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O potencial das redes organizacionais no terceiro setor
Cristiano Rocha Heckert*
Márcia Terra da Silva**
Resumo
A economia
ocidental tem passado, nas últimas décadas, por transformações que
trazem novos arranjos organizacionais. Uma das consequências deste
processo é a ampliação das redes, tanto de grandes quanto de pequenas
empresas, trazendo profundos impactos para a organização do trabalho.
Paralelamente, assiste-se ao crescimento das instituições privadas sem
fins lucrativos, o chamado “terceiro setor”. Seguindo as tendências do
mercado, também as organizações do terceiro setor têm se articulado em
redes. O objetivo deste trabalho é estudar como a articulação em redes
pode beneficiar as organizações do terceiro setor, fortalecendo-as
institucionalmente, otimizando a utilização de seus recursos e
aumentando sua competitividade através de uma gestão mais eficiente.
1.
A economia em rede
1.1
A formação de redes produtivas globais
O mundo
ocidental tem assistido, nas últimas décadas, a uma transformação da
estrutura dos mercados e organizações. A partir da década de 1970,
acentua-se o processo de internacionalização das relações comerciais e
produtivas, levando a uma substancial reestruturação econômica e
organizacional no capitalismo.
Muitos
autores comparam este período, ainda não terminado, com outros
momentos de ruptura no modelo econômico-social, como o surgimento do
capitalismo no século XVI e a Revolução Industrial no século XVIII.
Conforme afirma CASTELLS (1999:129), “estamos testemunhando um
ponto de descontinuidade histórica”.
Uma das conseqüências desta revolução
é o fortalecimento do conceito de rede. Cada vez mais, as
atividades econômicas passam a ser desempenhadas em redes globais de
produção e comercialização.
A rede é um conjunto de nós
(organizações, departamentos, pessoas) interconectados. São “estruturas
abertas capazes de expandir de forma ilimitada, integrando novos nós
desde que consigam comunicar-se dentro da rede, ou seja, desde que
compartilhem os mesmos códigos de comunicação (por exemplo, valores ou
objetivos de desempenho)” (CASTELLS, 1999:566).
A organização em redes quebra as
estruturas burocráticas, tornando as empresas flexíveis para se
recriarem continuamente, de acordo com suas necessidades, para suprir
as demandas cada vez mais mutantes do mercado consumidor. Conforme
coloca PETERS (1992) apud RIFKIN (2001), “as redes de bits e partes
de empresas se juntarão para explorar uma oportunidade de mercado,
talvez ficarão juntas por alguns anos (embora mudem completamente seu
formato, várias vezes durante o processo) e, então, se dissolverão,
para não existir mais no mesmo formato”.
CASTELLS (1999:221) argumenta que “a
principal mudança [organizacional] pode ser caracterizada como
a mudança de burocracias verticais para a empresa horizontal. ... Para
conseguir absorver os benefícios da flexibilidade das redes, a própria
empresa teve de tornar-se uma rede e dinamizar cada elemento de sua
estrutura interna: este é na essência o significado e o objetivo do
modelo da ‘empresa horizontal’, freqüentemente estendida na
descentralização de suas unidades e na crescente autonomia dada a cada
uma delas, até mesmo permitindo que concorram entre si, embora dentro
de uma estratégia global comum ... Assim, a unidade operacional real
torna-se o projeto empresarial possibilitado por uma rede, em vez de
empresas individuais ou agrupamentos formais de empresas”.
RIFKIN
(2001) observa que, enquanto em 1989, menos de 10% das empresas
norte-americanas estavam ligadas em rede, apenas quatro anos depois,
em 1993, mais de 60% delas já estavam de alguma forma conectadas.
Segundo o autor, “na nova economia baseada em rede, a idéia de Max
Weber de ‘organização’ como uma estrutura relativamente fixa com
regras e procedimentos estabelecidos começa a se desintegrar. ... A
organização se torna tão efêmera e fugaz como o meio eletrônico em que
o negócio é conduzido” (RIFKIN, 2001:23).
Nesta nova
era, que denomina “Era do Acesso”, os mercados estão cedendo lugar às
redes, e a noção de propriedade está sendo substituída pela de acesso.
“Isto não significa que a propriedade irá desaparecer no início da
Era do Acesso. Ao contrário. A propriedade continuará a existir, mas
com probabilidade menor de ser trocada em mercados. ... Na economia em
rede, tanto a propriedade física quanto intelectual têm mais
probabilidade de ser acessadas pelas empresas do que ser trocadas”
(RIFKIN, 2001:4). O autor conclui que as redes “são bem mais
flexíveis e mais adequadas à natureza volátil da nova economia global.
A cooperação e as abordagens de equipe à solução de problemas permitem
que os parceiros respondam mais rapidamente às mudanças no ambiente
externo” (RIFKIN, 2001:19).
