupo,
cedo ou tarde, terão que enfrentar.
Porém, o Coaching Social é
uma abordagem integrativa que percebe que, se é insuficiente
desenvolver apenas a cabeça/mente do organismo humano, também o é,
por analogia, desenvolver apenas a cabeça/líder do organismo social.
Numa perspectiva integral, o organismo, seja ele humano, social,
político ou cultural é percebido como um todo dinâmico composto por
múltiplos atores em constante interação e que precisam ser
integrados para que o processo evolutivo aconteça de forma
sustentável e, para tanto, todos devem ser reconhecidos e aceitos,
respeitando-se a necessidade e a possibilidade de cada um naquele
dado momento.
Nesta perspectiva, o que buscamos é
ampliar o campo de consciência individual de todos os que compõem a
organização, processo que estimula a cooperação e conectividade
horizontal, explicita a interdependência e abre a possibilidade de
compartilhamento de valores e objetivos, o que levará naturalmente a
ampliação do campo de consciência da própria organização e, por
conseqüência, da comunidade onde atuarem e da rede a qual
pertencerem. O propósito aqui é o de difundir a cultura da autonomia
cooperativa, incentivando assim com que cada ator, seja qual for seu
papel dentro e fora da organização, o faça com níveis crescentes de
autoconsciência, levando este estado de conhecimento aprendido
para todas as instâncias de sua vida.
A este processo de empreender-se
a si mesmo chamamos de Liderança AutoConsciente ou
AutoLiderança e o Coaching Social é o método que facilita
a ampliação deste campo de autoconsciência que nos permite,
antes de mais nada, aprendermos a liderar a nós mesmos, pois como é
possível liderar um macro organismo social se não sabemos como
administrar o micro organismo individual composto, por exemplo, pelo
nosso corpo ? Como é possível gerenciar pessoas se somos reféns de
impulsos, desejos, sentimentos e emoções, muitas vezes ainda
inconscientes ? Como é possível negociar com parceiros, clientes,
fornecedores e financiadores se temos dificuldade em negociar com as
nossas próprias demandas internas ? Como é possível ser o gestor
eficiente de recursos públicos e privados se não possuímos a
habilidade para gerir nossos recursos energéticos ? Como é possível
mudar o mundo se não queremos e não nos dedicamos a nos
mudar ?
A este respeito, pontua o consultor
e escritor indiano Debashis Chatterjee – “Líderes que são agentes
de mudança devem começar por um estado de consciência que
possibilite desencadear uma autotransformação e uma autorenovação
antes de provocar uma real mudança nos outros “.
V - O Processo de Coaching Social
A estrutura do trabalho de
Coaching Social que desenvolvo tem sua plataforma de sustentação
na visão integral do ser humana proposta pela Psicossíntese,
uma abordagem psico-espiritual desenvolvida pelo médico psiquiatra
Roberto Assagioli em 1910. Contemporâneo de Freud e Jung, Assagioli
foi um dos pioneiros na introdução da psicanálise na Itália, mas
logo partiu para desenvolver esta nova perspectiva que integra o
pensamento e a psicologia ocidental ao pensamento, psicologia e
doutrinas espirituais do oriente, incluindo Budismo, Yoga, Teosofia,
Taoísmo e Cabala. Atualmente a Psicossíntese, e os seus muitos
centros e profissionais espalhados pelo mundo, aplica-se não só à
psicoterapia e ao desenvolvimento espiritual, mas também à educação,
às organizações, às artes e à área social.
A partir desta base, o Coaching
se apresenta como um método de desenvolvimento pessoal que busca
facilitar e estimular o processo de “tomada de consciência”, através
da aplicação sistemática de um amplo conjunto de técnicas cognitivas
e vivenciais de ordem intrapessoal, interpessoal e transpessoal, e
que podem ser realizadas individualmente ou em grupo. O foco
principal do processo está na abertura de um caminho de acesso,
intercâmbio e comunicação entre as múltiplas dimensões da
consciência, internas e externas, criando assim o campo expandido
de autoconsciência onde se poderá com maior facilidade
identificar e “trabalhar” os conteúdos psíquicos que bloqueiam ou
dificultam o crescimento, bem como ativar os recursos e a energia
necessários para empreender esta jornada de auto transformação rumo
à evolução individual e coletiva.
Na palavras de Allan Kaplan, o
consultor sul africano especialista em desenvolvimento social - “
Para se manifestar na direção de seu máximo potencial, o mundo
precisa de nossa autoconsciência como seres humanos. A jornada da
consciência humana e a jornada da evolução do mundo são inseparáveis”.
Mas o que é campo de consciência?
Campo de consciência é um campo
multidimensional de energia e informação que está acessível ao
indivíduo e que, de forma simplificada, é composto pelo conjunto de
impulsos/desejos, pensamentos, sentimentos/emoções, intuições,
sensações, imagens e vontades que permeiam a existência humana. É um
campo psicodinâmico ao redor do qual gravitam em constante interação
e interfluxo conteúdos oriundos de dimensões conscientes e não
conscientes da consciência, quais sejam, do inconsciente inferior,
do inconsciente médio (subconsciente), do superconsciente e do
inconsciente coletivo.
O inconsciente inferior é a dimensão
da consciência que sedia os controles fisiológicos e os traumas,
complexos, fobias e afins, em geral associados ao passado.
O subconsciente armazena informações
que estão latentes e próximas do nosso campo da consciência. O
superconsciente - ou supraconsciente - é onde está nosso projeto
pessoal de futuro, nosso potencial a ser atualizado e concretizado
nessa existência e a evolução da sociedade como um todo. Também
hospeda valores coletivos, como democracia, solidariedade, eqüidade,
e as qualidades humanas superiores, como respeito, amor
incondicional, ética, justiça e criatividade. É no superconsciente
onde “reside” o EU Superior, o centro sintetizador da consciência. O
inconsciente coletivo, e entenda-se por coletivo do familiar ao
planetário, passando pelo racial, cultural, organizacional e
nacional, é a dimensão que contém os símbolos comuns aos grupos,
também chamados de arquétipos.
No centro do campo de consciência
individual reside o eu, a identidade pessoal ou centro
sintetizador da personalidade, que está em conexão direta com o
EU Superior (Fig.1). No processo de expansão da consciência
acessamos conteúdos não conscientes e os trazemos para o campo de
luz da consciência para que possam ser re-conhecidos por este eu
pessoal, a própria essência do auto conhecimento. Mas
para evoluir não basta auto conhecer-se, é preciso também
auto transformar-se, e para tanto é necessário não só
identificar, aceitar e integrar estes conteúdos à personalidade como
sustentar um estado de cooperação interna utilizando-se da vontade
como combustível. Na experiência de atendimento com meus clientes
tenho observado dois obstáculos comuns associados à vontade, um tema
central no desenvolvimento de líderes. Em primeiro lugar, a falta de
clareza para identificar o que se quer, e em segundo, a
dificuldade de se assumir o quanto de fato se quer,
aquilo que se diz querer. Não raro verifico uma surpreendente
perplexidade diante das perguntas : O que você quer ? ( Qual é o
seu objetivo ? ) e Quanto você o quer ? (Qual preço você está
disposto a pagar para realizar este objetivo? ). Como diz Richard
Barret, - “ Nenhum indivíduo conseguirá tomar decisões que apóiem
completamente o bem do todo antes de aprender a dominar seus medos,
compreender suas motivações e não ter dúvidas com relação à sua
missão “.
Neste sentido, a respiração,
a auto-observação e o centramento se tornam requisitos
básicos para que possamos entrar em contato com a nossa real vontade
(motivação + missão), encontro que por si só potencializa nossa
possibilidade de ação e relativiza os desafios decorrentes deste
empreendimento repleto de altos e baixos, idas e vindas, promessas,
dúvidas, ilusões, medos e armadilhas, e também, deve-se dizer, de
inesquecíveis descobertas.
Existem hoje muitas linhas de
trabalho com a respiração e não nos cabe aqui aprofundar neste tema,
mas o simples exercício de prestar atenção ao movimento respiratório
já é suficiente para nos colocar numa posição mais próxima do nosso
centro de equilíbrio, condição que favorece a auto-observação dos
processos internos e nos possibilita reconhecer com maior clareza os
automatismos, padrões de comportamento, condicionamentos,
paradigmas, códigos e sistemas de crenças com os quais estamos
identificados e que acabam por determinar como estamos sendo.