O fenômeno das redes tem sido
observado em larga escala entre as grandes corporações transnacionais.
Conforme afirma CASTELLS (1999:163), “as multinacionais são, cada
vez mais, redes internas descentralizadas, organizadas em unidades
semi-autônomas, segundo os países, os mercados, os métodos e os
produtos”.
Esta não é, contudo, uma
característica restrita às grandes empresas. Conforme coloca RIFKIN
(2001:23), “em todo lugar do mundo, empresas grandes e pequenas
estão em uma luta frenética para se tornar parte de redes comerciais
em expansão. ... Ser deixado de fora do circuito pode significar o
fracasso instantâneo nesse novo mundo de alianças em constante mudança”.
Já há algum tempo, as pequenas e médias
empresas perceberam que, unindo-se em redes de produção e
comercialização, teriam maiores condições de competir com as grandes
companhias, principalmente no mercado internacional. Diversas
experiências de formação de clusters de pequenas e médias
empresas são conhecidas, com destaque para o setor têxtil no norte da
Itália. Também no Brasil, experiências como as dos pólos calçadistas
de Franca (SP) e Novo Hamburgo (RS) podem ser destacadas (GARCIA,
2001).
Portanto, “parece que o modelo
empresarial em rede global ... se tornou, na virada do século, o
modelo predominante para os concorrentes mais bem-sucedidos da maioria
dos setores do mundo. ...Assim, os segmentos dominantes da maioria dos
setores de produção (tanto bens, quanto serviços) estão organizados
mundialmente em seus procedimentos operacionais reais, formando o que
Robert Reich rotulou de ‘a rede global’” (CASTELLS, 1999:
229,163).
1.2
O papel da Tecnologia da Informação
No processo de formação das redes
organizacionais, a Tecnologia da Informação (TI) representa um papel
fundamental. Conforme coloca CASTELLS (1999:119), “essa nova
economia surgiu no último quartel do século XX porque a revolução da
tecnologia da informação forneceu a base material indispensável para
sua criação”.
O desenvolvimento da TI ganhou força nos
anos 1970 e continuou nas décadas seguintes. Segundo MANCE (1999:33),
observou-se neste período “uma nova revolução tecnológica,
assentada em novas descobertas científicas que se desdobram,
particularmente, na Tecnologia da Informação (informática,
telecomunicação, multimídias, etc.), na Robótica, na Biotecnologia e
na Tecnologia dos Materiais”.
Esta revolução que trouxe a disseminação
do computador pessoal (PC) culminou com a massificação do uso da
Internet, a qual conectou em uma única rede empresas e consumidores de
todo o mundo. Conforme coloca RIFKIN (2001:14), “o reposicionamento
do comércio primário no ciberespaço e a transição para uma economia
global baseada em redes tornaram-se possíveis com a proliferação de
redes eletrônicas globais, sendo a mais importante delas a Internet”.
Se não são a causa primária da
transformação da economia, as novas tecnologias contribuíram de forma
decisiva para a sua consolidação e difusão. Conforme coloca CASTELLS
(1999:98), “... na década de 1980, o capitalismo ... passou por um
processo substancial de reestruturação organizacional e econômica no
qual a nova tecnologia da informação exerceu um papel fundamental e
foi decisivamente moldada pelo papel que desempenhou”. O autor
continua, argumentando que “as transformações organizacionais que
descrevi não foram consequências automáticas da transformação
tecnológica. Algumas delas precederam o surgimento das novas
tecnologias da informação. ... No entanto, uma vez iniciada, a
praticabilidade ou transformação organizacional foi
extraordinariamente intensificada pelas novas tecnologias da
informação” (CASTELLS, 1999:230).
1.3
Impactos na Organização do Trabalho
Toda esta reestruturação das organizações
trouxe profundas consequências para a Organização do Trabalho.
Em primeiro lugar, observa-se o
deslocamento do contingente maior de trabalhadores do setor secundário
para o setor terciário da economia. Se o período de 1920-1970 é
conhecido como o período em que as sociedades capitalistas centrais se
tornaram pós-agrícolas, os anos 1970-1990 assistem ao surgimento da
sociedade pós-industrial. Cada vez mais, as atividades industriais
tornam-se passíveis de automatização, “liberando” mão-de-obra para o
setor de serviços.
Outro ponto que merece destaque é que,
diferentemente das transações financeiras e comerciais, o trabalho
ainda encontra grandes barreiras de circulação internacional. Conforme
coloca CASTELLS (1999:297), “embora o capital flua com liberdade
nos circuitos eletrônicos das redes financeiras globais, o trabalho
ainda é muito delimitado (e continuará assim no futuro previsível) por
instituições, culturas, fronteiras, polícia e xenofobia. ... No
sentido mais estrito, com exceção dos níveis mais altos de geradores
de conhecimento/manipuladores de símbolos (o que posteriormente chamo
de trabalhadores ativos na rede, dirigentes e inovadores), não há – e
não haverá no futuro previsível – um mercado de trabalho global
unificado”.