Como coloca TARTHANG TULKU, “ a auto-observação não é apenas um
processo de análise introspectiva e de interpretação ; é a
mobilização sadia e lúcida de todos os nossos recursos e
habilidades. Por meio da prática da auto-observação,.., podemos
descobrir, ..., o que estamos fazendo nesta terra.”
Para nos desidentificarmos desta
rede de amarras internas que tendem a nos governar, em geral
personificadas por agentes invisíveis aos quais chamamos de
subpersonalidades, além de respirar, auto-observar e centrar será
preciso também assumir o domínio de nossas energias, cujo
desenvolvimento é outro requisito para transmutarmos com eficiência
os muitos “nós emocionais” com os quais nos depararemos durante o
caminho de integração pessoal. Na prática, de uma forma ou de outra,
com mais ou menos consciência, acabamos por desatar vários destes
nós durante a vida, mas em geral, a um custo pessoal e energético
desnecessariamente alto.
O Coaching facilita este
processo oferecendo suporte para que a síntese aconteça de
forma mais fluida, natural e segura. Uma de suas características
diferenciadas é a aplicação de exercícios que chamam constantemente
para uma ação mais organizada no momento presente, evitando
excessivas identificações com o passado e com questões de natureza
emocional. Assim sendo, estimula a resolução de problemas no mundo
concreto e incentiva o movimento em direção à realização de
objetivos definidos, sem perder o foco das prioridades e evitando a
dispersão e o desperdício de tempo e energia, ocorrências bastante
comuns na sociedade atual.
No Coaching em Grupo o
processo acontece num formato radicalmente diferente e mudam a
dinâmica, a intensidade e o ritmo, mas permanece o objetivo de
ampliar o campo de autoconsciência. Um diferencial considerável
neste trabalho é resultado da interação entre os participantes que
muitas vezes acabam por reproduzir no grupo de coaching situações
vivenciadas nas organizações onde trabalham, facilitando a percepção
de que muitas das questões apresentadas como problemas da
organização são, na verdade, questões individuais projetadas de
forma inconsciente no ambiente de trabalho.
Um caso clássico que retrata esta
situação é a dificuldade de relacionamento verificada entre
chefe-colaborador, que em muitos casos se apresenta como uma
projeção da dificuldade de relacionamento existente entre
pai-filho, que ambas as partes reproduzem simultaneamente no
cenário de trabalho. Casos assim são comuns e explicam em grande
parte os complexos processos de relacionamento e comunicação que
ocorrem dentro das organizações e que causam tanto stress,
frustração, ansiedade, depressão e infelicidade. O trabalho com o
grupo abre espaço para que estas questões venham à tona e sejam
identificadas, compreendidas e dissolvidas, liberando o fluxo de
energia e facilitando a troca intra e interpessoal, processos que
naturalmente surtirão efeitos imediatos a nível pessoal e coletivo.
VI – O Desafio da Criação de Práticas
Sociais Inovadoras
Diante das concepções acima
fundamentadas, partimos de uma profunda convicção de que as
iniciativas voltadas ao desenvolvimento social, sejam em micro ou
macro escala, precisam partir de “uma nova forma de compreensão
social prática, uma ecologia social que não seja instrumental na
natureza e que reconheça a relação existente entre consciência e
forma social. Tal ecologia social reconhece que todas as formas
sociais são criadas por nós, sendo exteriorizações de outras idéias
e valores e, conseqüentemente, de nossa imagem do ser humano” (SCHAEFER,
2005,p. 17)
Refletiremos abaixo sobre algumas de
nossas experiências enfocando a associação de diferentes atores
sociais em uma iniciativa de desenvolvimento local e o
desenvolvimento de lideranças comunitárias envolvidas em projetos
sociais, com financiadores nacionais e internacionais.
ü
Desenvolvimento Local e Desenvolvimento de Lideranças
Diferentes metodologias estão sendo
desenvolvidas para trabalhar na perspectiva de desenvolvimento
local, empowerment das comunidades e fortalecimento do
capital humano e social, ainda que pautadas por premissas comuns.
Uma das premissas do sucesso das
iniciativas sociais é a manutenção e continuidade do comprometimento
dos atores locais e dos recursos necessários nas diferentes fases do
processo. Neste caso, não estamos falando de levar para as
comunidades soluções para seus problemas através da instalação de
serviços, programas ou projetos que atendam as suas necessidades,
então, os riscos e desafios tornam-se então, maiores.
Para relatar uma experiência de
desenvolvimento local em curso, utilizaremos VOORS (in SHAEFER,2005,
p59). O autor coloca que uma iniciativa social precisa cultivar sete
aspectos básicos. O começo da iniciativa tem como força geradora uma
idéia ou um sonho, cultivado por alguém e que passa a ser
compartilhado, em algum momento onde surgem oportunidades ou
perspectivas para sua realização. Essa complementaridade de sonhos,
segundo VOORS é a fonte da visão.
- Na experiência em questão, o
aspecto DESENVOVER VISÃO / RECONHECER MOTIVO inicia-se com uma
entidade de representação de segmento empresarial que, possuindo um
recurso – uma carreta destinada a ações de formação profissional –
deseja migrar de um modelo de prestação de serviços pontuais em
algumas comunidades, para um modelo de investimento social com
protagonismo comunitário.
Para tanto, procura uma associação
empresarial de formação de recursos humanos, a qual naquele momento
buscava identificar uma causa social com a qual comprometer-se, no
exercício de sua responsabilidade social na comunidade. Ambas as
entidades, compartilhando um desejo, uma idéia, buscam uma
organização social com experiência em trabalho comunitário com
unidade móvel, para fazer um benchmarking e sondar seus
interesses em realizar uma parceria. Essa entidade envolve-se com a
proposta no exato momento institucional em que realizava uma
avaliação de seus serviços e programas sociais nas comunidades,
visando identificar o efeito transformador ou não dos mesmos, nas
realidades locais onde intervém. A idéia não somente foi acolhida
como representou a possibilidade de concretizar o desejo que nascia
nessa organização de promover uma mudança nas suas práticas, em
direção a realizar um projeto de impacto social mais efetivo.
A comunidade escolhida para iniciar
o projeto foi uma comunidade onde já haviam serviços instalados
desta terceira organização social procurada – uma comunidade pobre,
com grande carência de serviços públicos, de difícil acesso,
irregular do ponto de vista territorial e que vive situações de
extremo risco e vulnerabilidade social, com altos índices de
desemprego e subemprego, trabalho infantil, educação deficitária e
fraca organização popular, entre outros aspectos. Por outro lado,
esta mesma comunidade tem como seu principal ativo a localização
geográfica – um tradicional ponto turístico com belíssima vista da
cidade, abandonado ao longo do tempo, que se transforma em lugar de
risco social. Contagiados pelo sonho de uma liderança dessa
organização social, as três entidades passam a compartilhar o desejo
de revitalizar o ponto turístico, como estratégia de desenvolvimento
local. Outros diferentes atores públicos e privados, governamentais
e não-governamentais, foram sendo mobilizados e articulados em uma
fase inicial de sensibilização de parceiros para transformar a visão
em projeto. Entre outras estratégias, esta fase com um café da manhã
de apresentação do anteprojeto e de seu principal recurso, a
Carreta. .
Segundo VOORS (in SHAEFER,2005, p
61) , iniciativas que querem responder às questões sociais e
econômicas da atualidade não podem partir somente do impulso de
fazer alguma coisa, elas precisam direcionar-se para o que outras
pessoas estão pedindo, ou seja, RESPONDER A UMA NECESSIDADE. Os
encontros sistemáticos entre o grupo de organizações interessadas no
Projeto ganhou um diferencial com a participação crescente de
representação local de moradores, algumas lideranças da comunidade,
trazendo tanto suas demandas quanto a percepção da comunidade sobre
o Projeto. Um passo fundamental foi a assessoria prestada para a
reorganização da Associação de Moradores, que estava desarticulada
deste o falecimento de seu Presidente, o qual já por muitos anos
ocupava o cargo com pouca legitimidade e quase ausente participação
popular.