De fato, as
políticas de imigração tendem a ser um pouco mais brandas para os
trabalhadores do conhecimento, os chamados “analistas simbólicos”
(REICH, 1991). Contudo, a grande maioria dos imigrantes que buscam
oportunidades nos países centrais é composta de trabalhadores pouco
qualificados, que acabam realizando trabalhos pouco valorizados. As
nações que recebem estes trabalhadores enfrentam um paradoxo: por um
lado, necessitam de profissionais que realizem funções que seus
habitantes nativos não estão dispostos a desempenhar. Entretanto, o
contingente de candidatos à imigração é muito maior que o número de
vagas de trabalho existentes, o que pode levar a altas taxas de
desemprego entre a população imigrante. Além disto, a taxa de
natalidade nesta é bastante superior à da população nativa o que, se
por um lado é bom para aliviar o crescente déficit previdenciário
naqueles países, por outro gera um desequilíbrio social, agravando os
conflitos étnicos e religiosos.
Outra tendência observada no mercado de
trabalho é a precarização das relações formais de trabalho e o
crescimento dos padrões flexíveis. Este fenômeno, segundo CARNOY
(1989) apud CASTELLS (1999) é marcado pelas seguintes características:
-
A jornada de trabalho não está mais
restrita ao modelo tradicional de 35-40 horas por semana em
expediente integral;
-
O trabalho passa a ser regido por
tarefas, e não inclui o compromisso da estabilidade no emprego;
-
Localização
flexível: na empresa, em casa, no trânsito, na empresa cliente,
etc.;
-
O contrato social entre patrão e empregado
baseado nos benefícios trabalhistas e na lealdade a longo prazo
tende a não existir mais.
Segundo HEWITT (1993) apud CASTELLS
(2001), “a forma tradicional de trabalho com base em emprego de
horário integral, projetos profissionais bem delineados e um padrão de
carreira ao longo da vida estão sendo extintos de forma lenta, mas
indiscutível”.
Seguindo o modelo just-in-time,
em que os insumos são supridos somente no momento em que serão
utilizados na produção, a mão-de-obra torna-se, cada vez mais, um
recurso adquirido apenas de acordo com a demanda produtiva, através de
contratos temporários e flexíveis de trabalho.
Como parte deste processo, novos temas
passaram a dominar a agenda das discussões nesta área, dentre os quais
destacam-se: Gestão do Conhecimento, Aprendizagem Organizacional e
Gestão por Competências.
O conhecimento (explícito e tácito) é
hoje o principal ativo de que dispõem as organizações. Conforme afirma
RIFKIN (2001:5), “na era dos mercados, as instituições que detinham
o capital físico exerciam um controle crescente sobre a troca de bens
entre vendedores e compradores. Na era das redes, os fornecedores que
detêm capital intelectual valioso estão começando a exercer controle
sobre as condições e os termos pelos quais os usuários asseguram o
acesso a idéias, conhecimentos e experiências críticos”.
Diante disto, as organizações têm
procurado desenvolver mecanismos para que seus funcionários estejam
continuamente aprendendo, mas, mais que isto, que o conhecimento
adquirido pelas pessoas seja de alguma forma sistematizado e
assimilado pela organização (SENGE, 1999).
Já a Gestão por Competências é a busca
das organizações em desenvolver nas pessoas as competências
necessárias para a realização de seu trabalho. “Definimos assim
competência: um saber agir responsável e reconhecido, que implica
mobilizar, integrar, transferir conhecimentos, recursos, habilidades,
que agreguem valor econômico à organização e valor social ao indivíduo”
(FLEURY & FLEURY, 2001:21).
A organização em redes apresenta
condições mais favoráveis para o desenvolvimento destes processos.
Segundo GHOSHALL & BARTLETT (2001:105), no modelo tradicional de
organização, caracterizado por um “ambiente de trabalho
especializado, de relacionamentos formais e de unidades
compartimentalizadas, o conhecimento não fluirá com liberdade”. Os
autores defendem, então, que as organizações se organizem em redes
integradas, pois este modelo “possibilita o desenvolvimento de
capacidades e competências distribuídas”.
Nesta linha, CASTELLS (1999:233)
conclui que “organizações bem-sucedidas são aquelas capazes de
gerar conhecimentos e processar informações com eficiência; adaptar-se
à geometria variável da economia global; ser flexível o suficiente
para transformar seus meios tão rapidamente quanto mudam os objetivos
sob o impacto da rápida transformação cultural, tecnológica e
institucional; e inovar, já que a inovação torna-se a principal arma
competitiva. ... Nesse sentido, a empresa em rede concretiza a cultura
da economia informacional/global: transforma sinais em commodities,
processando conhecimentos”.