Nesse processo de discussão,
diferentes expectativas, interesses e visões de mundo dos
participantes e suas organizações entraram tanto em consenso quanto
em confronto e conflito. As demandas da comunidade inicialmente
vieram impregnadas da herança de relações clientelistas,
paternalistas e assistencialistas com as instituições (públicas em
especial) e com uma visão imediatista e de certa forma simplista
para a resolução de seus problemas, permeadas ainda por uma
sensação de descrédito e desconfiança. A construção de um caminho
que fosse refletindo criticamente sobre estas demandas e
minimamente organizando-as foi um lento e desgastante processo, onde
algumas organizações foram afastando-se, outras aproximaram-se e
manteve-se um grupo menor, mais fortalecido e convicto da
metodologia em curso, embora mais consciente das dificuldades do
método participativo voltado ao fortalecimento do capital social e
ao protagonismo da comunidade.
Um terceiro aspecto destacado por
VOORS (in SHAEFER,2005, p 63) é a necessidade de FORMULAR DIREÇÃO.
Essa direção foi tomada a partir da realização de um evento de
lançamento do Projeto na/com a comunidade. A organização do evento
teve como estratégia principal, indicada pela Associação de
Moradores, a prestação de alguns serviços (corte de cabelo,
assessoria jurídica, prevenção em saúde da mulher, saúde
odontológica e doenças crônicas, pintura no rosto para crianças etc)
para aproximar as famílias do processo e poder disseminar o Projeto.
Na organização do evento a
metodologia foi amadurecida e alguns ímpetos freados (a sede de “
fazer”, a pressão por “ resultados” ) : o foco não estaria em
“levar serviços” para a população. O evento foi organizado com
participação ativa de representantes da comunidade, inclusive na
preparação do mesmo e no trabalho durante o dia, bem como foi
utilizada essa aproximação para realização de um diagnóstico da
mesma com as famílias participantes em termos de perfil dos
moradores, condições de vida e necessidades e expectativas em
relação a participação no Projeto.
Esse evento, junto com os Seminários
onde se definiram as Premissas ( por exemplo, atuar em rede;
estimular o protagonismo da comunidade, entre outras) e os Focos de
Atuação, não somente fortaleceram a direção do Projeto, como também
geraram a sustentação do outro aspecto citado por VOORS (in SHAEFER,2005,
p 65) que é o COMPROMETIMENTO DAS PESSOAS. O objetivo estabelecido
foi “potencializar o desenvolvimento local das comunidades, na
perspectiva da promoção da cidadania e alternativas de geração
de renda”.
À medida que o processo foi
avançando e criando maior consistência também as responsabilidades
aumentaram e a avaliação dos riscos passou a ser mais cuidada. O
Projeto ganhou espaço na mídia e foi gerando repercussões nas
organizações provocando a necessidade de formalização daquilo que
inicialmente foi o sonho de alguns atores, cujas organizações
apoiaram no sentido de liberar tempo e alguns recursos para
reunirem-se e avançarem na idéia. O TRABALHAR JUNTOS, (VOORS in
SHAEFER,2005, p 68) começa a necessitar uma melhor organização e
identificação de atribuições, compromissos e responsabilidades. A
definição de quem seriam efetivamente as organizações realizadoras
do projeto, os apoiadores e os investidores aconteceu neste momento.
Um pouco antes disso, uma das instituições realizadoras havia
contratado uma funcionária para operacionalizar as decisões da
equipe estratégica do Projeto. Começa assim, a ganhar uma estrutura.
Os riscos a assumir bem como a
paciência, a persistência e o comprometimento são aspectos muito
trabalhados nessa fase e que permanecem sendo tratados
permanentemente no processo.
Os dois aspectos finais citados por
VOORS (in SHAEFER,2005, p 71) - GERENCIAR PROCESSOS E TEMPO e
ENCONTRAR INSTALAÇÕES E RECURSOS – foram sendo trabalhados e estão
em pleno desenvolvimento.
A Carreta, recurso principal
aglutinador/catalisador do processo, tem ficado em segundo plano. Na
atual condição, as atividades em desenvolvimento com a comunidade
estão utilizando o espaço do Centro Comunitário da organização
social que é uma das realizadoras. A Carreta necessita tanto de
ações de manutenção para otimização como recurso, quanto ações de
negociação com a empresa que cedeu a mesma em termos de infra
estrutura de motorista e outros recursos para sua utilização mais
freqüente. De elemento desencadeador passou a ser uma força
simbólica na realização de um desejo, um sonho e uma visão de atores
sociais engajados num processo de mudança. Aspecto a ser aprofundado
e revisado na concepção do Projeto.