Por fim,
vale destacar que esta nova configuração econômico-social tem-se
mostrado excludente, na medida que amplia a distância entre os
inseridos e os excluídos na nova ordem, agravando a concentração de
renda.
Como afirma RIFKIN (1995:XIX), “as
tecnologias da informação e das comunicações e as forças de mercado
globais estão polarizando rapidamente a população mundial em duas
forças irreconciliáveis e potencialmente antagônicas – uma nova elite
cosmopolita de ‘analistas simbólicos’, que controlam as tecnologias e
as forças da produção, e o crescente número de trabalhadores
permanentemente demitidos que têm poucas esperanças e perspectivas
ainda menores de empregos significativos na nova economia global da
alta tecnologia”.
“Portanto, as sociedades estão
ficando aparentemente dualizadas, com uma grande camada superior e
também uma grande camada inferior, crescendo em ambas as extremidades
da estrutura ocupacional, portanto encolhendo no meio, em ritmo e
proporção que dependem da posição de cada país na divisão do trabalho
e de seu clima político. Mas, lá no fundo da estrutura social
incipiente, o trabalho informacional desencadeou um processo mais
fundamental: a desagregação da sociedade do trabalho, introduzindo a
sociedade em rede” (CASTELLS, 1999:351).
2.
O terceiro setor e o desafio da gestão
2.1
Características organizacionais do terceiro
setor
Nas últimas décadas, ocorreu uma explosão de
organizações sem fins lucrativos em todo o mundo. Apesar de já
existirem a séculos no mundo ocidental, nos últimos anos, estas
entidades aumentaram significativamente sua participação na sociedade
e na economia, ganhando visibilidade cada vez maior.
No Brasil, a raiz das organizações do
terceiro setor está nos movimentos sociais e políticos de esquerda
(FISCHER & FALCONER, 1998), os quais surgiram, em grande parte, na
resistência ao regime militar. Contudo, apesar da importância dos
movimentos sociais, no Brasil, assim como no restante do mundo, o
surgimento do terceiro setor tal como conhecemos hoje está intimamente
relacionado com a queda da participação estatal na área social. Apesar
de no nosso país nunca ter existido um Estado de bem-estar social, nas
duas últimas décadas, o Estado brasileiro tem procurado transferir ao
máximo a prestação de serviços sociais para a sociedade civil,
diminuindo seus custos administrativos. Esta política abriu espaço
para o crescimento das organizações privadas de finalidade pública no
Brasil.
O segmento de organizações da
sociedade civil que não visam lucro carece de uma conceituação e
classificação mais precisa. Diversas denominações têm sido empregadas,
tais como: organizações não-governamentais (ONGs), organizações da
sociedade civil (OSCs), organizações do terceiro setor (organizações
do terceiro setor), organizações sem fins lucrativos, entre outras.
Contudo, a expressão preferida e que tende a ganhar maior
reconhecimento é “terceiro setor” (LANDIM & BERES, 1999).
Dentre as diversas conceituações de
terceiro setor, destaca-se a definição de SALAMON & ANHEIER (1997).
Estes, estudando organizações do terceiro setor em todo o mundo,
apresentam cinco características que de alguma forma devem estar
presentes em todas elas:
-
Organizadas: ainda que não sejam
legalmente formalizadas, precisam ter um sentido de permanência em
suas atividades, possuir conselhos e realizar reuniões periódicas;
-
Privadas;
-
Não distribuírem lucros: ainda que as receitas
sejam maiores que as despesas, todo o “lucro” deve ser revertido
para a própria organização;
-
Autogovernáveis: existência independente do
Estado ou de empresas;
-
Voluntárias: devem apresentar algum grau de
voluntariado, tanto no trabalho quanto no financiamento (doações).
Diante do grande crescimento do terceiro
setor no mundo, e particularmente no Brasil, é interessante analisar
alguns números para que se possam perceber as dimensões do setor em
questão e seu potencial de crescimento ainda maior.
Só nos Estados Unidos, segundo DRUCKER
(1999), oitenta milhões de pessoas dedicam uma parte regular de seu
tempo, todas as semanas, para trabalhar em alguma organização do
terceiro setor. Segundo o autor, eles fazem isto pela satisfação de
contribuir, de ser parte de uma comunidade, algo inerente a todos os
seres humanos. Enquanto o setor empresarial constitui 80% do PIB dos
Estados Unidos e o setor governamental é responsável por outros 14%, o
terceiro setor já representa 6% da economia nacional e 9% da população
ocupada (RIFKIN, 1995).
No Brasil, segundo matéria publicada na FOLHA DE
SÃO PAULO (1999), um milhão e meio de pessoas trabalham em
organizações do terceiro setor. Segundo dados apresentados pelo
jornal, a taxa anual de crescimento desta mão-de-obra, nos últimos
anos, tem sido superior a 10%, o que indica a existência de um grande
campo para ampliação destas atividades. Aqui incluem-se as
Organizações Não Governamentais, entidades filantrópicas, religiosas,
clubes, entre outros.