O Projeto encontra-se atualmente em
fase de realização de atividades dos focos de atuação, tendo
priorizado ações de desenvolvimento do capital humano e capital
social, como base para o desenvolvimento local. Estão sendo
realizadas estratégias de fortalecimento junto a Associação de
Moradores, oficinas de direitos sociais com foco inicial na Moradia
( principal demanda da comunidade) , bem como cursos de capacitação.
Já foi concluída uma primeira turma de um curso de empreendedorismo,
e os próximos cursos serão de jardinagem, lanches rápidos e
alfabetização de adultos. Foi constatado que no próprio grupo
gestor da Associação haviam pessoas não alfabetizadas, impedindo
tanto avanços na Associação quanto das pessoas em si, pelo não
acesso a recursos e informações diversas e a cursos de capacitação,
por exemplo, em liderança e gestão.
Paralelamente, seguem como desafios
sendo trabalhados o alinhamento dos grupos de trabalho por focos de
atuação e o esforço de sistematização das estratégias, da
comunicação e captação de recursos, do fortalecimento de parceiros e
do protagonismo da comunidade no Projeto. O curso de jardinagem
acima citado está relacionado tanto a uma demanda de geração de
trabalho, visto que a comunidade é muito próxima de condomínios
residenciais de classe média e alta, quanto a uma preparação para
envolvimento da comunidade na reativação do “ativo” local principal
– o ponto turístico a ser resgatado e que deverá ter os jardins
arrumados, entre outras ações. A visão de futuro passar pela
formação de guias comunitários e desenvolvimento de artesanato para
comercialização no local. O crescente envolvimento do poder público,
em especial secretarias da cidade- de turismo, de direitos humanos,
da assistência social e do meio ambiente , está sendo um ponto forte
do Projeto, bem como a adesão consistente de outras entidades
voltadas ao desenvolvimento social e a formação de lideranças e
empreendedores socais.
Depoimentos de líderes e moradores
da comunidade revelam aos poucos um melhor entendimento e
comprometimento com o modelo de desenvolvimento proposto, bem como
despontam no processo atitudes e iniciativas empreendedoras,
voltadas neste primeiro momento para respostas individuais a
questões de sobrevivência das famílias. Ao mesmo tempo, começam a
surgir sentimentos e atitudes coletivas, de participação, tolerância
e senso de unidade, com trabalho sobre alguns conflitos e
fortalecimento de laços, do sentimento de pertença, da autoestima e
auto confiança na comunidade, entre o grupo que está mais presente
no Projeto, que ainda é pouco representativo em termos da comunidade
como um todo. .
Atualmente, o grupo coordenador
trabalha na formatação fional do modelo do projeto, na organização
de um site , junto a outras estratégias de comunicação e captação de
recursos e na aprovação final de um Termo de Cooperação, a ser
assinado pelas entidades realizadoras e por apoiadores e
investidores. Sair do improviso, aprimorar a logística, entre
outros aspectos, são ações essenciais para garantir a
sustentabilidade do Projeto, que iniciou seus primeiros passos em
janeiro de 2005, tendo um ano e 10 meses de andamento, até agora.
ü Desenvolvendo
Líderes Sociais
O trabalho de coaching junto a
empreendedores sociais e profissionais do terceiro setor tem sido ao
mesmo tempo uma experiência desafiadora e uma rica fonte de
aprendizado.
Os processos de desenvolvimento
pessoal, sempre únicos em conteúdo, forma e ritmo, fluem de acordo
com suas próprias variantes e tonalidades, e pedem um tipo de
facilitação personalizada que respeite o momento e as demandas
específicas de cada um deles. Ao coach cabe o desafio do
centramento, da sensibilidade e da presença, qualidades necessárias
não só para identificar e compreender a linha narrativa subjacente
ao processo que se apresenta, mas também para a facilitar o
desenrolar da história que está sendo vivenciada pelo cliente.
Porém, ainda que cada caso seja único, é possível reconhecer algumas
similaridades nos processos de desenvolvimento dos que empreendem
esta desafiante jornada. Não há aqui nenhuma tentativa de tentar
padronizar ou sistematizar estes processos, e muito menos de
classificar pessoas, mas apenas de sinalizar e reunir alguns marcos
indicativos naquilo que parece ser comum no caminho.