Dados mais consistentes podem ser
extraídos do trabalho de LANDIM & BERES (1999). Em termos de pessoal
ocupado, a pesquisa encontrou 1.120.000 pessoas trabalhando com
remuneração no setor sem fins lucrativos. Entre 1991 e 1995, este
número cresceu 44,3%. É significativo também o número de pessoas que
realizam trabalho voluntário: 16% da população acima de dezoito anos.
O crescimento e fortalecimento do
terceiro setor trazem a necessidade de se formular modelos de gestão
adequados a estas organizações, como discutido a seguir.
2.2
O desafio da gestão no terceiro setor
Nos últimos anos, a preocupação com
aspectos relacionados à gestão tem crescido significativamente entre
as organizações do terceiro setor. Conforme afirma FALCONER
(1999:110), “há um virtual consenso entre estudiosos e pessoas
envolvidas no cotidiano de organizações sem fins lucrativos de que, no
Brasil, a deficiência no gerenciamento destas organizações é um dos
maiores problemas do setor, e que o aperfeiçoamento da gestão –
através da aprendizagem e da aplicação de técnicas oriundas do campo
de Administração – é um caminho necessário para o atingir de melhores
resultados”.
Contudo, as particularidades das
organizações do terceiro setor e seu papel cada vez mais destacado na
sociedade e na economia requerem o desenvolvimento de sistemas de
gestão e operação próprios. Como afirma HUDSON (1999:XIII), “a
administração não pode ser importada sem alterações e imposta às
organizações orientadas por valores. Diferenças importantes e sutis,
enraizadas nas diferentes naturezas que permeiam essas organizações,
precisam ser compreendidas. ... O terceiro setor precisa de teorias de
administração próprias adotadas e adaptadas para adequar-se às suas
necessidades”.
Se, por um lado, as organizações do
terceiro setor estão começando a perceber a importância de contarem
com sistemas de gestão mais eficientes, por outro, o crescimento e
visibilidade que ganharam nos últimos anos despertaram o interesse da
comunidade científica, originando os primeiros trabalhos enfocando
temas organizacionais e de gestão do terceiro setor no Brasil.
Em um dos trabalhos pioneiros neste tema, FALCONER
(1999) se propõe a analisar a “promessa do terceiro setor” no Brasil,
ressaltando alguns aspectos a serem considerados no estudo da gestão
destas organizações. Neste sentido, o autor identifica quatro
aspectos principais a serem desenvolvidos na gestão do terceiro setor:
accountability (transparência), sustentabilidade, qualidade dos
serviços, capacidade de articulação (quadro 1). Segundo o autor, cada
um destes aspectos engloba uma série de ações e deve ser estudado em
profundidade, constituindo uma agenda para a formação de um campo de
conhecimento específico de administração de organizações sem fins
lucrativos.
|
Desafio |
Descrição |
Accountability
|
Necessidade de
transparência e responsabilidade da organização em prestar contas
perante os diversos públicos que têm interesses legítimos diante
delas |
|
Sustentabilidade |
Capacidade de
captar recursos – financeiros, materiais e humanos – de maneira
suficiente e continuada, e utilizá-los com competência, de maneira
a perpetuar a organização e permiti-la alcançar os seus objetivos
|
|
Qualidade dos
serviços |
Uso eficiente
dos recursos e avaliação adequada do que deve ser priorizado, em
função dos recursos disponíveis, das necessidades do público e das
alternativas existentes |
|
Capacidade de
articulação |
Formação de
redes, fóruns, associações, federações e grupos de trabalho, de
forma real ou virtual, permitindo articulação e intercâmbio de
informação |
Quadro 1: Desafios de gestão para
organizações do terceiro setor segundo FALCONER (1999).
Com relação ao último dos temas
propostos, FALCONER (1999:135) afirma: “as organizações do terceiro
setor não poderão mais atuar de forma isolada se pretenderem abordar
de forma séria os complexos problemas sociais para os quais são
geralmente criadas. (...) O paradigma do século XX segundo o qual
problemas são melhor enfrentados por organizações formais é, aos
poucos, substituído por um modelo que enfoca a necessidade de
articulação em redes. Em lugar de privilegiar o espaço organizacional,
olha para as relações: entre indivíduos, grupos, organizações, setores”.
Percebe-se, portanto, que a
organização em redes pode trazer benefícios para as organizações do
terceiro setor. O próximo capítulo discutirá esta questão.
3.
As redes organizacionais no terceiro setor
Não são somente as empresas com fins
lucrativos que podem beneficiar-se da organização em redes. Conforme
coloca CASTELLS (1999:89), “a lógica do funcionamento de redes,
cujo símbolo é a Internet, tornou-se aplicável a todos os tipos de
atividades, a todos os contextos e a todos os locais que pudessem ser
conectados eletronicamente”. Este movimento, que atinge toda a
sociedade contemporânea, tem-se refletido também no terceiro setor.
Conforme observa MANCE (1999:24), “todo
o conjunto de ações solidárias que destacamos anteriormente, ao
considerar o setor público não-estatal, tende aos poucos a se conectar
em grandes redes a partir de fóruns e de outros mecanismos para
comunicação, deliberação e ação articulada”.
Este capítulo examinará, portanto,
como o fenômeno das redes tem impactado o terceiro setor e o potencial
que aquelas trazem para estas organizações. Antes disto, contudo, será
feita uma breve discussão sobre as redes na economia solidária, a qual
é composta por organizações que, embora possuam fins lucrativos,
apresentam algumas características que as aproximam mais do terceiro
setor do que as empresas privadas tradicionais.
3.1
Redes organizacionais na economia solidária
A economia solidária é um modo de
produção que se contrapõe à lógica do modo de produção dominante, o
capitalismo. Fazem parte da economia solidária o conjunto de
organizações privadas, que competem no mesmo mercado que as empresas
capitalistas, mas que, diferentemente destas, não estruturam suas
relações produtivas sobre a separação capital-trabalho. O surgimento
da economia solidária é decorrente da incapacidade do capitalismo de
integrar em sua economia todos os trabalhadores.
A forma
mais comum de organização solidária são as cooperativas, as quais
podem ser de produção, comercialização ou de crédito. Nas cooperativas
de produção e comercialização, trabalhadores se organizam de forma
auto-gestionária para gerenciar o negócio. Não há mais a divisão
capital e trabalho: os cooperados são ao mesmo tempo trabalhadores e
donos do empreendimento. Parte do excedente gerado é reinvestida na
cooperativa e outra parte é distribuída aos cooperados de acordo com
suas cotas de participação.
Conforme afirma SINGER (2002:9), “a
chave desta proposta é a associação entre iguais em vez do contrato
entre desiguais. Na cooperativa de produção, protótipo de empresa
solidária, todos os sócios têm a mesma parcela de capital e, por
decorrência, o mesmo direito de voto em todas as decisões. Este é o
seu princípio básico”.
Já nas cooperativas de crédito, os
cooperados contribuem com uma cota em dinheiro para que todos os que
necessitam possam tomar empréstimos a uma taxa de juros bem menor que
as praticadas pelo mercado.
As organizações integrantes da economia solidária
têm percebido as vantagens da organização em redes. Surgidos para
oferecer uma nova oportunidade aos trabalhadores excluídos do mercado
de trabalho capitalista, os empreendimentos solidários passam a se
organizar em redes de consumo e produção.
O Projeto Redes de Colaboração Solidária busca “apoiar
a implantação de Redes de Colaboração Solidária Locais, com a
perspectiva de promover sucessivos movimentos de agregação, visando
constituir redes de maior abrangência (regionais e internacionais),
aumentando-se desse modo a oferta de produtos e serviços no interior
das redes e estabilizando-se maiores volumes de demandas solidárias a
serem atendidas pela própria rede sob parâmetros de equilíbrio
sustentável, garantindo-se o bem viver de consumidores e produtores”
(www.redesolidaria.com.br).
Como afirma MANCE (2001:56), “a
Rede de Colaboração Solidária conecta células constituídas pelos
membros da rede produtiva e de suas famílias, que trabalham e consomem
motivados pela colaboração solidária. Das células de consumo
participam também aqueles que trabalham para o capital mas que
solidariamente promovem compras comunitárias mensais”.
Fundamental para o sucesso da rede é o
consumo solidário. Segundo MANCE (2001:48), “sob a lógica da rede
solidária ... toda célula produtiva é, primeiramente, uma célula de
consumo e todas as células da rede interligam-se por movimentos de
consumo e produção. ... Tudo o que se requer para que a implantação de
uma rede econômica ocorra é a colaboração solidária – neste caso,
basicamente, o consumo e o trabalho solidário”.
O maior exemplo de rede solidária é o complexo
cooperativo de Mondragon na Espanha. Localizado no país basco, reúne
35 mil trabalhadores organizados em cooperativas de produção. Os
produtos produzidos em Mondragon competem de igual para igual com
similares fabricados em empresas capitalistas, sendo que muitos deles
são líderes de mercado na Espanha e exportados para diversos
continentes.
No nosso país, em junho de 2000, foi organizada a
Rede Brasileira de Socioeconomia Solidária (RBSES), constituída de
centenas de empreendimentos de economia solidária (nos campos de
consumo, produção, comércio, serviço e crédito) em todo o país
integrados por diversas redes e fóruns locais, regionais e estaduais.