Uma pergunta que costumo fazer é –
Qual o propósito de ser um empreendedor social ?
Responder com precisão à questão, e ao que ela implica, tem se
mostrado um desafio extra, e suponho que haja tantas respostas
quantos empreendedores sociais houver. Através da compilação destas
respostas, que em certos casos necessitaram de meses para serem de
fato respondidas, transformando-se no processo em si, foi possível
vislumbrar algumas situações que parecem incidir com maior
freqüência na história de empreendedores sociais.
O primeiro grupo de situações
refere-se àqueles que ainda muito jovens se “jogam” no trabalho
social antes mesmo de terem tido a oportunidade de entrar em
contato, dentro de si, com as verdadeiras razões que os motivam. Em
muitos destes casos o motor que alimenta a ação é a tentativa de
suprir uma necessidade (carência emocional interna), quase sempre
urgente e inconsciente, ou então de “escapar” de uma circunstância
de vida dolorosa, traumática e/ou desesperadora. Através de algum
mecanismo interno, enxerga-se a ação social como o caminho que
poderá atender a esta necessidade. Mas se este impulso de empreender
não vier acompanhado de outros elementos que ao longo do caminho
estruturem, esclareçam e fortaleçam este jovem, é provável que ele
não resista diante das dificuldades e acabe por desistir do projeto.
Uma constatação importante aqui é a de que eles já têm a consciência
da conexão entre eu pessoal e EU Superior, traduzida
nesta vontade de mudar o mundo, porém, esta conexão se
apresenta obstruída por uma personalidade não suficientemente
trabalhada, e por um campo de auto consciência ainda “turvo”, fato
que o impedirá de se dedicar com liberdade e inteireza a um projeto
tão complexo como uma iniciativa de caráter social. Uma ocorrência
típica é a do jovem que abandona o projeto social, arruma um emprego
e vai fazer faculdade.
Em suma; Eles querem mudar o
mundo, mas precisam antes ajudar a si mesmos.
O segundo grupo de situações se
assemelha ao primeiro na medida em que reúne líderes que ainda
apresentam algum tipo de desconhecimento da motivação original que
os chamam para a ação social ou que a distorcem durante a execução.
Entretanto, este já é um grupo mais estruturado, maduro e consciente
de si mesmo, mais trabalhado psicologicamente, em geral graduados, e
que vivem numa situação sócio-cultural e econômica mais estável.
Aqui, a responsabilidade e consciência social estão mais claras e
presentes, mas se apresentam ainda infectadas por ondas de carência,
narcisismo e orgulho, e por necessidades de aceitação,
reconhecimento, status, dinheiro e poder, ainda prioridades
inconscientes. Se não aprofundarem seu trabalho pessoal interno e
não viverem segundo valores mais significativos e consistentes na
prática, estes empreendedores correm o risco de se transformarem em
realizadores vazios, que muito fazem, mas que nunca preenchem a si
mesmos. Eles podem ajudar o mundo, mas ainda querem ajudar
mais a si mesmos.
Por fim, há um grupo de situações
que se relacionam a pessoas que mantém um alinhamento muito preciso
entre a vontade pessoal e a vontade transpessoal, de tal forma que
vivenciam suas missões como se nada mais houvesse a ser feito na
vida e no mundo. Estão de tal forma integrados internamente que não
sentem necessidade de ter cargos ou receber prêmios, obter
reconhecimento ou poder, a não ser que seja útil para a execução de
seus propósitos. O foco principal destes homens e mulheres está
naquilo que precisa ser feito e operam no mundo como se fossem
canais desta vontade superior, conscientes de seus papéis e
presentes em suas ações. Seus instrumentos preferidos são a
compaixão, o compromisso, a dedicação, a responsabilidade, a
coragem, a iniciativa, a clareza interior e uma profunda conexão
intuitiva consigo mesmos, o que não os deixa se dispersarem diante
das demandas da personalidade. Eles simplesmente ajudam o
mundo, e não esperam nada em troca.
Como conclusão desta pequena
pesquisa pessoal, percebi que o quê aproxima estes empreendedores é
a conexão com a vontade de ajudar ao outro e mudar o mundo, e o que
os distancia é apenas o estágio de integração e síntese em que suas
consciências se encontram.
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