Seus principais objetivos são (MANCE, 2003):
-
Organizar e
fortalecer atividades e empreendimentos da economia solidária,
constituindo redes locais, regionais, nacional e global;
-
Multiplicar
formas de comunicação;
-
Integrar
atividades de produção, comercialização, consumo e crédito;
-
Mapear os
empreendimentos, seus produtos, serviços e consumos;
-
Criar
instrumentos de comunicação, financiamento, capacitação e
desenvolvimento;
-
Maximizar o uso e
a extensão da informática pelas redes e seus participantes;
-
Construir de baixo para cima a
socioeconomia solidária, afirmando os valores do trabalho
emancipado, da propriedade e da gestão cooperativas dos meios de
produzir as riquezas;
-
Atuar frente ao Estado fazendo
parcerias, acordos pontuais ou ações de pressão e resistência.
A RBSES se articula internacionalmente
na Rede Global de Socioeconomia Solidária. Esta, lançada durante a
realização do Fórum Social Mundial em Porto Alegre em 2001, congrega
redes nacionais e locais de diversos países.
Segundo MANCE (2003:295), um dos
objetivos da RSM é “criar e construir coletivamente uma interface
virtual que consista em um sistema de dados e processos que permitam:
integrar e intercambiar experiências e elaborações, dialogar sobre
temas de interesse, mobilizar-se, apoiar-se mutuamente, realizar
reuniões, hospedar gratuitamente sítios de movimentos e organizações,
obter informações independentes sobre acontecimentos da conjuntura,
conhecer e interagir com experiências alternativas, fazer downloads de
softwares livres, integrar-se, ofertar, adquirir e vender produtos e
serviços de economia solidária, entre outros programas e projetos”.
Outra iniciativa que tem prosperado em
diversas localidades são os clubes de troca, reconhecidos pela sigla
inglesa LETS (Local Employment and Trading Systems). Segundo
MANCE (2001:98), “a idéia central do sistema é permitir que
vizinhos de uma mesma comunidade possam intercambiar mercadorias e
serviços sem valer-se de moedas”. BLUNT (1998) apud MANCE (2001)
aponta os seguintes benefícios dos LETS:
-
As pessoas têm seu dinheiro liberado
para outros pagamentos;
-
Estreita laços
comunitários;
-
Fortalecimento
dos negócios locais;
-
Redução da
dependência de dinheiro para as organizações sem fins lucrativos;
-
Beneficia o
meio-ambiente, pois a compra local diminui os gastos com energia de
transporte.
Por fim, vale destacar que, segundo
alguns autores, as redes de colaboração solidária apresentam um papel
que vai além do meramente econômico, influenciando todas as dimensões
da vida das pessoas que delas participam. Segundo MANCE (2001:34), a
colaboração solidária “...apresenta novas relações de produção que
subvertem as relações de produção capitalistas e que expandindo-se em
redes, multiplicando suas células por toda a parte, incorporando ao
processo produtivo e de consumo os excluídos do capital, poderá
fortalecer-se ao ponto de avançar em transformações não apenas
econômicas, mas políticas e culturais que extrapolem as fronteiras
regionais e nacionais, promovendo o surgimento de novas relações de
produção pós-capitalistas – uma sociedade centrada na colaboração
solidária”.
3.2
Algumas iniciativas de redes no terceiro
setor
Nos últimos anos, têm surgido também
iniciativas de redes no terceiro setor brasileiro. Uma das mais
conhecidas é a Rede de Informações do Terceiro Setor (RITS). Trata-se
de uma rede virtual, organizada a partir de um portal na Internet,
cuja missão é “oferecer informações sobre o terceiro setor e acesso
democrático à tecnologia de comunicação e gerência do conhecimento”
(www.rits.org.br).
A RITS é composta tanto de
organizações quanto de pessoas físicas. Dentre outros serviços, a rede
oferece consultoria em gestão para os seus associados nas áreas de “financiamentos,
parcerias, marketing, finanças, recursos humanos e outros aspectos da
administração. Nossos associados contam ainda com serviço de consulta
por correio eletrônico a especialistas em administração de
organizações da sociedade civil”.
Iniciativa semelhante é a do Portal
Setor3, criado pelo Centro de Tecnologia de Gestão do Terceiro
Setor do Senac São Paulo. O site “combina jornalismo e prestação de
serviços destinado a estudantes, dirigentes, voluntários e
colaboradores de organizações da sociedade civil, profissionais de
empresas socialmente responsáveis e interessados em Terceiro Setor ...
[com o objetivo de] informar, mobilizar e integrar organizações
e ampliar o debate em torno de questões sociais” (www.setor3.com.br).
Estas são algumas iniciativas
pioneiras, que apontam os benefícios que as redes podem trazer para o
terceiro setor. Neste sentido, contudo, ainda existe um grande
potencial a ser explorado.
3.3
Um potencial a ser explorado
A associação em redes pode trazer
inúmeros benefícios para as organizações do terceiro setor. Em
primeiro lugar, fazer parte de uma rede em âmbito local, nacional ou
internacional pode conferir à organização maior visibilidade junto a
diferentes públicos (potenciais clientes, voluntários, financiadores,
Estado, etc.). Esta visibilidade é fundamental para a captação de
recursos, tanto financeiros quanto humanos (trabalhadores
voluntários), tão importantes para a sobrevivência no terceiro setor.
Muitas organizações do terceiro setor
têm sua missão baseada na defesa de uma causa ou direito. São as
chamadas “ONGs cidadãs” (GOHN, 1997) ou “organizações promotoras de
campanhas” (HUDSON, 1999). Para estas entidades, a articulação em
redes é uma forma muito importante de difundir sua causa, alcançando
um maior número de pessoas.
Além de visibilidade, as redes
conferem credibilidade às organizações do terceiro setor. Numa área
onde existem muitas entidades de fachada com fins escusos, diferenciar
as organizações verdadeiramente comprometidas com a missão é
fundamental. Neste sentido, fazer parte de uma rede pode dar à
organização um respaldo que garanta sua legitimidade e credibilidade
perante seus diferentes stakeholders ou públicos interessados.
A rede pode contribuir decisivamente para tornar a organização
“transparente”, estimulando sua accountability.
Outra função das redes é propiciar o
compartilhamento de recursos entre seus membros. A grande maioria das
OTS enfrenta a escassez de recursos, pois seu pequeno porte e
orçamento limitado e as impedem de adquiri-los. Agrupando-se em rede,
elas podem compartilhar recursos, garantindo umas às outras o acesso a
instrumentos que dificilmente teriam atuando isoladamente.
Contudo, mais que recursos, as redes
podem ser o espaço para as OTS compartilharem ferramentas e práticas
de gestão. Conforme discutido anteriormente, o terceiro setor é
carente de modelos e ferramentas de gestão próprias. Atuando em redes,
muitas organizações podem valer-se da experiência de outras, criando
um espaço para o intercâmbio de teorias e práticas e contribuindo para
o desenvolvimento de todos os membros da rede.
Conforme afirma RIFKIN (2001:15), “ao
inserir a própria empresa em uma rede de relações recíprocas
mutuamente benéficas destinadas a otimizar o esforço coletivo, é mais
provável que o sucesso de cada empresa seja mais garantido – o que
alguns na comunidade empresarial referem como estratégia vencer-vencer”.
Esta afirmação tem-se mostrado válida tanto para o mundo empresarial
quanto para o terceiro setor.
Cabe, ainda, destacar que a Tecnologia
da Informação permite hoje a formação de redes de organizações do
terceiro setor, sem implicar em custos adicionais para estas. A
proposta não é criar uma estrutura burocrática que enrijeça e onere as
organizações. Ao contrário, deve-se explorar o potencial da
virtualidade, constituindo redes fluidas e flexíveis, que nada mais
sejam que um espaço para a articulação entre os membros.
Conforme constata FALCONER (1999:136),
“as redes que se formam hoje são organizações formais, como fóruns,
associações, federações e grupos de trabalho mas, crescentemente, são
formadas iniciativas ‘virtuais’ de articulação e intercâmbio de
informação. A comunicação eletrônica tem um impacto no terceiro setor
ainda maior do que tem tido nos outros setores”.
4. Conclusão
Percebe-se, portanto, que a formação
de redes organizacionais é um movimento cada vez mais forte no mundo
empresarial, seja entre as grandes multinacionais ou entre as pequenas
e médias corporações.
O terceiro setor, carente de modelos
próprios e, procurando acompanhar as tendências do Mercado, também tem
seguido nesta direção, embora ainda de forma tímida.
Procurou-se mostrar os benefícios que
a articulação em redes pode trazer para o terceiro setor. Acredita-se
que as redes constituem um mecanismo não só para o fortalecimento
destas organizações, como um espaço para o intercâmbio de experiências
e ferramentas.
Neste sentido, a formação de redes
organizacionais no terceiro setor deve ser estimulada. Sendo redes
virtuais, não há limite para a sua multiplicação e crescimento. A
dinâmica de funcionamento de cada rede é que vai definir sua
composição e tamanho ótimo.
É preciso observar, porém, uma regra
básica para o funcionamento de qualquer rede. Conforme coloca MANCE
(2001:158), “quaisquer que sejam as regulações que a rede
estabeleça a si mesma, elas têm que respeitar o princípio da adesão
voluntária por parte dos participantes”.
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* Cristiano Rocha Heckert é
doutorando em Engenharia de Produção na Escola Politécnica da
Universidade de São Paulo.
** Márcia Terra da Silva é Professora Doutora do Departamento de
Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São
Paulo.
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